Farioli revela o momento duro em que lhe disseram: «Jamais conseguirás…»
Tal como Immanuel Kant, um dos fascínios de Francesco Farioli era «o céu estrelado acima de mim». Mas a ideia de estudar o espaço cientificamente logo caiu por terra. Aquele jovem achou que podia refletir sobre o Universo de outra maneira e encontrou na filosofia uma paixão.
«Quando terminei o ensino secundário diziam que se fosse para Economia, quando terminasse o curso, tens 25% de probabilidade de encontrar emprego nos dois meses seguintes. Esses números e percentagens criaram em mim um sentimento de me querer afastar desse caminho. Por isso, tirei o meu tempo e disse: ‘Não sei bem o que fazer, mas quero investir em mim próprio de forma a que, talvez ao fim de dois, três ou quatro anos consiga fazer qualquer coisa de uma forma melhor’. E foi o que fiz. Foi esse o momento em que decidi escolher filosofia como o primeiro passo na vida de um jovem adulto», revelou, numa palestra com alunos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
«Nessa fase tinha esta paixão pela filosofia e, por outro lado, era um jogador de futebol muito mau. Um guarda-redes muito mau. Fiz sempre tudo de uma forma muito profissional, mas não era suficiente», lamentou antes de recordar um momento que o marcou para sempre. «E isto é algo que espero que guardem convosco quando saírem daqui: às vezes podemos encontrar pessoas que nos vão dizer uma verdade dura que, talvez naquele momento, não vamos apreciar tanto quanto deveríamos, mas passados alguns anos possamos dar-lhe um valor diferente. A certa altura, essa conversa acontece. Tinha 19 anos e um dos meus treinadores veio ter comigo e disse: ‘Francesco, quero ser realmente honesto e transparente contigo, porque vejo o tipo de esforço que estás a fazer para tentar continuar a jogar. Não acredito que vás conseguir. Não acredito que venhas a ser recompensado pelo esforço que estás a depositar. Podes ter, sim, o prazer de prolongar a tua carreira por mais um pouco, mas nunca, jamais, serás um jogador de futebol profissional», contou.
«Foi bastante difícil e levei algum tempo a aceitar. Durante dois anos, desci ainda mais... E acreditem, não foi fácil, porque eu estava quase no nível mais baixo do futebol», confessou. Ainda assim, o mesmo treinador não o deixou totalmente desamparado: «Sugeriu-me que começasse a trabalhar com ele como treinador. Disse-me: ‘Desde que te conheço, há cerca de quatro ou cinco anos, sempre senti que já eras treinador, desde que tinhas 15 ou 16 anos, pela forma como te comportas, pela forma como vês o jogo e pela forma como lideras os teus colegas de equipa.»
Depois da desilusão em campo, o jovem Francesco agarrou-se aos livros e ao treino, tendo, então, chegado a uma reflexão: «Pensei muito e concluí: ‘Tenho de tentar combinar as minhas duas paixões numa só coisa’. Fui ter com um professor, bati-lhe à porta e disse: ‘Bom dia, gostava de fazer a tese consigo e o título da tese é este: Filosofia do Jogo: a estética do futebol e o papel do guarda-redes'.»
«Isto não é La Gazzeta dello Sport»
O técnico dos portistas conta que a resposta do seu professor não foi a mais simpática: «Disse-me: ‘Senhor Farioli, gostava apenas de lhe lembrar que estamos na Faculdade de Filosofia da Universidade de Florença, não estamos na Gazzetta dello Sport’. Nesse ponto, tive de reagir rápido e dizer: ‘Eu sei, dê-me tempo para explicar’. Consegui deixá-lo realmente curioso sobre o que eu tinha em mente. E ele disse-me: ‘Tudo bem, dou-te tempo para pensares, para vires com um trabalho um pouco mais orgânico, e a partir daí veremos. Mas, se eu não gostar, aviso-te já, vou deitar tudo para o lixo e tens de começar de novo com o que eu acho que deves fazer.’»
Mas correu bem: «Três meses depois, voltei ao meu professor e a tese estava feita. Tinha mais de 100 páginas. Cheguei lá e coloquei-a em cima da secretária. Ele olhou para mim outra vez e disse: ‘Eu disse-te para vires aqui com uma ideia que pudéssemos desenvolver juntos.’ E eu respondi: ‘Sim, porque o senhor pediu-me para ter uma apresentação orgânica do que eu penso, por isso pus tudo ali e partimos daí.’ Ele disse: ‘Tudo bem, dá-me tempo para ler. Mais uma vez, se eu não gostar, lamento muito, tens de começar do zero.’ Quatro dias depois, veio ter comigo apenas com algumas correções, alguns elementos para ajustar ou coisas para acrescentar. E, assim, nasceu a tese.»
«A partir daí, foi um passo de cada vez, muitas mudanças, até chegar à Serie A como treinador de guarda-redes. Quando tinha 30 anos, tomei a decisão de ir para a Turquia para tentar passar de treinador de guarda-redes a treinador principal. Fiz seis meses como treinador adjunto num clube turco muito pequeno e seis meses depois comecei a minha carreira, até chegar ao FC Porto», concluiu o (sete anos depois) campeão nacional.
A única coisa que quero dizer com este CV que partilhei convosco é apenas que não se preocupem se às vezes se sentirem perdidos, ou sentirem que não estão no caminho certo. Se há algo que vos posso dizer é para seguirem o que têm dentro de vocês e terem a coragem - às vezes pode ser um pouco de loucura - de seguir o vosso instinto e tentar. Porque, no fundo, a única forma de alcançar é essa e, se não aceitares o facto de poderes falhar, nunca o farás. Esta é a única certeza que tens. E isto é algo que também digo sempre aos jogadores. Exijo-lhes muita curiosidade. Sabendo que se queremos chegar a um determinado sítio, há 7000 formas diferentes de o fazer.
Artigos Relacionados: