Farioli: o filósofo que vê o futebol como «um jogo de palavras-cruzadas»
Francesco Farioli marcou presença na sessão desta quinta-feira das "Conversas que Inspiram", promovida pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, cujo tema: filosofia, futebol e o que significa ser campeão. O técnico, formado na referida área humanística, contou como é que as suas «duas paixões» se cruzam e como a filosofia o ajudou a ser campeão: «Se há algo que a filosofia me dá é a capacidade de nos reinventarmos.»
O treinador dos azuis e brancos revelou abordar o futebol pela «beleza do jogo», argumentando que, «mesmo jogos aborrecidos, podem ter momentos belos». «Beleza não significa que os 90 minutos tenham de ser brilhantes. A forma como eu abordo as coisas é, com certeza, sendo muito bem organizados, tendo, como disse, uma identidade e a capacidade de sermos capazes de lidar com todas as exigências do jogo», acrescentou.
Para o campeão nacional, o papel do treinador assemelha-se ao de alguém que se senta no sofá a resolver um jogo de palavras-cruzadas: «O papel de um treinador, na minha opinião, hoje em dia, é o de construir um modelo de jogo - que, para mim, é como um jogo de palavras-cruzadas -, onde o objetivo é deixar o menor número possível de quadrados vazios. Por isso, quanto mais formos capazes de integrar tudo e de ligar as diferentes fases do jogo, tal como as letras, provavelmente mais perto e mais próximos estamos do sucesso.»
O caos e a ordem, representada nos Aliados
Fazendo uma analogia com um jogo de futebol, Francesco Farioli refletiu também sobre a capacidade singular que os humanos têm para acabar com a desordem: «Na capacidade de reduzir o caos, é onde sinto que o impacto humano tem a possibilidade de mostrar as qualidades que temos. Há alguns dias tivemos uma imagem fantástica disso. Até às três da manhã, a cidade estava cheia de gente a saltar, a celebrar, a mostrar o que significa ganhar pelo FC Porto. Na manhã seguinte, os Aliados tinham voltado à realidade: em ordem, com paz, com calma.»
«Esperemos ter daqui a um ano outra oportunidade de trazer outra vez umas quantas pessoas para ali. Voltando ao que o jogo significa na realidade e ao o que a vida significa: para celebrar, tens de sofrer, ou passar pela dor; para seres um grande estudante, tens de suar sobre os livros; para seres uma equipa que é capaz de ser campeã, ou que pode criar as condições para ser campeã, precisas de acreditar e precisas de depositar o esforço quando não há garantia de recompensa», aconselhou, aos cerca de 120 alunos que assistiram à palestra.
«Digam-me se isto não é algo que podem levar como uma comparação com o que fazem todos os dias. Digam-me quantos de vocês têm a certeza sobre o vosso futuro. Digam-me quantos de vocês sabem exatamente quem serão daqui a dez anos. Para vos deixar confortáveis, eu também não sabia, mas espero que todos vocês recebam a mesma recompensa que eu tenho recebido nos últimos anos. Sinto-me muito sortudo por viver este tipo de emoções e sentimentos», findou o mister.