Hugo Viana com Ruben Amorim na apresentação do jovem técnico no Sporting, a 5 de março de 2020 - Foto: Sérgio Miguel Santos
Hugo Viana com Ruben Amorim na apresentação do jovem técnico no Sporting, a 5 de março de 2020 - Foto: Sérgio Miguel Santos

Faltou um Viana a Amorim

Acreditou que poderia ser muito mais que um treinador num clube que tritura quem ocupa aquele cargo; até que ponto Alex Ferguson conseguiria resistir a estes tempos modernos?

O que tornou Alex Ferguson o melhor treinador da história do Manchester United e um dos melhores de sempre do futebol mundial não foi ser um mestre da tática e da estratégia, mas por ser um defensor intransigente de uma cultura de clube. Patrice Evra contou uma vez que o escocês só lhe fez uma pergunta antes de assinar contrato: «Estás disposto a morrer por este clube?» «Sim», respondeu. O outro estendeu-lhe a mão: «Bem-vindo ao Manchester United, filho.»

Todos os que jogaram naqueles anos pelos red devils destacam o cuidado que Fergie tinha no tratamento individual  (sabia até o nome do avô de cada um e a marca de whisky preferida) mas era implacável nos valores, daí os atritos com estrelas como Jaap Stam, Van Nistelrooy,  David Beckham e Robbie Keane.

Tenho muitas dúvidas se um tipo de liderança como a de Ferguson teria sucesso no Manchester United de hoje. Ou no Chelsea; ou em qualquer outro clube com proprietários que vieram de fora do ecossistema e que encaram o futebol apenas como mais uma maneira de ganhar dinheiro.

Olhando para o ano que passou, parece claro que o maior erro de Ruben Amorim nos red devils foi o de tentar ser o tal manager que queria mudar a «cultura». Esta palavra foi dita, vezes sem conta, pelo ex-treinador do Sporting nas muitas conferências de imprensa. De que era preciso mudar a mentalidade em muitos departamentos, do scouting à formação. Talvez tenha sido demasiado ambicioso e até ingénuo pensar que conseguiria ajudar a transformar o clube por dentro.

Talvez lhe tenha faltado um Hugo Viana e até mesmo um Frederico Varandas que o escudaram e suportaram nos momentos difíceis e até polémicos no Sporting. Quem não se recorda de Ver Mathieu e Slimani riscados do mapa de opções dos leões? E como de imediato o treinador agarrou o plantel? Transportando para Manchester, será que a gestão de Garnacho, Mainoo e outros tiveram o mesmo tipo de respaldo ou Amorim foi-se tornando um homem cada vez mais isolado nas suas convicções, por vezes parecendo falar para o vazio, incluindo jogadores que, como o técnico uma vez, incredulamente, afirmou, «não veem futebol»?

O 3x4x3 nunca poderá ter sido o problema, Conte já foi campeão assim no Chelsea. A questão de fundo parece ser outra e que ultrapassa os méritos e deméritos de Ruben Amorim: o Man. United é uma máquina destruidora de treinadores. O erro dele foi acreditar que iria ser a exceção.