«Eu olhava para o Deco e achava sempre que ele ia perder a bola»
Deco e Maniche marcaram uma era no FC Porto. Primeiro nas Antas e depois no Dragão, os dois jogadores formaram, juntamente com Costinha, uma das melhores linhas médias de que há memória no futebol português. Com José Mourinho a ditar a lei no banco, os dois antigos internacionais lusos ajudaram os dragões a dominarem a nível interno e na Europa, com as conquistas da Taça UEFA (2003) e Liga dos Campeões (2004). Mas o talento das duas lendas começou a ser moldado alguns anos antes, bem mais abaixo.
A época 1997/98 estava a começar quando o Alverca, então no segundo escalão nacional, recebeu, por empréstimo do Benfica, um miúdo gingão, acabado de chegar do Brasil. «Era muito acima da média. O Alverca funcionava como satélite do Benfica e havia ali um protocolo com o CSA, de Alagoas. O Deco, quando chega, mostra logo detalhes técnicos fantásticos, de todas as maneiras e feitios. É caso para dizer que chegou e encantou. Magia pura», lembra José Sousa, então também uma jovem promessa, a A BOLA.
Maniche já estava no clube ribatejano, igualmente cedido pelo Benfica. «Por comparação com o Deco, era mais pragmático, mais objetivo, menos forte tecnicamente, mas fortíssimo no aspeto tático. Curiosamente, tenho a ideia de que não era titular», refere Sousa. Após conferir os dados, confirma a suspeita. «Não era titular, não. Aliás, eu faço três jogos pelo Alverca nesse arranque de tempora e vou para o Benfica. Sei que, quando saio, o meio-campo é composto por mim, pelo Deco e pelo Juba. Depois é que me fixo como lateral-direito. O Maniche ia entrando, mas tenho de lhe tirar o chapéu», atira, antes de completar: «Ele sabia e acreditava no valor que tinha. O tempo e a carreira que fez vieram dar-lhe razão. Nunca desistiu, mesmo com os obstáculos que enfrentou. Acredito que, em tom de brincadeira, tenha pedido satisfações aos treinadores. 'Mas por que raio é que eu não jogo?'»
Tiro o chapéu ao Maniche. A crença que tinha nas próprias capacidades era inabalável
Cada um à sua maneira, tanto Maniche como Deco foram capazes de encontrar o caminho para o estrelato. «O Maniche faz a carreira que faz porque pensava dessa forma. Tinha uma crença inabalável nas capacidades dele. O Deco... era talento. Não me esqueço, eu via-o treinar e a jogar e pensava sempre que ele ia perder a bola, mas, no último momento, lá a puxava para a esquerda, para a direita... Era surreal», remata Sousa, que viria a coincidir novamente com o Mágico no FC Porto (ver rodapé). Maniche chegou à Invicta um pouco depois, mas muito a tempo de deixar marca. E tudo começou no Ribatejo...
«No estágio em Clairefontaine rebentei o joelho»
Após duas épocas no Benfica, José Sousa voltou ao Alverca em 1999/2000, ajudando os ribatejanos a alcançarem a melhor classificação de sempre na Liga (11.º lugar), igualada em 2025/26. Mas o que havia de diferente naquela equipa? «Não tinha nada a ver com os plantéis anteriores. Ovchinnikov e Paulo Santos na baliza, começava logo aí. Na defesa era o Abel Silva, o Caneira, o Gaspar centralão, o Veríssimo, eu... E mais à frente estava o Kulkov, uma coisa extraordinária, o Diogo Maria, que viria a jogar no Sporting, o Ramires, o Milinkovic, que é pai dos irmãos Milinkovic-Savic. Talvez dos melhores estrangeiros com que joguei! Pé esquerdo, pé direito... Era como ele quisesse. E ainda havia o Nuno Assis, o Duda, o Anderson Luiz, que ainda foi para o Benfica, o Rui Borges baixinho e o Mantorras, que estava a aparecer. Era um super Alverca, treinado pelo José Romão», recorda o ex-futebolista. «Luís Filipe Vieira era o presidente e houve um investimento tremendo. Acabámos em 11.º, mas houve momentos em que estávamos classificados acima», acrescenta.
Após a viragem do milénio, e na sequência de alguns anos no eixo Benfica-Alverca, Sousa subiu perto de 300 quilómetros, assinando pelo FC Porto. Esteve ligado aos dragões durante três épocas, mas não chegou a fazer um jogo oficial com a camisola azul e branca, com o azar das lesões como principal culpado: «Fui emprestado ao SC Braga e tenho a sensação que foi das melhores épocas que fiz. Em 2001, no estágio em Clairefontaine, com o Octávio Machado a treinador, rebentei o joelho direito e, quando estava a recuperar, ainda estourei um tendão do lado direito do joelho». Seguiu-se nova cedência, ao Farense, e, nas Antas, tudo muda: «Aconteceu-me tudo isso. Mesmo em Faro, não cheguei a recuperar verdadeiramente e ainda tive de ser operado. Entretanto, o Mourinho assina pelo FC Porto. E o resto é história.»