Este Schmidt é lixado

Rui Costa tem o povo do seu lado. Os benfiquistas do Porto não cabem no Estádio do Dragão e os portistas de Lisboa nem metade do Estádio da Luz preenchem

COM três jornadas por realizar o Benfica mantém  bem guardados os quatro pontos de vantagem  que lhe sobraram depois de ter perdido seis em apenas duas jornadas e lançado o pânico na família da águia. Devido a esse deslize,  este jogo com o SC Braga revestiu-se de especial relevância e, também por isso, os adeptos voltaram a não faltar à chamada, sentindo que a sua presença  seria  crucial para debelar as fragilidades que a equipa tem vindo a denotar.

Vítor Serpa escreveu na sua crónica de sábado, publicada em A BOLA,  que «se o Benfica ganhar será campeão, se perder dificilmente o será e se empatar empurra com a barriga a decisão para Alvalade», numa alusão ao dérbi de Lisboa, daqui a duas semanas. Para alívio do universo encarnado, verificou-se a primeira hipótese, mas, em rigor, esta vitória ainda não é suficiente para chegar ao almejado 38, cujo rasto se perdeu algures, sem justificação plausível, vai para quatro anos. 

A partir daqui, com a cabeça no lugar e os pés na terra, o título de campeão, ainda não o sendo de verdade,  já o é no pensamento de quem há muito o  persegue e tanto  tem  lutado para o merecer.  Argumentará o adversário direto, no caso o FC Porto, segundo da classificação,  que em  futebol nenhuma certeza deve ser adquirida por antecipação, o que é uma dedução óbvia, mas o que manifestamente   preocupa o dragão são os ventos de mudança que sopram cada vez com mais intensidade e dão sinais iniludíveis de aproximação de novo  ciclo de supremacia benfiquista, desta vez, tudo leva a crer,  para ter uma vida longa, em contraposição ao que tem acontecido neste milénio.

ROGER SCHMIDT conseguiu uma vitória daquelas que valem mais do que três pontos. Por ter permitido acertar algumas contas com o emblema bracarense, consolidar este quadro de recuperação assente em vitórias, devolver a força de acreditar à massa adepta e repor os níveis de confiança entre os jogadores, trazendo de volta o ânimo e a alegria que parecia faltar-lhes. Além de ter demonstrado que o povo, o sócio anónimo, está com Rui Costa, o presidente que quer cavalgar as ondas da história e recuperar o estatuto europeu brilhantemente conquistado na década de 60 do século passado.

É precisamente essa ambição expressa por quem conhece o real poder do clube (Rui Costa, sublinho)  que incomoda os adversários.  Por exemplo, diz o treinador  leonino que lhe é indiferente quem vencer o Campeonato, mas não é.  Não podendo ser o Sporting, que seja o FC Porto, ou, em desespero, até o Braga, todos  menos o Benfica. Não o assume, mas é assim que pensa, por saber que se o seu rival de Lisboa chegar ao título este ano serão elevadas as probabilidades de repetir o feito no próximo e talvez no seguinte. 

Schmidt não será o melhor treinador do mundo, mas é um alemão frio e duro  que não alinha em choradeiras e tem a capacidade de descomplicar, enxergando soluções onde outros só veem problemas. Como se diz em bom português, é um tipo lixado, de combate. Ficou sem Enzo Fernández, e o que  disse? A equipa não fica mais fraca, fica diferente. Significativo.  Entretanto, inventou Chiquinho e arriscou em João Neves. Assim, em bicos de pés, é o segundo miúdo que lança, a seguir a António  Silva, e pelo que consta o central Tomás Araújo e o extremo Tiago Gouveia  irão regressar  à base. Ou seja, é o Benfica do futuro em construção, desta vez com um rumo e uma estratégia para deixar de navegar à vista da costa e adquirir competências para se aventurar  em todos os mares, por mais alterosos que sejam.

ANTÓNIO SALVADOR é um presidente que considero,  pela dimensão da obra  feita e  pela notável visão de futuro que, durante seu consulado, retirou o SC Braga da vulgaridade, comprou-lhe um bilhete de passageiro frequente na Europa e, cá dentro,  por força dos desempenhos desportivos, está exercer muita pressão para  ser acolhido como membro permanente do clube dos grandes. No entanto, não lhe ficou bem o comportamento no Estádio da Luz. Foi deselegante e creio que jamais arriscaria tamanho atrevimento se fosse convidado do amigo presidente do FC Porto, com quem um simples aperto de mãos é suficiente para fechar negócios.

Rui Costa vive o seu ano um como presidente e talvez  António Salvador ainda não se tenha habituado a essa realidade, olhando para ele como jogador. O que não desculpa o gesto, que não foi bonito, nem admissível, porque afronta uma instituição chamada Benfica. 

António Salvador, um empreendedor e uma espécie de bom rebelde na área do dirigismo, é livre de escolher os seus parceiros. O que fez, admito, não passou de  uma brincadeira de mau gosto, sem intenção de achincalhar o anfitrião e agradar a terceiros, mas o registo ficou. 

Rui Costa é boa pessoa,  foi muito bom jogador, tem prestígio e conhecimentos e quer ser bom presidente. Esta lição vai ajudá-lo.   Fê-lo  perceber  que  lidera o único clube com apoio social capaz de encher todos os estádios do país onde o Benfica vá jogar. Dito de outro modo, enquanto os benfiquistas do Porto não cabem  no Estádio do Dragão, os portistas de Lisboa  nem metade do Estádio da Luz preenchem.