Era uma vez no Seixal
Não foi a primeira vez que o Seixal recebeu a ‘visita’ de adeptos benfiquistas insatisfeitos (sim, eu sei que é um eufemismo), nem terá sido, creio, a última. Pelo que veio a público, a situação resolveu-se com diálogo, e acabou com as odes do hino encarnado a serem entoadas, alto e bom som. Mas nem sempre o que parece, é.
Qual foi o alcance desta incursão na academia dos encarnados? Pedir mais empenho aos jogadores? Avisar os responsáveis de que a paciência dos adeptos é finita? Fragilizar Rui Costa, depois deste ter sido sufragado massivamente? São boas questões, a que o tempo se encarregará de responder.
Janeiro não correu bem ao Benfica. Mas ser eliminado da Taça de Portugal, no Dragão, num jogo sumamente equilibrado, não configura escândalo; nem perder em Turim, quando se sabe que o mal na Champions derivou da derrota caseira com o Qarabag. Já sair da Taça da Liga, da forma como sucedeu, terá mais que se diga, pese embora o facto dos encarnados, na mesma competição, já terem falhado acessos à final às mãos, por exemplo, de Moreirense e Estoril.
Mas há que dizer, sem reticências, que o futebol do Benfica não tem convencido e a desilusão instalada é compreensível. O que não se compreenderá será qualquer decisão que hipoteque o futuro. José Mourinho tem-se debatido com a contradição entre o plantel que herdou e o futebol que quer, e, podendo melhorar a performance com as contratações de inverno, a que irão somar-se os regressos de Bruma e Lukebakio, a coerência entre o pensamento do treinador e o resultado dentro das quatro linhas só surgirá em 2026/27. Recordo as palavras de Mourinho quando treinava os leirienses, após passagem pela Luz: «com dois ou três jogadores da U. Leiria era campeão no Benfica.» Na época seguinte José Mourinho, já no FC Porto, contratou Tiago, Nuno Valente e Derlei ao seu anterior clube, e fez história. Quer isto dizer que o problema que existe no Benfica – e há um problema, visível no rendimento da equipa - não tem a ver com a qualidade do treinador e da restante equipa técnica, nem terá a ver com cada jogador, individualmente considerado, mas sim com necessidade de adaptar o plantel ao treinador, circunstância que precisa de tempo para ser concretizada. Mikel Arteta, com os meios de que o Arsenal dispõe, só nesta sexta época no clube começa a sentir-se confortável com os jogadores que lidera. No Benfica querem o quê? Tudo feito para ontem? Peço desculpa, mas, no futebol, isso não existe, pelo menos com bons resultados.
Há ainda outro aspeto que merece análise, a propósito da 'visita’ ao Seixal. O Benfica deve respeitar sócios e adeptos, são eles o clube. Mas não pode ficar condicionado pela iniciativa de 200 benfiquistas mais militantes, que demandaram a academia, ou por mil que compareçam nas Assembleias Gerais, sob pena de desrespeitar os 91 mil que participaram na segunda volta do último ato eleitoral. É por eles legitimado que Rui Costa, ouvindo todos, não pode deixar que o clube seja governado de fora para dentro. O que também é um teste à sua liderança, resiliência e convicções.