Era uma vez no Seixal

Rui Costa deve respeitar os duzentos adeptos que foram ao Seixal, ou os mil que vão às AG’s. Mas não pode desrespeitar os 91 mil que votaram nas últimas eleições, permitindo que o clube seja governado de fora para dentro.

Não foi a primeira vez que o Seixal recebeu a ‘visita’ de adeptos benfiquistas insatisfeitos (sim, eu sei que é um eufemismo), nem terá sido, creio, a última. Pelo que veio a público, a situação resolveu-se com diálogo, e acabou com as odes do hino encarnado a serem entoadas, alto e bom som. Mas nem sempre o que parece, é.  

Qual foi o alcance desta incursão na academia dos encarnados? Pedir mais empenho aos jogadores? Avisar os responsáveis de que a paciência dos adeptos é finita? Fragilizar Rui Costa, depois deste ter sido sufragado massivamente? São boas questões, a que o tempo se encarregará de responder. 

Janeiro não correu bem ao Benfica. Mas ser eliminado da Taça de Portugal, no Dragão, num jogo sumamente equilibrado, não configura escândalo; nem perder em Turim, quando se sabe que o mal na Champions derivou da derrota caseira com o Qarabag. Já sair da Taça da Liga, da forma como sucedeu, terá mais que se diga, pese embora o facto dos encarnados, na mesma competição, já terem falhado acessos à final às mãos, por exemplo, de Moreirense e Estoril. 

Mas há que dizer, sem reticências, que o futebol do Benfica não tem convencido e a desilusão instalada é compreensível. O que não se compreenderá será qualquer decisão que hipoteque o futuro. José Mourinho tem-se debatido com a contradição entre o plantel que herdou e o futebol que quer, e, podendo melhorar a performance com as contratações de inverno, a que irão somar-se os regressos de Bruma e Lukebakio, a coerência entre o pensamento do treinador e o resultado dentro das quatro linhas só surgirá em 2026/27. Recordo as palavras de Mourinho quando treinava os leirienses, após passagem pela Luz: «com dois ou três jogadores da U. Leiria era campeão no Benfica.» Na época seguinte José Mourinho, já no FC Porto, contratou Tiago, Nuno Valente e Derlei ao seu anterior clube, e fez história. Quer isto dizer que o problema que existe no Benfica – e há um problema, visível no rendimento da equipa - não tem a ver com a qualidade do treinador e da restante equipa técnica, nem terá a ver com cada jogador, individualmente considerado, mas sim com necessidade de adaptar o plantel ao treinador, circunstância que precisa de tempo para ser concretizada. Mikel Arteta, com os meios de que o Arsenal dispõe, só nesta sexta época no clube começa a sentir-se confortável com os jogadores que lidera. No Benfica querem o quê? Tudo feito para ontem? Peço desculpa, mas, no futebol, isso não existe, pelo menos com bons resultados. 

Há ainda outro aspeto que merece análise, a propósito da 'visita’ ao Seixal. O Benfica deve respeitar sócios e adeptos, são eles o clube. Mas não pode ficar condicionado pela iniciativa de 200 benfiquistas mais militantes, que demandaram a academia, ou por mil que compareçam nas Assembleias Gerais, sob pena de desrespeitar os 91 mil que participaram na segunda volta do último ato eleitoral. É por eles legitimado que Rui Costa, ouvindo todos, não pode deixar que o clube seja governado de fora para dentro. O que também é um teste à sua liderança, resiliência e convicções.