Do Pesudo ao Diogo Costa...

O que o FC Porto-Boavista pode ter a ver com frase de Di Stéfano (que é perfeita metáfora do futebol) e com Vlachodimos e Schmidt

ALGURES por 1964, Alfredo Di Stéfano caiu do pedestal: Miguel Munoz, o treinador do Real, atirou-o para o banco, bode-expiatório da derrota com o Inter (na final da Taça dos Campeões). Amolgado pela desfeita, foi para o Espanhol largando em clamor:

- Assim vou continuar rival do Barcelona, a ter de odiar o Barcelona!

Por lá ainda espalhou o génio que já lhe dera a eternidade - e levara (dois anos antes) a que, após ouvir a última apitadela de Léo Horn na final da Taça dos Campeões (no Benfica, 5 - Real, 3), Eusébio desatasse a correr atrás do que era o seu súbito sortilégio, explicando-o assim:

- O que eu queria era a camisola do Di Stéfano, era só isso que eu queria naquele momento. Antes, pedira ao senhor Coluna que fizesse o favor de lhe dizer que me desse aquela relíquia - e o senhor Di Stéfano dissera que sim, graças a Deus!

Deixando de jogar no Espanhol - foi Di Stéfano treinar o Valência - e do Barcelona para o Valência foi (por meados de 1966) José Manuel Pesudo. Percebendo, arguto, que se criara a desconfiança dele não ser já o que era: «grande portero», uma das primeiras coisas que Di Stéfano lhe disse, disse-lha assim (no é ainda perfeita metáfora para o futebol e a vida):

- Não te peço que defendas todas as bolas que vão para dentro da baliza, só te peço que nunca metas dentro da baliza bolas que iam para fora...

e, com Pesudo e Di Stéfano, o Valência foi campeão de Espanha em 1971, depois de já ter ganho também a Copa del Generalíssimo (que era como se chamava à Taça de Espanha, em homenagem a Franco, o Salazar do reino...)

Não, a Diogo Costa não é preciso que lhe surja treinador a afirmar-lhe (ou a sussurrar-lhe):

- Não te peço que defendas todas as bolas que vão para dentro da baliza, só te peço que nunca metas dentro da baliza bolas que iam para fora...

porque, não sendo Diogo Costa guarda-redes de meter dentro da baliza bolas que iam para fora (a traição de costas na Luz, que se soltou da cabeçada de Gonçalo Ramos não foi isso, foi azar a dar-lhe à costa…) - também não é apenas daqueles guarda-redes capazes de tapar a sua baliza sem deixar brecha a insinuar-se, também não é apenas daqueles guarda-redes capazes de, quase sem se mexerem, desviarem das redes o rumo que a bola leva com um simples olhar. Sim, Diogo Costa ainda é mais que isso - e melhor. E, domingo, voltou a sê-lo: guarda-redes que não defende só bola mais difícil - defende golos. E assim evitou que a sua equipa perdesse um jogo que não poderia perder, mesmo empatando-o. (Vlachodimos também fez coisa parecida em Barcelos, antes de Chiquinho e Musa darem ao Benfica vitória fundamental…)

Tenho de admiti-lo, porém: só me lembrei do Pesudo ao ver o Diogo Costa a fazer o que fez porque, frente ao Boavista, o FC Porto não foi aquilo que poderia ter sido (para lá dele). Foi uma equipa a fugir do seu brilho - com mais do que uma mão cheia de jogadores a jogarem o  jogo como se o jogassem a meter dentro da baliza as bolas que iam para fora. E havendo, neles, em demasia, pior do que o pecado que já se lhes notara amiúde, outras vezes: atirarem para fora bolas que deviam meter dentro da outra baliza - mesmo que, então, até parecesse que jogavam bem - e frente ao Boavista, não, nem isso...

Frente ao Boavista o jogo do FC Porto foi dando quase sempre a ideia de ir ser jogo de equipa que depois de ter redescoberto as chaves do paraíso (com a brilhante e empolgante vitória na Luz), o  jogava (tal como já sucedera com o Santa Clara) a atirar as chaves para o chão do quarto escuro e, fechando a porta, as deixava lá dentro. Ou seja:  um FC Porto a jogar o seu jogo, atraiçoando o melhor de si - num futebolzinho a meia haste. E tal só não acabou em desconsolo (ou pior) porque lhes caiu do céu o penálti (indiscutível) que Taremi transformou em golo. E porque, para além de ter o guarda-redes que tem, tem o treinador que tem. O treinador capaz de ganhar jogos a partir do banco, mexendo na equipa através de substituições, posicionamentos e ajustes (como Roger Schmidt, com o Gil Vicente). O treinador que, mesmo quando os seus jogadores não parecem estar a levar mais além a sua boa ideia de jogo, consegue que a equipa (mesmo sem ser mais inebriante ou mais acutilante) não se destrambelhe ainda mais - ou não se perca nos fios das suas meadas (com «a bola a queimar-lhes os pés»). Não fora isso e, neste momento, FC Porto assim já nem sequer teria sonho que quer o SC Braga (que é quem melhor joga, atualmente, em Portugal) lhe mantenha em quimera...