Do oportunismo ao pragmatismo

Juntar a Ucrânia à candidatura ibérica era um oportunismo eticamente reprovável. Pelo menos, Marrocos faz algum sentido...

O escândalo da prisão de Andriy Pavelko, o presidente da Federação Ucraniana de Futebol, por corrupção e lavagem de dinheiro, obrigou os países ibéricos a fazerem uma marcha atrás de emergência nos seus planos de candidatura ao Campeonato do Mundo de futebol, em 2030. Escreveu-se direito por linhas tortas. A ideia da candidatura ibérica tentar ganhar votos com a comiseração pelo sofrimento do povo ucraniano tinha, indisfarçavelmente, um caráter oportunista desagradável e pouco ético.

A candidatura ibérica faz todo o sentido. Há uma unidade cultural, histórica e identificativa, de um povo que Saramago imaginou a afastar-se do continente europeu, numa enorme jangada de pedra.

Porém, perante o receio periférico de não conseguir suficientes apoios, a candidatura decidiu-se por um golpe de marketing, convidando a Ucrânia a fazer parte de um projeto para o qual apenas poderia contribuir com um património de sofrimento e devastação e, como tal, digno de uma votação piedosa, mas talvez decisiva.

Questão essencial: tenho consciência de como seria bom, útil, significativamente marcante para o futebol português e para o país a organização parcial, mesmo que em termos minoritários, de acordo com dimensão e condições de participação económica, de um Campeonato do Mundo de futebol em Portugal. E não alinho, nem nunca alinhei durante os tempos de contestação da Expo, do Euro-2004 ou do centro Cultural de Belém, na ideia miserabilista de que temos tanto com que nos preocupar e tanto onde investir que o melhor é ficarmos quietos, imóveis, hirtos e firmes como uma barra de ferro, como diria o velho Herman e limitarmo-nos a assistir ao desenvolvimento e crescimento dos outros, mantendo o nosso dinheirinho numa mala de cartão, à espera de tempos ainda mais difíceis e de decisões eternamente adiadas por uma classe política sempre indecisa e entorpecida.

Um Mundial de futebol, com uma parcela de participação de Portugal (e não poderia, nunca, ser de outra forma) teria o meu apoio e o meu entusiasmo. Porém, há linhas vermelhas na dignidade da candidatura e essa tínhamos ultrapassado, claramente, quando juntámos às alíneas das propostas oficiais, o oportunismo com a interesseira aliança ucraniana.

Porém, o presidente da federação da Ucrânia foi detido e acusado de crimes graves. A candidatura, a manter-se exatamente da mesma forma, ficaria ferida de morte. Espanha e Portugal tiveram, então, um golpe de asa e perspetivando a mudança de estatutos, que passaria a permitir candidaturas conjuntas de mais de uma confederação, o que irá abrir oportunidade a maior peso do interesse geopolítico nas escolhas finais, convidaram Marrocos para substituir a Ucrânia. Pelo menos é uma decisão clara e direta: precisamos de contar com um país africano para dividir os votos dos países de África e que poderiam já estar comprometidos com o Egito, que fará parte de uma outra candidatura, com a Grécia e a Arábia Saudita. Pelo menos, aqui não existe uma moralidade escondida. Se for mesmo decidido que as candidaturas aos Mundiais poderão ser apresentadas por mais de uma confederação - algo que, repito, não concordo - Espanha e Portugal terão, pelo menos, o direito de ir a jogo com as mesmas cartas de trunfo e, nesse pressuposto, o convite a Marrocos faz todo o sentido, até pela riqueza histórica comum e, também, pela proximidade geográfica. É verdade que ainda não é certo que a FIFA aprove a mudança para as candidaturas pluricontinentais, mas tudo indica que é um comboio que já não terá como travar a marcha.


DENTRO DA ÁREA — PINTO DE SOUSA ERA UM SENHOR

Morreu José António Pinto de Sousa. Tinha oitenta e cinco anos e viveu a sua velhice numa profunda e incompreendida amargura. Era um grande senhor. Afável, educado, culto, dialogante, amigo. Boavisteiro, teve a desdita de entrar no futebol e na maior responsabilidade pelo setor da arbitragem, numa altura em que a luta dos principais clubes era ainda mais selvagem.  Pinto de Sousa não tinha feitio para a missão de pistoleiro. Fez os consensos possíveis e acabou salpicado com lama dos tempos. Nunca se perdoou a si mesmo.


FORA DA ÁREA — TODOS FINGEM  QUE NÃO SABEM

A maioria dos lares portugueses são depósitos de velhos que nos dão o incómodo de continuarem a viver. Muitos dos que não têm lugares nos lares oficiais continuam esquecidos pelas famílias nas camas dos hospitais públicos, ao abrigo do Serviço Nacional de Saúde. Outros têm famílias mais diligentes que escolhem lares privados de acordo com as suas posses. Os mais baratos são feios, porcos e maus, como no famoso filme do Ettore Scola. Todos sabemos disso e às vezes todos fingimos ficar surpreendidos com a triste realidade.