Em 2030, Portugal será anfitrião, com Espanha e Marrocos, do Campeonato do Mundo do centenário - Foto: Imago
Em 2030, Portugal será anfitrião, com Espanha e Marrocos, do Campeonato do Mundo do centenário - Foto: Imago

Portugal quer o Mundial de 2030. Entre as memórias do FIFA-2026 e os desafios do futuro

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA, este da responsabilidade de Luís Simões (Doutorando em Turismo, Património e Território no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e Cláudia Seabra (Professora Associada com Agregação no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

Depois de 2026, entre milhões, interesses privados e soft power, organizar jogos será a parte mais fácil. A Espanha sagrou-se campeã do mundo em Nova Iorque/Nova Jérsia, depois de derrotar a Argentina, mas a principal lição de 2026 está para lá do marcador. O maior Mundial da história, com 48 seleções, 104 jogos, 16 cidades e três países, confirmou a força global do futebol e expôs os limites do gigantismo.

Para Portugal, eliminado pela futura campeã nos oitavos de final, este Mundial deve ser observado para lá da emoção. Daqui a quatro anos, o país será anfitrião, com Espanha e Marrocos, do Mundial do centenário. O que aconteceu em 2026 é um manual para 2030.

Em maio, nestas páginas, defendemos que o maior jogo de Portugal em 2030 não se disputaria no relvado. O Mundial confirmou-o. Organizar não garante reputação. A exposição cria uma oportunidade de soft power, a capacidade de gerar atração, confiança e influência através da imagem, dos valores e da experiência proporcionada.

O balanço não pode ignorar o êxito popular. Os estádios receberam perto de sete milhões de espectadores e milhões de adeptos conviveram nas cidades. Poucos acontecimentos concentram semelhante atenção internacional.

Mas a festa teve um reverso. Episódios concretos mostraram como a universalidade proclamada pela FIFA cedeu perante políticas nacionais e como a experiência do adepto foi convertida em oportunidades comerciais.

Dificuldades na emissão de vistos para jogadores, oficiais, árbitros e adeptos, criando obstáculos à participação plena num evento que se apresenta como universal. Para citar apenas alguns exemplos:

Exclusão do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de entrar nos Estados Unidos apesar de nomeado pela FIFA, expondo os limites da autonomia organizativa perante as políticas migratórias.

Restrições à delegação do Irão, que instalou a sua base em Tijuana, no México, e teve de gerir deslocações transfronteiriças para competir nos Estados Unidos.

Episódios com a seleção do Egito com percalços logísticos enfrentando restrições de segurança locais que impediram a equipa de permanecer em determinadas cidades durante o torneio.

Mercantilização de um torneio que deveria ter uma amplitude universalista, inclusiva e sustentável:

Bilhetes a preços muito elevados e mecanismos de preço dinâmico, criticados por afastarem os adeptos e colocarem o torneio entre os mais caros da história.

Pausas obrigatórias de hidratação de três minutos em cada parte, mesmo com temperaturas moderadas ou em recintos cobertos. A justificação oficial foi a proteção dos jogadores, mas a publicidade transmitida nessas interrupções alimentou dúvidas sobre a motivação comercial.

Debate sobre o prolongamento do intervalo da final para acomodar o espetáculo e a transmissão, reacendendo a discussão sobre a adaptação do futebol aos interesses comerciais.

Distâncias enormes entre cidades anfitriãs, com mais desgaste, custos, complexidade logística e uma pesada pegada ambiental.

O conflito tornou-se mais nítido depois do torneio. Gianni Infantino tentou criar a FIFA Forward Enterprise, subsidiária que concentraria operações comerciais, transmissão, patrocínios, bilhética e licenciamento. Avaliada em cerca de 20 mil milhões de dólares, venderia até 20% do capital para captar até 4,2 mil milhões. A oposição da UEFA, da Concacaf e da Confederação Asiática, perante a falta de consulta e transparência, levou ao abandono do projeto.

Não se tratava de vender o Mundial, mas de abrir o seu motor comercial a investidores privados. A proposta expôs o cruzamento entre lucro, governação e soft power. O acesso prometido às 211 federações a financiamento adicional poderia apoiar o desenvolvimento, mas também acentuaria dependências e influência política. A disputa revelou quem procura converter o futebol global em poder económico, institucional e geopolítico.

Portugal deve retirar daqui cinco ensinamentos.

O primeiro ensinamento é de governação: 2030 tem de ser um projeto de país, apoiado numa estrutura verdadeiramente integrada e sustentável. A preparação não pode ficar circunscrita à Federação Portuguesa de Futebol, às cidades anfitriãs ou às entidades responsáveis pelos estádios. Exige articulação permanente entre Governo, Federação, Turismo de Portugal, municípios, entidades regionais de turismo, forças de segurança, transportes, aeroportos, hotelaria, restauração, universidades, empresas e comunidades locais: o futebol organiza a competição, mas é o território que recebe os visitantes.

Antes do torneio, um estudo encomendado pela FIFA estimava que o Mundial de 2026 poderia contribuir com até 40,9 mil milhões de dólares para o PIB mundial e sustentar cerca de 824 mil empregos equivalentes a tempo inteiro. Vários economistas consideraram a projeção exagerada, e a ressalva serve a Portugal nos dois sentidos: nem os números prometidos se cumprem sozinhos, nem os benefícios chegam automaticamente aos territórios anfitriões. Sem coordenação entre os sistemas desportivo e turístico, Portugal poderá realizar bons jogos e, ainda assim, desperdiçar parte substancial do valor económico, turístico e reputacional do Mundial.

O segundo ensinamento é sobre a mobilidade, que será determinante. Em 2030, a experiência do visitante dependerá da capacidade do aeroporto de Lisboa, dos acessos aeroportuários, da evolução da alta velocidade Lisboa-Porto e da ligação a Vigo, bem como do reforço da capacidade ferroviária no eixo Norte-Centro. Portugal terá poucos estádios, mas pode envolver o território através de centros de estágio, fan zones, rotas turísticas e programação cultural. Serão decisivas as ligações entre aeroportos, cidades, estádios e regiões: o visitante não distingue responsabilidades administrativas, avalia a viagem como um todo.

O terceiro diz respeito aos residentes: não podem ser figurantes. Em Portugal, onde o acesso à habitação já constitui uma das questões sociais e políticas mais sensíveis, o Mundial não pode agravar a pressão sobre o arrendamento, converter mais habitação em alojamento temporário ou afastar moradores das zonas mais procuradas. As comunidades devem participar nas decisões e reconhecer benefícios duradouros: melhor espaço público, transportes, oportunidades económicas, emprego qualificado e infraestruturas úteis depois de 2030. Se os custos forem suportados pelos residentes e os ganhos concentrados noutros atores, o evento perderá legitimidade, mesmo que os estádios estejam cheios.

O quarto é a sustentabilidade, que deve passar do discurso à decisão: reutilizar infraestruturas, reduzir deslocações, medir emissões, melhorar transportes coletivos e garantir transparência no investimento público.

O quinto é que Portugal precisa de uma narrativa própria na organização partilhada. Deve afirmar-se pela hospitalidade, segurança, proximidade e capacidade de ligar futebol, turismo, cultura, saúde e qualidade de vida. Sem estratégia, podemos receber jogos sem transformar atenção em valor.

O Mundial de 2026 mostrou que a projeção mundial não produz, por si só, reputação favorável. A mesma competição que enche estádios pode expor desigualdades, falhas de coordenação e experiências negativas. A visibilidade amplia qualidades e fragilidades.

Para Portugal, o desafio será transformar a atenção internacional em confiança duradoura. Esse resultado dependerá menos das cerimónias e dos discursos do que da experiência de quem nos visita, da participação e dos benefícios reconhecidos pelos residentes e da capacidade de atuação conjunta das instituições. Quando os jogos terminarem, o saldo reputacional não se lerá no marcador, mas na memória de quem cá esteve e de quem cá vive. Essa memória começa a construir-se agora, nas decisões sobre transportes, território, serviços, transparência e coordenação. Em 2030, a reputação de Portugal será a consequência concreta da forma como o país tiver preparado, recebido e partilhado o Mundial.

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