Defendeu penálti histórico no Dragão com ajuda de… Fernando Madureira
Há três anos (2023/24), à entrada para a 10.ª jornada do campeonato, o Estoril era lanterna vermelha e preparava-se para se deslocar ao terreno do FC Porto. Qualquer semelhança com a realidade de 2026/27 é mera coincidência…
Mas, já que os da Linha se veem em tal maré de casualidades, agora desejam mesmo surfar a onda completa. Isto porque os canarinhos foram vencer (1-0) ao Estádio do Dragão e isso é exatamente o que o último classificado da Liga pretende fazer no sábado (20h30) na Invicta, igualmente, na ronda número dez.
O autor do golo estorilista desse encontro foi Jordan Holsgrove, num livre aos 75’, mas a turma à data orientada por Vasco Seabra teve outro herói, numa fase mais precoce: Marcelo Carné, que defendeu um penálti a Taremi ao minuto 6.
Em entrevista A BOLA, na antecâmara a novo embate entre dragões e canarinhos, o atual guardião do Cuiabá (Brasil) recorda a partida como um «momento muito especial»: «Cresci a ver o FC Porto ganhar a Liga dos Campeões. Defender um penálti e conseguir vencer no Estádio do Dragão foi marcante. Tínhamos um grupo com muita juventude e com jogadores que entretanto se projetaram bastante, como o Mateus Fernandes e o Rodrigo Gomes. Foi um dos jogos mais importantes da minha carreira.»
«Estávamos a atravessar um momento muito difícil, com várias jornadas sem pontuar. Embora estivéssemos confiantes, quase ninguém de fora acreditava que fôssemos capazes de ganhar no Dragão. Era uma partida crucial. Precisávamos de voltar às vitórias», recorda o guarda-redes de 36 anos, acrescentando que aquele duelo «acabou por ser o verdadeiro ponto de viragem, mas, curiosamente, a única vitória fora de casa na Liga».
O internacional jovem pelo Brasil relembra o triunfo a Norte como «crucial» para a caminhada do clube na Liga, ainda por cima numa fase tão delicada, exatamente como a que o Estoril vive hoje — «tínhamos a confiança abalada pela sequência de maus resultados» — pelo que o objetivo era atrasar ao máximo o golo (que nunca chegou) dos azuis e brancos: «Sofrer um golo tão cedo teria comprometido a nossa estabilidade emocional. Para uma equipa de menor dimensão, ter de reagir a uma desvantagem é sempre uma tarefa hercúlea.»
«Ó Carné! Esquerda! Direita!»
Virando agora, exclusivamente, as atenções para a grande penalidade travada por Marcelo Carné no Dragão a Taremi, o experiente atleta desvenda-nos que teve a ajuda «de um adepto» que estava «mesmo atrás» na bancada «com um megafone». Esse aficionado era… Fernando Madureira.
«Havia um adepto com um megafone atrás de mim que, antes da marcação do penálti, gritava repetidamente: 'Ó Carné! Direita! Esquerda! Direita! Esquerda!'. Foi muito engraçado, e até brinquei com os meus colegas no final. Disse que a minha sorte foi não ter percebido se se referia à minha direita ou à do Taremi [risos]. Atirei-me para a direita certa e o que é certo é que consegui defender», relata, recordando o momento caricato com o antigo líder da claque Super Dragões.
Ainda assim, o mérito maior daquela intervenção tem de ser repartida pelo estudo e instinto do keeper: «Num jogo recente a que tínhamos assistido numa concentração, reparei que, quando o Taremi corria de forma mais frontal em direção à bola, mantinha uma postura idêntica à que teve contra mim. A abordagem dele à bola naquele lance foi o indicador claro de que bateria para a minha direita. Houve, portanto, o trabalho de análise prévia e, no momento da cobrança, a leitura e a intuição para confirmar que ele repetiria o padrão estudado.»
Até Diogo Costa se rendeu a Holsgrove
Se Marcelo Carné foi o herói estorilista do primeiro tempo (graças ao penálti defendido), na etapa complementar foi a vez de Jordan Holsgrove a vestir a capa, quando bateu para golo um livre à entrada da área ao minuto 75, e… até Diogo Costa se rendeu, conta, ao nosso jornal, o guardião brasileiro: «No final do jogo fui ao controlo antidoping com o Diogo Costa e ele estava impressionado com a forma como o livre foi batido.»
«Explicou que tinha pedido à barreira para não saltar, porque se recordava de um lance de outro jogo em que o Jordan tinha rematado rasteiro. Mas, daquela vez, optou por bater por cima, o remate saiu muito rápido e o Diogo não conseguiu reagir a tempo. Disse-me que, quando viu a bola, ela já tinha passado», revela.
O atual número 10 da formação cascalense é, a par com Rafik Guitane, o único jogador que sobra do plantel do Estoril de 2023/24. Marcelo Carné recorda-o como um dos melhores com quem já pisou o relvado: «Além da questão do passe e tomada de decisão, é um jogador muito corajoso. Foi claramente um dos companheiros com mais qualidade com quem já partilhei balneário, é de um nível extraordinário e estou convicto de que aquele esquerdino, como dizem em Portugal [risos], atingirá patamares ainda mais elevados na carreira.»
Atual momento é delicado
Marcelo Carné — que em Portugal representou Marítimo (2022/23) e Estoril (2023/24) — recupera, neste momento, de uma lesão rara: «Tive avulsão do tendão da coxa, em que o tendão se separou do osso. Trata-se de uma lesão complexa e bastante rara. Segundo o médico, existem apenas cerca de 200 casos descritos no mundo. Felizmente, a reabilitação tem corrido bem e devo regressar em dezembro.»