José Mourinho, treinador do Real Madrid - Foto: IMAGO

Mourinho nunca esteve acabado... estava no lugar errado.

Disseram que estava acabado... que o futebol tinha evoluído e José Mourinho ficara para trás. Que os seus métodos pertenciam ao passado e que os grandes palcos europeus já não eram o seu lugar. Mourinho ouviu, continuou a trabalhar e respondeu como sempre gostou de responder: com resultados. No passado domingo, saiu de Barcelona com uma vitória por 2-1, frente a uma equipa que considero estar entre as três melhores da atualidade, e voltou a recordar ao futebol europeu uma verdade que alguns pareciam ter esquecido: continua a ser um treinador de elite.

Na semana que antecedeu o clássico, já circulavam especulações sobre o seu futuro no Real Madrid e possíveis alternativas para o banco, entre elas Didier Deschamps. O Barcelona apresentava-se como favorito, depois de um início de campeonato irrepreensível, com nove vitórias em nove jogos. Vitórias, quase todas, por goleada. Para muitos, a dúvida não era saber quem venceria, mas por quantos golos perderia o Real Madrid. A confirmação da ausência de Courtois, um dos melhores guarda-redes do mundo, aumentou ainda mais a dimensão do desafio.

Mourinho preparou a equipa, assumiu riscos e apresentou um Real Madrid corajoso, organizado e capaz de discutir o jogo em casa de um adversário fortíssimo. A aposta em Bernardo Silva, a capacidade de equilibrar os momentos defensivos com saídas rápidas e a forma como a equipa respondeu à pressão catalã revelaram algo que sempre distinguiu o treinador português: a capacidade de preparar os grandes jogos e de convencer os seus jogadores de que podem vencer, mesmo quando o contexto parece muito desfavorável.

A vitória não resolveu todos os problemas do Real Madrid, nem transformou uma equipa em construção na melhor do mundo, mas mostrou evolução, personalidade e, sobretudo, uma identidade competitiva que tinha faltado em muitos momentos do passado recente. Mourinho voltou a fazer aquilo que melhor sabe: transformar talento individual numa equipa que acredita na possibilidade de ganhar.

No dia 31 de janeiro deste ano, escrevi precisamente nesta rubrica um artigo intitulado «Real Madrid vem a Lisboa buscar Mourinho!». Defendi então que o regresso ao Santiago Bernabéu fazia sentido, não apenas pelo currículo do treinador, mas pela correspondência entre a sua personalidade e a cultura competitiva do clube. Oito meses depois, mantenho essa convicção. O Real Madrid é um lugar natural para José Mourinho porque ambos partilham uma exigência que não admite grandes concessões: ganhar não é apenas um objetivo, é uma obrigação.

Sempre considerei que algumas escolhas de Mourinho nos últimos anos foram erros de casting. Tottenham, Roma e Fenerbahçe são clubes com história, adeptos apaixonados e ambição legítima, mas não oferecem, de forma consistente, as mesmas condições para disputar a Liga dos Campeões e os maiores títulos que os gigantes europeus. Não significa que Mourinho não pudesse realizar bons trabalhos nesses contextos, como demonstrou com a conquista europeia pela Roma. Significa que o perfil de um treinador habituado a competir pela vitória em todas as grandes provas precisa de estar alinhado com a capacidade e as expectativas da organização que representa.

Um grande treinador não deixa de o ser porque não vence todos os anos. O contexto importa e muito. Os recursos disponíveis importam. A qualidade dos adversários, a estabilidade institucional e a ambição competitiva também. No futebol, como em qualquer organização, o sucesso depende tanto da competência individual como da adequação entre a pessoa e o projeto. E, por vezes, aquilo que interpretamos como perda de capacidade é, afinal, um desencontro entre o líder, o contexto e o ambiente onde trabalha.

Sei que alguns perguntarão pelo Manchester United, mas esse foi, na minha opinião, um caso diferente. Mourinho concretizou o desejo antigo de orientar um dos maiores clubes do mundo, num momento em que a instituição procurava reencontrar-se depois da saída de Alex Ferguson. Conquistou a Liga Europa, a Taça da Liga inglesa e a Supertaça inglesa, além de alcançar um segundo lugar na Premier League que o próprio sempre valorizou. Olhando para as dificuldades que o clube continuou a enfrentar e para os sucessivos treinadores que por lá passaram, considero que o seu trabalho merece hoje um reconhecimento maior do que aquele que recebeu na altura.

E o Benfica? Também aqui existe uma dimensão diferente. O Benfica, tal como o Vitória, ocupa um lugar especial na história pessoal e emocional de José Mourinho. O regresso à Luz não pode ser analisado apenas através da dimensão competitiva do clube. Representou também uma ligação às origens, à identidade e a um futebol português que nunca deixou de fazer parte da sua vida. Foi precisamente nesse contexto que Mourinho voltou a demonstrar que continuava a ter a capacidade de competir ao mais alto nível. Fê-lo na forma como o Benfica se apresentou em Stamford Bridge, diante do Chelsea, numa exibição que merecia outro resultado; na derrota “enganadora” por 1-0 frente ao Bayer Leverkusen, em que o resultado esteve longe de traduzir o que se passou em campo; e, sobretudo, nas extraordinárias vitórias sobre o Nápoles, então campeão italiano, e o Real Madrid. Foram exibições que reforçaram a minha convicção de que Florentino Pérez acabaria por procurá-lo.

O que distingue Mourinho não é apenas a organização tática, a preparação dos jogos ou a capacidade de comunicar - é a forma como lidera, como influencia comportamentos, como gere pessoas, estabelece hierarquias, protege o grupo e transforma pressão em energia competitiva. Já para não falar na sua inteligência tática, contextual e emocional. Num balneário de estrelas, onde todos têm estatuto, ambição e personalidade, liderar não significa ensinar os jogadores a jogar futebol... futebol já eles sabem jogar. Significa ensiná-los a jogar em equipa, criar as condições para que o talento individual seja colocado ao serviço de um objetivo coletivo.

Naturalmente, Mourinho também comete erros – é um ser humano como todos nós. A sua carreira não está isenta de decisões discutíveis, mas reduzir um treinador com o seu percurso à ideia de que ficou ultrapassado parece-me uma leitura demasiado simplista. A experiência não é inimiga da inovação… um líder pode manter os seus princípios e, simultaneamente, adaptar métodos, renovar equipas técnicas e encontrar novas respostas para desafios diferentes.

Na rubrica Liderar no Jogo, interessa-me precisamente esta relação entre competência, contexto e liderança. Há profissionais que parecem perder valor quando mudam de organização e recuperam toda a sua influência quando encontram um ambiente adequado às suas características. Nem sempre é o talento que desaparece. Por vezes, tão simplesmente o enquadramento que deixa de permitir que esse talento se manifeste.

E há um último episódio desta semana que considero especialmente revelador… Harry Kane conquistou a Bola de Ouro, a consagração máxima de uma carreira construída com trabalho, persistência e uma extraordinária capacidade de superação. No momento de agradecer àqueles que contribuíram para o seu crescimento, não esqueceu José Mourinho, que o orientou no Tottenham. Atenção que Kane não destacou todos os treinadores que teve na carreira…

O reconhecimento a José Mourinho merece ser valorizado porque, como costumo defender, o verdadeiro legado de um treinador não se mede apenas pelos títulos que conquista, mas também pela marca que deixa nos jogadores com quem trabalha. Kane chegou ao topo do futebol mundial e, num dos momentos mais importantes da sua vida, encontrou espaço para agradecer a quem o ajudou a crescer.

Mourinho vai deixar de ser notícia? Vão deixar de anunciar o seu declínio, de profetizar o seu fracasso ou de apresentar, a cada resultado menos positivo, novos candidatos à sua sucessão? Não. E, sinceramente, espero que não porque isso significará que José Mourinho continua onde merece estar: no topo do futebol mundial, num clube onde a exigência é permanente, a pressão não dá tréguas e até uma vitória pode não ser suficiente. Faz parte da dimensão do Real Madrid, e faz também parte da personalidade do próprio Mourinho, um treinador que nunca procurou a indiferença, nunca viveu de consensos e nunca deixou ninguém indiferente… continua a vencer jogos importantes, a competir nos maiores palcos e a demonstrar por que razão é, goste-se ou não do seu estilo, um dos maiores treinadores da história do futebol mundial. E há algo que não devemos esquecer: é português. Um português que conquistou o respeito do futebol mundial e que continua a levar o nome de Portugal aos palcos mais exigentes da modalidade.

José Mourinho não precisa de provar que tem passado. Esse está escrito na história do futebol. Durante anos, exigiram-lhe que demonstrasse que ainda tinha presente e futuro. O Real Madrid voltou a dar-lhe o palco onde pode responder a essa exigência todos os dias, através daquilo que sempre o distinguiu: trabalho, liderança, ambição e resultados.

Mourinho reencontrou uma organização à altura da sua exigência competitiva. Um clube onde a ambição de vencer corresponde à sua própria ambição, onde a pressão é tão grande como as oportunidades e onde a sua capacidade de liderar pessoas, gerir egos e transformar talento individual numa verdadeira equipa pode voltar a fazer a diferença.

Vai o Real Madrid ganhar tudo com Mourinho? Não sei. Ninguém pode garantir títulos, muito menos num futebol cada vez mais competitivo e imprevisível, mas há uma coisa de que estou convicto: com José Mourinho, o Real Madrid está muito mais perto de vencer. E Mourinho, no Real Madrid, está exatamente onde merece estar.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar».

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