Outubro é o mês da Saúde Mental e, quando falamos deste tema no desporto, o nosso olhar dirige-se quase instintivamente para os atletas. Falamos da pressão competitiva, da ansiedade, do medo de falhar, do burnout e do peso das expectativas. Mas há uma figura que permanece frequentemente esquecida nesta discussão: o treinador. Aquele a quem todos exigem equilíbrio emocional, capacidade de decisão, resiliência e liderança, mesmo quando o seu próprio equilíbrio psicológico pode estar comprometido.

Ser treinador, sobretudo no desporto de alto rendimento, significa viver numa permanente tensão entre resultados, expectativas e responsabilidades. É gerir egos, conflitos, frustrações e emoções, enquanto se procura transmitir confiança e estabilidade a uma equipa. Mas quem cuida da saúde mental de quem tem a responsabilidade de cuidar, motivar e orientar os outros?

A investigação científica tem vindo a dar visibilidade a esta realidade. E não é difícil compreender porquê. O treinador vive sob uma avaliação permanente, em que uma vitória pode transformá-lo num génio e uma sequência de derrotas colocar em causa toda a sua competência. Podendo sentir que estão num ambiente de ameaça constante. Revisões recentes de Frost e colaboradores (2024) e Kang e Lee (2025) identificam a pressão pelos resultados e a instabilidade profissional, a sobrecarga de trabalho, as exigências emocionais, a solidão que a própria liderança exige, a exposição mediática e acrítica publica, bem como os fatores organizacionais como importantes riscos para a saúde mental dos treinadores, aumentando a sua vulnerabilidade ao stress. As consequências podem manifestar-se através de perturbações do sono, irritabilidade, ansiedade, exaustão emocional, dificuldades de concentração, sintomas depressivos e burnout. E o problema não termina no próprio treinador. Uma liderança psicologicamente desgastada pode comprometer a qualidade das decisões, a comunicação, a gestão de conflitos, o clima emocional da equipa e consequentemente os resultados da equipa e estabilidade organizacional.

É por isso que a saúde mental dos treinadores não pode continuar a depender exclusivamente da sua capacidade individual de resistência. Exigimos aos treinadores que construam atletas mentalmente fortes, mas esquecemo-nos de garantir que eles próprios têm condições para se manterem psicologicamente saudáveis. Esta cultura de invulnerabilidade pode favorecer o silêncio, o isolamento emocional e a resistência em procurar ajuda psicológica. Quem cuida da mente de uma equipa também precisa que cuidem da sua. Exige organizações desportivas capazes de criar condições de trabalho saudáveis, redes de apoio psicológico, espaços de recuperação e culturas onde pedir ajuda não seja confundido com incompetência.

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