Juary e Madjer, dois autores dos golos do FC Porto na final de Viena, em 1987 - Foto: A BOLA
Juary e Madjer, dois autores dos golos do FC Porto na final de Viena, em 1987 - Foto: A BOLA

De campeão europeu a motorista: a nova vida de Juary após a depressão

Nos últimos meses, o antigo avançado brasileiro, herói de Viena, redescobriu rotinas e equilíbrio emocional em Santos, impulsionado por um conselho da mulher e pelo contacto diário com passageiros nas ruas da cidade

Afastado do futebol, Juary, antigo avançado que se tornou herói no FC Porto, encontrou um novo rumo como motorista de TVDE em Santos, no Brasil. A nova profissão, sugerida pela sua esposa, revelou-se uma terapia fundamental para superar uma depressão que o atingiu no início do ano.

O ponto mais alto da carreira de Juary foi, recorde-se, ao serviço dos dragões, quando marcou o golo decisivo na final da Liga dos Campeões Europeus de 1986/87, garantindo a vitória por 2-1 sobre o Bayern de Munique. Uma final épica que ficou célebre pelo genial calcanhar de Madjer, quando o FC Porto perdia por 0-1. No mesmo ano, o brasileiro sagrou-se ainda campeão do Mundo de Clubes (antiga Taça Intercontinental) pelos azuis e brancos.

Contudo, a vida após o futebol trouxe desafios inesperados. O antigo jogador descreveu ao jornal A Tribuna um período de profunda apatia. «Acordava às 10 horas e ia dormir às 3 horas, não me levantava da sala para nada, nem para comer», confessou. Os primeiros sintomas surgiram no início do ano, alterando por completo o seu comportamento. «Eu não sorria, não brincava mais, vivia só de cara feia, não me reconhecia».

Juary com Pinto da Costa

Foi a sua esposa que o incentivou a encontrar uma nova rotina. «Graças a Deus, que me deu um caminho na vida, a minha esposa falou: ‘Tu não gostas de dirigir, de conversar com as pessoas? Sai de casa, vai fazer Uber, vai fazer alguma coisa da vida’. Aí eu comecei a fazer e gostei», relatou Juary. Há dois meses, ao seguir o conselho, redescobriu a alegria.

Para o ex-futebolista, esta nova atividade funciona como um tratamento. «Hoje, primeiro Deus. Depois isto, que me tirou da depressão, sem tomar remédios, nem ir ao médico», afirmou, sublinhando o valor das interações diárias. «Você conhece muitas pessoas, troca ideias com todo o mundo. (...) Os problemas ficam lá, no fundo, você divide os problemas dos outros, é a coisa mais linda do mundo», descreve.

Juary, que trabalha sem horários fixos, partilhou que raramente é reconhecido, mas que as conversas com os passageiros são gratificantes: «Uma senhora disse-me: ‘Eu gostava muito de você, vocês são os verdadeiros Meninos da Vila’. E eu falei que o tempo passa, o tempo voa, e nós continuamos aí. Para mim é uma terapia, porque me reencontrei».

Antes da sua passagem gloriosa por Portugal, Juary destacou-se no Santos, fazendo parte da icónica geração dos ‘Meninos da Vila’, que venceu o campeonato paulista em 1978, prova na qual foi o melhor marcador com 29 golos. «Aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga», recordou, embora reconheça que é preciso viver o presente. «Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso».

Aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga», recordou, embora reconheça que é preciso viver o presente. «Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso

A sua carreira internacional incluiu ainda passagens pelo futebol mexicano, no Universidad Guadalajara, e por Itália, onde representou Avellino, Inter, Ascoli e Cremonese. O seu último trabalho ligado ao futebol foi nas categorias de base do Santos, clube que deixou no final de 2020.

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