De campeão europeu a motorista: a nova vida de Juary após a depressão
Afastado do futebol, Juary, antigo avançado que se tornou herói no FC Porto, encontrou um novo rumo como motorista de TVDE em Santos, no Brasil. A nova profissão, sugerida pela sua esposa, revelou-se uma terapia fundamental para superar uma depressão que o atingiu no início do ano.
O ponto mais alto da carreira de Juary foi, recorde-se, ao serviço dos dragões, quando marcou o golo decisivo na final da Liga dos Campeões Europeus de 1986/87, garantindo a vitória por 2-1 sobre o Bayern de Munique. Uma final épica que ficou célebre pelo genial calcanhar de Madjer, quando o FC Porto perdia por 0-1. No mesmo ano, o brasileiro sagrou-se ainda campeão do Mundo de Clubes (antiga Taça Intercontinental) pelos azuis e brancos.
Contudo, a vida após o futebol trouxe desafios inesperados. O antigo jogador descreveu ao jornal A Tribuna um período de profunda apatia. «Acordava às 10 horas e ia dormir às 3 horas, não me levantava da sala para nada, nem para comer», confessou. Os primeiros sintomas surgiram no início do ano, alterando por completo o seu comportamento. «Eu não sorria, não brincava mais, vivia só de cara feia, não me reconhecia».
Foi a sua esposa que o incentivou a encontrar uma nova rotina. «Graças a Deus, que me deu um caminho na vida, a minha esposa falou: ‘Tu não gostas de dirigir, de conversar com as pessoas? Sai de casa, vai fazer Uber, vai fazer alguma coisa da vida’. Aí eu comecei a fazer e gostei», relatou Juary. Há dois meses, ao seguir o conselho, redescobriu a alegria.
Para o ex-futebolista, esta nova atividade funciona como um tratamento. «Hoje, primeiro Deus. Depois isto, que me tirou da depressão, sem tomar remédios, nem ir ao médico», afirmou, sublinhando o valor das interações diárias. «Você conhece muitas pessoas, troca ideias com todo o mundo. (...) Os problemas ficam lá, no fundo, você divide os problemas dos outros, é a coisa mais linda do mundo», descreve.
Juary, que trabalha sem horários fixos, partilhou que raramente é reconhecido, mas que as conversas com os passageiros são gratificantes: «Uma senhora disse-me: ‘Eu gostava muito de você, vocês são os verdadeiros Meninos da Vila’. E eu falei que o tempo passa, o tempo voa, e nós continuamos aí. Para mim é uma terapia, porque me reencontrei».
Antes da sua passagem gloriosa por Portugal, Juary destacou-se no Santos, fazendo parte da icónica geração dos ‘Meninos da Vila’, que venceu o campeonato paulista em 1978, prova na qual foi o melhor marcador com 29 golos. «Aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga», recordou, embora reconheça que é preciso viver o presente. «Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso».
Aquele foi o primeiro título depois da era Pelé. Éramos chamados de viúvas do Pelé, então a história está lá, ninguém apaga», recordou, embora reconheça que é preciso viver o presente. «Com todo o respeito, a gente é ex, tem que entender isso