‘Mucha mierda’, Martinez
O Campeonato do Mundo continua a dar-nos jogos de enorme emoção, boa qualidade técnica e muitas vezes desfechos surpreendentes, onde têm cabido abordagens muito diferentes, desde o trogloditismo paraguaio, à Cinderela cabo-verdiana, ou ao atrevimento ‘viking’.
Estádios cheios, ótimos relvados, até agora ausência das tempestades que tanto prejudicaram, há um ano, o Mundial de Clubes, fica apenas o senão de algumas arbitragens sem qualidade, de que foi expoente máximo da competência mínima de quem fez a nomeação, o França-Paraguai.
Noutra frente, a da disciplina, a FIFA deu o flanco ao permitir a utilização do estadunidense Balogun, nos oitavos de final com a Bélgica (usando uma norma que já foi usada com Cristiano Ronaldo), e Donald Trump, com a sua proverbial capacidade de ser elefante em loja de porcelanas, embaraçou ainda mais a entidade de Zurique ao agradecer publicamente que a suspensão do ‘seu’ jogador tivesse sido metida no congelador. E agora? O inglês Quansah, expulso na partida com o México, também vai beneficiar do mesmo critério, e defrontar a Dinamarca?
Entendo as críticas a Gianni Infantino, por exemplo por estar a fazer o esforço de presenciar o maior número de jogos possível, aumentando com isso a pegada de carbono, como populistas, oportunistas e irrelevantes (todos os dias há 100.000 voos comerciais); porém, numa competição desta natureza (mais a mais com a desajuda de Trump), o que o Comité de Disciplina fez foi irresponsável, e nem sequer quero acreditar (e não sou ingénuo), que houvesse pressões do principal organizador do Mundial nesse sentido.
Na frente competitiva, olhando para a chave, se não houver surpresas, teremos meias-finais entre Argentina e Inglaterra e França contra Portugal ou Espanha. Curiosamente, muito recentemente identifiquei a Noruega e Marrocos como seleções a que devíamos estar muito atentos, e o Brasil que o diga, enquanto que a França deverá optar pela desconfiança se não quiser ter nenhum dissabor (e nós sabemos do que estamos a falar).
Finalmente, o duelo ibérico desta noite, um jogo que se repete desde 1921: perdoem-me as contradições, mas precisamos de ousadia e de cabeça fria; de superação e de contenção; de nota artística e de pontapé para a bancada. Cada coisa a seu tempo, e quando esse tempo chegar. Portugal e Espanha têm razões para pensar que é possível ganhar. E, sabendo que no fim do jogo haverá um selecionador espanhol a celebrar e outro a lamentar-se, mais do que aconselhar Martinez a dar equilíbrio ao meio-campo, a pedir sacrifício defensivo ao ataque (se Porro e Cucurella não forem devidamente travados, viveremos um pesadelo), a criar superioridade numérica sobre Pedri e Rodri, e a usar, em tempo útil, o excelente banco de que dispõe, prefiro dizer-lhe, deitando mão a uma expressão castelhana aplicada no teatro quando se quer desejar boa sorte, «mucha mierda!»
*Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…