Um ano, um título muito desejado ganho por Farioli - Foto: FC Porto
Um ano, um título muito desejado ganho por Farioli - Foto: FC Porto

Farioli, um ano depois: das lágrimas no Ajax à glória dos Aliados

A liderança do italiano foi validada por um título sem contestação. Intensidade, rigor coletivo e ADN FC Porto: as bases de um campeão. Num ano de dor pela perda de Jorge Costa, a «famiglia portista» foi mais que um ideal — foi o mote para o êxito

Um ano passou desde que Francesco Farioli chegou ao Dragão para assumir um dos maiores desafios da carreira. A entrada do italiano foi oficializada a 6 de junho de 2025 e no dia seguinte deu-se a habitual cerimónia de apresentação. O próprio definiu a dimensão da empreitada. «Acredito que o lugar onde estás representa o maior desafio de sempre», disse, na altura. Passaram doze meses e o cenário é aquele que André Villas-Boas e os portistas idealizavam: o clube encerrou a época 2025/2026 como campeão nacional, num dos momentos mais marcantes da primeira metade da nova presidência.

Nesse dia, o treinador italiano entrou no Estádio do Dragão num cenário de reconstrução – do plantel, como mais à frente se assistiria —, mas ainda com uma nuvem teimosa a pairar sobre a sua cabeça: o Ajax. A história dos nove pontos perdidos numa corrida ganha em cima da meta pelo PSV foi sendo recuperada ao longo da época, até por Farioli, que sobreviveu a esse fantasma com a certeza de que todos têm uma segunda oportunidade. Fechou essa ferida com pontos apertados: seis de vantagem sobre o Sporting e oito sobre o Benfica

Com contrato renovado até 2028 muito antes de ser campeão, no cenário idílico da Livraria Lello, esse passo dado por AVB também fez parte do plano de reforço da confiança na liderança do italiano, que chegou à Invicta ciente das necessidades imediatas do FC Porto. Villas-Boas procurava reerguer os azuis e brancos, forjando um plano financeiro ousado que permitiu ao FC Porto recuperar pujança e ser efetivo no ataque ao mercado. Ousada foi também a escolha do treinador, depois de Vítor Bruno (ganhou uma Supertaça) e Anselmi não terem criado raízes nos dragões.

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Farioli, então com 36 anos, construíra um percurso diferente — da formação no Aspire à afirmação no Nice e no Ajax —, com uma ideia de jogo definida, assente na intensidade, na exigência e numa forte identidade coletiva. Na apresentação, deixou uma promessa clara: devolver ao FC Porto uma mentalidade à imagem da cidade. «A primeira parte é fazer regressar uma mentalidade que represente a região, a cidade do Porto, e isso fez-me sentir que era o sítio certo para eu estar na minha carreira», sintetizou. E trouxe-a. Com um toque italiano que se tornou lema de vida: «A famiglia portista».

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O mercado acompanhou essa ambição. O plantel sofreu uma renovação profunda. Gabri Veiga já fazia parte do grupo desde a fase anterior e chegaram nomes como Froholdt, Borja Sainz, Alberto Costa, Bednarek, Prpic, Luuk de Jong, Kiwior e Pablo Rosario. Em janeiro, juntaram-se Thiago Silva, Moffi, Fofana e Pietuszewski, este último um achado da prospeção. Pelo caminho, saíram jogadores como Otávio e João Mário.

Contudo, antes da época começar, o céu caiu em cima dos portistas num agosto quente de 2025. A morte de Jorge Costa, eterno capitão e diretor do futebol profissional, que recebeu grande parte das caras novas, teve um impacto devastador. A equipa, impulsionada por Farioli, encontrou força no luto e transformou essa perda num compromisso inquebrantável. Ganhar o campeonato seria o único meio de homenagear a memória de Jorge Costa, cujo nome continua a ecoar no centro de treinos que tem o seu nome.

Em modo rolo compressor

No relvado, a resposta da equipa foi muito forte e os adversários pareciam incapazes de travar o furacão azul. O FC Porto assumiu a liderança desde a primeira jornada e nunca mais a largou. Ficou isolado logo em agosto, após vencer o clássico em Alvalade. Na reta final, acabaria mesmo por ser o Sporting a quebrar fisicamente, uma ironia face à Liga passada, visto que Farioli foi sendo forçado publicamente a desenterrar o ‘fantasma’ Ajax quando os dragões conheciam exibições menos exuberantes ou sem a marca de domínio do italiano.

Os números sustentavam a consistência dos azuis e brancos: 18 vitórias e um empate nas primeiras 19 jornadas, apenas quatro golos sofridos e uma longa série de jogos sem sofrer. Diogo Costa terminou o campeonato com 21 jogos sem sofrer golos, apoiado por uma defesa sólida e por um coletivo exigente na reação à perda da posse.

Contudo, a equipa não viveu apenas da segurança defensiva que a tornou referência na Europa. Mesmo com a perda de Samu e Luuk de Jong, Farioli geriu o grupo ao detalhe e o banco rendeu juros. 158 substituições resultaram em 13 golos e 10 assistências, com 33 jogadores utilizados ao longo da época. Nos jogos grandes, o FC Porto revelou toda a sua consistência: vitória em Alvalade, empates com Benfica e Sporting no Dragão e igualdade na Luz.

O título foi finalmente confirmado a 2 de maio de 2026, num Dragão a rebentar pelas costuras. Frente ao Alverca, um ponto bastava, mas o FC Porto fechou como começou: a ganhar. O 31.º campeonato teve também um peso simbólico: o número 2 — a data da conquista e a camisola de Jorge Costa.

Europa e Taças

Na Liga Europa, o percurso portista foi consistente na fase de liga, com apuramento direto, mas terminou nos quartos de final frente ao Nottingham Forest, após uma eliminatória equilibrada. Uma campanha positiva, ainda que secundária face ao objetivo interno definido no arranque da temporada.

Na Taça de Portugal, o FC Porto caiu nas meias-finais frente ao Sporting. No final da segunda mão, Farioli deixou uma frase que ficou, transformando um desaire em mais um momento de inspiração para o grupo: «Vieram aqui para perder tempo, fomos superiores em tudo. O FC Porto está de volta.» E nem os rivais duvidam disso.

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