Acabe-se com o fado do acaso!
Há 23 anos que me tentam matar — é precisamente o tipo de expressão de alguém que leva as críticas como um ataque pessoal, não atende à lógica e não se consegue enquadrar numa ideia de bem maior. Cristiano Ronaldo não é perfeito, como ninguém o é —Maradona foi o mais imperfeito de todos e, ao mesmo tempo, o mais especial; a redoma que colocaram à volta de Messi desde cedo em La Masia, tornou-se uma estufa, roubou-lhe definitivamente uma dimensão mais natural e humana — e tem de perceber, se é que alguma vez o vai entender, que não pode nunca ser superior a uma equipa, qualquer que ela seja, mesmo que a sua dimensão a ultrapasse largamente quando não se juntam.
Pouco depois da estreia, Cristiano era indiscutível até na Seleção, hoje não o é. Isso só tem indiretamente a ver com a idade. Não são os 41 anos, são as consequências dos 41 anos. Pode ainda ter uma idade corporal biológica, graças ao profissionalismo e dedicação, de 23, 25 ou 28 anos, mas não joga como se tivesse essa idade. São coisas diferentes e os números são arrasadores: 1 toque na área apenas frente à Croácia e no penálti. A sua titularidade ou não deveria depender da resposta a uma simples questão: ataca Portugal de forma mais coletiva (e rotativa) e defende melhor logo no momento da pressão com Ronaldo ou Gonçalo Ramos? Infelizmente, temos uma federação a quem não interessa fazer essa pergunta e um selecionador que há muito assinou de cruz. Ninguém quer que Ronaldo se reforme, apenas que não condicione a Seleção com o sim ou o não.
Um Portugal mais coletivo pode perfeitamente hoje perder com Espanha. E até este, desgarrado, não está impedido de ganhar. Aconteça o que acontecer, a ideia que fica é que nada fizemos para ser bem-sucedidos, fomos incapazes de nos tornar mais fortes ao escolhermos os melhores. Ficou tudo entregue ao acaso.
Preocupa não só Ronaldo, mas também a tendência de recuar estrategicamente com mais um médio defensivo — a única vez que o justificava foi precisamente diante da Croácia, ainda que a opção pudesse ter sido mais vertical —quando o nível do adversário sobe. Até as leituras excessivamente positivas de Martínez da primeira parte do último jogo e dos anteriores parecem maquilhadas. Tal como as vezes em que abordou o momento defensivo sem falar no atacante. Só se incomoda a Espanha se dividirmos a bola. E para tal são precisos os jogadores certos. O que ainda não aconteceu na América.