Contra o Benfica correm mais

Roger Schmidt deve meter na cabeça dos seus profissionais que têm de encarar cada jogo do campeonato como uma final

SE o campeonato fosse comparado a uma prova de ciclismo poderíamos dizer que os emblemas participantes, a dez jornadas do fim, entraram na reta da meta e com as forças que lhes restam preparam-se para o derradeiro e decisivo sprint. Os jogos do último fim de semana nada de especial ofereceram na cabeça do pelotão, em que os quatro primeiros classificados venceram, mantendo inalteradas as diferenças pontuais que os separam.

Com direito a serem recordadas até que a memória permita, as duas obras de arte que foram o lance que originou o terceiro golo do Benfica, no Funchal, e o genial pontapé de Nuno Santos, em Alvalade, que abriu as portas de vitória afirmativa do Sporting, no resto pouco se observou de alguma relevância, a não ser a troca do residente do último lugar, que o Paços de Ferreira entregou com todo o prazer ao Santa Clara.

Na visita do Benfica à Madeira, «o Caldeirão sempre foi inferno, mas a mancha vermelha abafou a nossa alma» afirmou José Gomes, o treinador maritimista, resignado com a força transmitida pela massa adepta da águia que lotou o Estádio dos Barreiros, numa inequívoca demonstração de confiança na sua equipa, a qual respondeu a preceito na ultrapassagem de mais um obstáculo difícil rumo ao título 38, objetivo desportivo que se perdeu algures devido a uma série de equívocos mal explicados e que, finalmente, parece ter reencontrado o caminho certo.

Compreende-se o entusiasmo da família benfiquista. Rui Costa devolveu-lhe a força de acreditar ao acertar em cheio na escolha do treinador, um alemão que liga pouco ou nada às desavenças da nossa paróquia e investe o seu tempo no trabalho diário, que é formar um plantel cada vez mais forte e prepará-lo para voos se possível tão altos como os que permitiram ao Benfica, durante décadas, conviver com a alta roda do futebol mundial.

O caminho é por aqui, sem dúvida, mas ainda vai demorar tempo até se chegar a algum lado. Recuperar o título nacional poderá ser o ponto de partida e as coisas estão muito bem encaminhadas, mas nunca fiando porque, valendo-me de uma frase não sei quantas mil vezes repetida, o futebol é fértil em surpresas. Pois é, e por experiência, o Benfica sabe muito bem que, por ser o líder, todos os adversários, independentemente da dimensão, se aprimoram quando o defrontam, uns com interesses classificativos evidentes, outros apenas porque sim, para serem aplaudidos. É normal, e existem exemplos recentes que o atestam.

O Vizela, depois da boa figura que fez diante do Benfica, comportou-se como um opositor atarantado perante o SC Braga, mas nada de grave, só perdeu três pontos, justificou-se Manuel Tulipa. Assim como o Boavista, que tão merecidos elogios recebeu pela notável exibição na recente visita à Luz, não foi o mesmo que anteontem esteve em Alvalade, pálido, amorfo e que não existiu como equipa, tal como confessou o seu treinador. Acontece, e vai continuar a acontecer, porque todos correm mais quando defrontam o Benfica, razão pela qual, até ao fim da competição, Roger Schmidt deve meter na cabeça dos seus profissionais que têm de encarar cada jogo como uma final.


SOARES DIAS

PEDRO HENRIQUES, antigo árbitro e comentador de A BOLA TV, é o especialista na matéria que mais aprecio, pela nitidez das explicações que dá, deixando sempre espaço para as nossas próprias interpretações. Preconiza que os árbitros de hoje, que continuam a cometer erros , é certo, representam uma realidade que nenhuma relação tem com o passado que conhecemos e que deu da classe a pior das imagens.

A herança é pesada, o Conselho de Arbitragem da FPF opta por uma mudez incompreensível e os árbitros, dispensando encómios, gostariam, no mínimo, de se sentir apoiados de cada vez que são acossados, nomeadamente pela intolerância de dirigentes, mas o silêncio conventual não o autoriza, é a única conclusão que pode extrair-se, deixando-os sem defesa e expostos aos ódios de adeptos e aos exageros de opinantes, entre os quais me incluo.

Felizmente, porém, há quem resista e, a propósito do texto por mim assinado e publicado há uma semana neste espaço, escreveu-me Artur Soares Dias, o melhor árbitro português em atividade e o mais qualificado no âmbito da UEFA, dando-me conta do seu desconforto por uma passagem que talvez não tenha o significado que lhe terá atribuído. De toda a maneira, a sua reação foi importante e avivou-me o cuidado que é preciso ter na utilização da palavra para não subsistir a menor dúvida quanto à diferença entre o árbitro e o cidadão.

Se há termos que o primeiro pode acolher com alguma normalidade, dada a especificidade da função, já o segundo sentirá dificuldade em tolerar seja qual for a circunstância.

Artur Soares Dias fez muito bem em manifestar-se e agradeço-lhe a cortesia com que o fez. Provou que os árbitros podem não ter quem os proteja, mas talvez nem precisem, porque têm sentimentos e ninguém os pode obrigar a ver, ouvir e calar.