Carlos Queiroz, o visionário
Carlos Queiroz é o novo selecionador do Gana e faz as malas para o Mundial-2026, o quinto da carreira (2010, Portugal; 2014, 2018 e 2022, Irão), mais um pretexto para destacarmos a dimensão de um treinador cuja influência ultrapassa largamente os títulos que conquistou, nomeadamente os dois Campeonatos do Mundo de sub-20, em 1989 e 1991. O treinador nascido em Moçambique há 73 anos — como o tempo passa por todos nós… — revolucionou mentalidades que conduziram a uma forma inovadora de preparar e projetar o talento nacional.
Num país onde tantas vezes se mede a grandeza pelo resultado do encontro seguinte, Queiroz merece ser lembrado por algo mais profundo — a construção de uma cultura que ainda perdura. O criador das primeiras gerações de ouro capazes de evidenciarem coletivamente o valor individual que nunca faltou ao jogador português provou que o cheiro de balneário não era condição indispensável para triunfar. Uma revolução metodológica que trouxe o saber das universidades para as quatro linhas e, assim, contribuiu para que Portugal fosse reconhecido como formador de excelência de futebolistas de elite.
Em recente episódio do Toque de Bola, videocast de A BOLA, Krasimir Balakov, antigo craque búlgaro que representou o Sporting então orientado por Carlos Queiroz, admitiu divergências com o técnico no passado, mas hoje, à distância, apelida-o de... «visionário».
«Foi o primeiro treinador que trabalhava taticamente e queria fazer já nessa altura aquilo que se faz hoje. Comigo, Figo e tantos enormes jogadores… Os conflitos que tive com ele foi por não ter percebido nessa altura que ele queria o melhor para nós. Também não jogava na posição que achava que era a melhor para mim e daí a origem de alguns desses conflitos. Mas Carlos Queiroz era um visionário, viu sempre bastante mais à frente», sentenciou.
O legado de Carlos Queiroz, igualmente no Toque de Bola, foi sublinhado por outro ilustre convidado do programa, Carlos Godinho, nome grande da história da Federação Portuguesa de Futebol com mais 50 anos de ligação ao organismo, presente como diretor e team manager em seis dos nove Mundiais e em oito dos nove Europeus em que Portugal participou. «A análise detalhada do jogo e a profissionalização dos processos» foram aspetos que enfatizou da passagem do «amigo e pioneiro» pelos quadros da FPF.
Queiroz foi um homem à frente do tempo dele, agitador, primeiro, reformador, depois, com uma visão que antecipou o caminho pelo qual o jogo, dentro e fora de campo, acabaria por seguir. Quem teima em recordá-lo apenas pela colocação de Capucho a lateral-esquerdo após troca de Paulo Torres por Pacheco ao intervalo de um Sporting-Benfica que os encarnados venceriam, por 6-3, a 14 de maio de 1994, entre várias insignificâncias varridas pela espuma dos dias, continua a não perceber o peso de CQ no progresso do nosso futebol.