Caramba, senhores, então e os miúdos?!
Há uma febre que se apodera do futebol português nas últimas horas de cada mercado de transferências. É o desespero do ganho imediato, a urgência de responder ao rival e a ilusão de que a salvação vem sempre num voo de última hora vindo da América do Sul ou do centro da Europa.
A chegada de Cláudio Echeverri à Luz ou a contratação relâmpago do lateral-esquerdo marroquino Souffian El Karouani revelam esse estado de sobressalto constante no Benfica. No FC Porto, a voracidade em reforçar o meio-campo com nomes como Seko Fofana junta-se à chegada da jovem promessa brasileira Gabriel Mec, de apenas 18 anos.
A ironia do mercado é fina: Gabriel Mec esteve no Mundial sub-17 do ano passado e até perdeu na final contra Portugal. Mas enquanto o FC Porto investe €10 milhões no jovem brasileiro, pergunta-se: e onde estão os miúdos portugueses que se sagraram campeões do Mundo nessa mesma partida? Quantos deles foram aposta efetiva nos seus clubes ou até (eventualmente por empréstimo) noutros emblemas na Liga? Algum? O que é que se passa com o nosso futebol?
Nada contra os jogadores estrangeiros — o talento não pede passaporte nem o futebol vive do isolamento —, mas no meio de tantas apresentações e somas milionárias, impõe-se a pergunta com a devida classe: caramba, então e os miúdos?!
No Benfica, nomes como Gonçalo Moreira ou José Neto pedem espaço e minutos, demonstrando que a qualidade não exige certidão de nascimento antiga. Contudo, perante a pressão do título e as novelas em redor de Sudakov, a porta da equipa principal volta a parecer trancada por mil trincos.
O contraponto perfeito surge em Alvalade. Com a colocação de Pedro Gonçalves na prateleira das vendas, o Sporting teve a coragem (e a inteligência) de lançar Flávio Gonçalves. E que absoluta maravilha de jogador! Em boa hora chegou à equipa principal, tornando-se o oásis num deserto de ideias onde a formação é tratada como plano B.
Lá fora, os gigantes já perceberam a lição. A Espanha foi campeã europeia e mundial empurrada pela irreverência de Lamine Yamal e Pau Cubarsí, os mesmos prodígios que sustentam o Barcelona. O PSG rendeu-se à frescura de Désiré Doué e o Arsenal de Arteta luta no topo em Inglaterra e na Europa confiando na juventude.
Em Portugal, a paciência acabou e o projeto deu lugar ao imediatismo. A urgência de vencer hoje cega a visão do amanhã. Ganhar é fundamental, é certo, mas não pode ser feito à custa de sufocar o futuro do nosso próprio futebol.