Francesco Farioli, treinador do FC Porto - Foto: ROGÉRIO FERREIRA/KAPTA+
Francesco Farioli, treinador do FC Porto - Foto: ROGÉRIO FERREIRA/KAPTA+

Central de transferências

#Minuto 92 é o espaço de opinião de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

À hora que escrevo, o encerramento do mercado de transferências ainda não foi atingido, pelo que corro, assumidamente, sérios riscos de desatualização relativamente às considerações que infra deixarei. Ainda assim, ciente de que os planteis dos três principais clubes ainda poderão sofrer ajustamentos finais, julgo que é possível elaborar um primeiro comentário sobre o modus operandi e as principais movimentações de mercado que ocorreram nas últimas semanas.

No Sporting assistimos à reformulação do plantel principal, sob a forma de limpeza de balneário. No Benfica estamos a acompanhar a reedição do filme de épocas anteriores: novo treinador, milhões de euros investidos em entradas de jogadores e a saída de outros tantos. No FC Porto a aposta assenta na consistência dos princípios técnico-táticos que produziram os resultados conhecidos e na estabilidade do grupo de atletas que os vão reinterpretar durante a época.

FC Porto: estabilidade e consistência

A atuação do FC Porto no mercado assenta em dois pressupostos fundamentais: primeiro, manter a estrutura essencial da equipa que garantiu o campeonato nacional na época transata. A permanência de Diogo Costa, Kiwior, Bednarek, Froholdt, Alberto Costa, P. Rosário, Gabri Veiga, W. Gomes, Pepê, Samú são as melhores notícias sobre o reforço da equipa. Garantir a estabilidade e o compromisso das principais figuras do plantel mostra-se essencial para prosseguir, consistentemente, o trabalho técnico-tático-motivacional iniciado por Francesco Farioli na época 2025/2026.

Segundo, com a inclusão de André Silva, Inbeom Hwang e o regresso de Seko Fofana, o FC Porto reforça a profundidade do plantel e apresenta um lote de atletas competitivamente equilibrado. A chegada de Santiago Giménez, proveniente do Milan, vem acrescentar diferenciação técnica, capacidade de finalização e experiência competitiva ao mais alto nível no setor mais ofensivo da equipa.

Entre as saídas, a operação de maior relevo é a de Rodrigo Mora para a AS Roma. O FC Porto acordou a transferência de 50% dos direitos económicos por 25 milhões de euros, acrescidos de 2 milhões dependentes de objetivos a atingir. O acordo prevê ainda mecanismos para a aquisição da restante percentagem do passe, podendo o negócio atingir valores superiores caso sejam exercidas as opções contratualmente previstas. O montante de 25 milhões é, por isso, o valor fixo inicialmente acordado entre as partes e não deve ser confundido com o valor potencial máximo da operação, que se cifrará nos 52 milhões de euros.

O FC Porto viu também sair Stephen Eustáquio, cuja operação para o Swansea representa um encaixe na ordem dos 4 milhões de euros, sendo que o Clube mantém 10% sobre uma futura venda do passe do atleta.

Benfica: a 'estratégia' de anos anteriores

Nos últimos cinco anos, o Benfica conheceu seis treinadores; Jorge Jesus, Nelson Veríssimo, Roger Schmidt, Bruno Lage, José Mourinho e desde junho Marco Silva, o sétimo. Instabilidade no comando técnico que vem acompanhada de uma elevadíssima rotação de jogadores. Entre entradas e saídas, contam-se seguramente umas largas dezenas de atletas, nos últimos cinco anos.

Em 2026/2027 o critério de gestão desportiva não conheceu, por isso, alterações estratégicas. Novo treinador, Marco Silva, acompanhado de uma renovação relevante do plantel à sua disposição. Quanto a saídas, contam-se as de Otamendi, Diogo Prioste, Sidny Cabral, João Veloso, Rodrigo Rêgo, Gustavo Varela, Henrique Araújo, Ivanovic, Obrador, António Silva, Dedic, Tiago Gouveia e João Rêgo. 13, até ver.

Relativamente a chegadas, destaque para a contratação de João Palhinha, proveniente do Bayern. Neste caso o Benfica paga 14 milhões de euros fixos, podendo o valor da transferência atingir os 19 milhões mediante a concretização de objetivos desportivos acordados entre as partes.

O internacional português assinou contrato até 2030 e ficou com uma cláusula de rescisão de 50 milhões de euros e um salário anual bruto de 6 milhões de euros. Juntam-se ao rol de entradas Gabriel Índio, de 18 anos, Clément Lenglet e Alessandro Circati, oriundo do Parma, para o eixo defensivo, Jakub Kaminski e Jhon Durán para a frente de ataque.

Sporting: processo de 'refundação' em curso

No Sporting, o volume de operações registadas até à data é seguramente o mais substancial. A contratação mais cara é a de Rodrigo Zalazar, proveniente do SC Braga, num negócio fixado em cerca de 30 milhões de euros. O médio uruguaio assinou até 2031 e regista uma cláusula de rescisão de €80 milhões.

Seguiram-se Issa Doumbia, contratado ao Veneza, Sergi Altimira, proveniente do Betis, Silas Andersen, do Hacken, Pedro Lima, do Aves SAD, e Ibrahima Ba, do Famalicão. Os cinco integram o grupo de principais reforços para 2026/27.

Sendo que Altimira e Doumbia assinaram ambos até 2031, com cláusulas de rescisão de 80 milhões. Regista-se ainda a chegada do extremo australiano, Nestory Irankunda, proveniente do Watford, por 15 milhões de euros fixos acrescidos de 3 milhões associados a objetivos desportivos. O jogador assinou igualmente até junho de 2031. Kaique Pereira, guarda-redes brasileiro de 23 anos, oriundo do Palmeiras de Abel Ferreira, onde era terceira opção, assinou um contrato de 5 anos.

A perplexidade do mercado do Sporting reflete-se igualmente na dimensão das saídas; Morten Hjulmand foi transferido para o Atlético de Madrid por 40 milhões de euros, com mais 5 milhões em objetivos. Ousmane Diomande seguiu para o Nottingham Forest também por 40 milhões de euros, enquanto Francisco Trincão foi vendido ao Al Ahli por cerca de 39,3 milhões, com possibilidade de o valor global atingir aproximadamente 43,7 milhões.

Geovany Quenda foi transferido para o Chelsea por um valor na ordem dos 50 milhões de euros, negócio que havia sido contratualizado no início da época 2025/2026.

Igualmente relevantes foram as saídas de Ricardo Mangas para o Monza e de Kochorashvili para o Sevilha. Somam-se ainda as de Daniel Bragança, João Virgínia e muito provavelmente a de Pedro Gonçalves, este, com guia de marcha atestada e reiterada publicamente uma mão cheia de vezes, por treinador e Presidente, nas últimas semanas.

Frederico Varandas lidera uma verdadeira limpeza de balneário, ciente (?), dos riscos desportivos em que pode estar a incorrer. Formar, capacitar, dotar técnica e taticamente uma equipa praticamente do zero levará o seu tempo e pode não surtir o efeito imediato almejado.

Veremos!

SINAL MAIS: STEPHEN EUSTÁQUIO

Stephen Eustáquio deixou definitivamente o FC Porto numa transferência que o levou ao Swansea, do Championship. Apesar da decisão de saída ser, desde há muito, conhecida, jogador e Clube mantiveram sempre uma relação profissional perfeitamente alinhada e em evidente sintonia. Eustáquio integrou diariamente os treinos da equipa, foi convocado, obteve minutos de jogo e demonstrou disponibilidade para ajudar o FC Porto até ao último minuto em que envergou a camisola azul e branca. O FC Porto, por seu lado, geriu a saída com a necessária dignidade e o respeito institucional que um atleta com tantos anos de casa, impunha.

SINAL MENOS: PEDRO GONÇALVES

A saída de Pedro Gonçalves do Sporting é provavelmente o segredo mais mal guardado deste mercado de Verão, sendo que a estrutura dirigente, treinador e Presidente leoninos não se têm abstido de indicar a porta de saída ao jogador. Acomodado, necessidade de cortar com o passado, renovação de balneário, Pedro Gonçalves, tem sido objeto de vários mimos nos últimos dois meses. Não joga, não treina integrado, não é convocado e mantém-se arredado do contacto com os demais elementos do plantel verde e branco. Estranha forma de vida de um profissional que contribuiu com golos, assistências e exibições de encher o olho no tal super Sporting de Ruben Amorim.

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