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Mundial 2030: quando a crise política põe à prova a aliança entre Portugal, Espanha e Marrocos
Para a FIFA, a organização conjunta do Mundial de 2030 foi apresentada como um símbolo de cooperação internacional. Espanha, Portugal e Marrocos formariam uma ponte entre a Europa e África, enquanto os jogos comemorativos na América do Sul reforçariam a dimensão histórica do centenário da competição. A narrativa é apelativa: partilhar recursos, reduzir custos, distribuir riscos e usar o futebol como instrumento de aproximação entre países. Acontecimentos recentes mostram, contudo, que organizar conjuntamente um megaevento desta dimensão implica muito mais do que dividir estádios, jogos, investimentos e receitas.
A recente crise migratória em Ceuta e as acusações dirigidas às autoridades marroquinas rapidamente chegaram ao debate sobre o Mundial. Em Portugal, o Livre defendeu o afastamento de Marrocos da organização, enquanto em Espanha partidos politicamente distantes, como Sumar e Vox, convergiram numa posição semelhante. Ao mesmo tempo, o Governo espanhol reafirmou o compromisso com a organização conjunta entre Espanha, Portugal e Marrocos.
A tensão ultrapassou, entretanto, a esfera política. A decisão do FC Barcelona de cancelar um jogo amigável previsto para Marrocos mostra como acontecimentos externos ao futebol podem rapidamente afetar relações desportivas, comerciais e institucionais. E é precisamente aqui que a atualidade se cruza com aquilo que temos vindo a descobrir sobre a candidatura e organização do Mundial de 2030.
A nossa investigação tem procurado compreender não apenas se os residentes apoiam o Mundial, mas também como avaliam os países com quem o vão organizar. Esta distinção é importante: apoiar a realização de um Mundial não significa necessariamente apoiar incondicionalmente a configuração da aliança escolhida para o organizar. Nos primeiros estudos verificámos que o apoio dos residentes dependia de fatores que iam muito além do entusiasmo pelo futebol, incluindo os benefícios esperados, os riscos percebidos, a confiança nas instituições e a identificação com os parceiros. Estudos posteriores mostraram ainda que muitos residentes portugueses e espanhóis tendem a considerar Portugal e Espanha como um núcleo relativamente natural da candidatura, devido à proximidade geográfica, aos laços históricos e a uma perceção de identidade ibérica. A entrada de Marrocos acrescenta diversidade, valor estratégico e uma dimensão intercontinental, mas introduz também maior complexidade cultural e simbólica.
O problema, contudo, não está simplesmente na existência de diferenças culturais. Está na forma como essas diferenças são geridas e transformadas em confiança, reciprocidade e benefícios para as comunidades. É precisamente por isso que a crise de Ceuta pode ser entendida como um verdadeiro teste de stresse à aliança do Mundial de 2030.
A crise não criou as diferenças entre os parceiros, nem significa que a cooperação entre Espanha, Portugal e Marrocos tenha deixado de funcionar. Tornou, porém, essas diferenças politicamente mais visíveis. Uma distância cultural anteriormente percecionada como abstrata pode adquirir outro significado quando passa a estar associada a uma crise migratória, questões fronteiriças, segurança, direitos humanos ou conflitos políticos.
É neste contexto que o papel da FIFA, da FPF e dos governos dos países anfitriões se torna particularmente importante. Se o Mundial de 2030 for gerido apenas como um problema de logística, infraestruturas e calendário, uma parte fundamental da complexidade desta aliança será ignorada.
O Mundial necessita, urgentemente de uma verdadeira governance da aliança: maior transparência nos processos de decisão, critérios claros para a distribuição dos principais jogos, equilíbrio na visibilidade concedida aos países, mecanismos de resolução de conflitos e princípios comuns em matérias como direitos humanos e segurança. Acima de tudo, é necessário demonstrar que benefícios, responsabilidades e oportunidades são distribuídos de forma equilibrada entre os parceiros.
A localização da final é um bom exemplo. Uma decisão aparentemente desportiva possui uma enorme carga simbólica: representa prestígio para os governos, influência para as federações e pode ser interpretada pelas populações como um sinal de equilíbrio ou desigualdade dentro da parceria. O mesmo acontece com a distribuição dos jogos, investimentos, receitas, infraestruturas e oportunidades económicas.
Num megaevento multinacional, cada decisão pode reforçar ou enfraquecer a perceção de reciprocidade entre os parceiros. Por isso, nos próximos quatro anos não deveríamos acompanhar apenas a construção de estádios, os transportes, os orçamentos ou a capacidade turística. Deveríamos também acompanhar e promover a confiança entre os países, a justiça na distribuição dos benefícios, a legitimidade da organização e o apoio das populações nos três países. Estes indicadores sociais podem funcionar como um importante sistema de alerta para potenciais crises da aliança.
A questão central, portanto, não deve ser apenas se Marrocos deve ou não continuar a integrar o Mundial de 2030. A questão mais relevante é perceber o que torna legítima e sustentável uma aliança entre diferentes países para organizar um megaevento como o Mundial de Futebol.
A aprovação da FIFA, o compromisso dos governos, os estádios, os aeroportos e os recursos financeiros são fundamentais, mas não são suficientes. Uma organização multinacional desta dimensão necessita também de uma verdadeira licença social para operar. E essa licença não é obtida definitivamente quando a candidatura é aprovada, mas tem de ser continuamente construída através de confiança, transparência, reciprocidade e perceção de valor para todas as sociedades envolvidas.
Ainda faltam quatro anos para a competição, mas, do ponto de vista político e social, o Mundial já começou. Talvez o maior desafio de 2030 não seja construir estádios, organizar calendários ou transportar milhões de adeptos entre três países. Será conseguir que três sociedades, com diferentes culturas, interesses e perceções de risco, continuem a reconhecer valor suficiente na parceria para quererem organizar o Mundial umas com as outras.
Esse poderá ser o jogo mais difícil de vencaer.