Calor é o maior pesadelo no Tour2026 e vale tudo para sobreviver
Vencer o Tour promete, este ano, ser uma luta ainda mais dura e que não se limita às montanha e ao cronómetro, o calor é um inimigo tão ou mais assustador para os ciclistas.
Tom Pidcock afirmou que nunca tinha disputado uma corrida tão dura devido às temperaturas - «É uma zona de guerra» - e Pogacar já se queixou de dores de cabeça e admitiu gerir o esforço. O cenário pode tornar-se ainda mais dramático a e a organização já admitiu até alterar algumas etapas.
Enquanto isso, as equipas e os corredores desdobram-se para lidar com o sufoco diário e já não investem apenas em bicicletas mais leves ou em estratégias de corrida, mas também em especialistas de fisiologia, sistemas de refrigeração e protocolos científicos de gestão da temperatura. O gelo passou a ser tão importante quanto a nutrição ou a tática, e a adaptação ao calor poderá tornar-se um fator decisivo na luta pela camisola amarela.
Ever wondered why our riders cool their hands and forearms in ice water before a brutally hot @LeTour stage like today's? 🥵🇫🇷
— Soudal Quick-Step Pro Cycling Team (@soudalquickstep) July 7, 2026
→ Our team doctor explains the science behind this pre-cooling strategy. 👨🏻⚕️🧊#TheWolfpack pic.twitter.com/MBCxO1R0nv
A hidratação e o controlo da temperatura corporal são cruciais para os atletas, especialmente durante as ondas de calor, como explica Paul Verhaeghe, médico da equipa TotalÉnergies. «Antes das provas, os ciclistas realizam treinos específicos de adaptação ao calor (heat training) e seguem um protocolo de arrefecimento prévio (pre-cooling). «O objetivo é limitar ao máximo o aumento da sua temperatura corporal», afirma.
Os atletas permanecem no autocarro climatizado até ao último momento e usam coletes de gelo na apresentação. Além disso, consomem gelados especialmente formulados com sódio e hidratos de carbono.
Scorching ☀️
— Cycling on TNT Sports (@cyclingontnt) July 7, 2026
Ice, water and anything to stay cool as the everyone at Le Tour battles the heat on Stage 4 🧊💦 pic.twitter.com/41nUvpYfVQ
«O objetivo é tentar permanecer o mais fresco possível», sublinha. Para isso, aumenta-se o número de bidões de água e de assistentes ao longo do percurso, permitindo que os ciclistas se hidratem e se refresquem constantemente. O uso de meias de gelo no corpo é outra tática para evitar um golpe de calor, que «pode ter consequências dramáticas».
A recuperação pós-etapa é igualmente vital. Mesmo fora da exposição direta ao calor, é um momento crucial para reidratar os atletas, não só com líquidos, mas também com a reposição de minerais através de solutos de reidratação. O estado de hidratação é monitorizado diariamente através da densitometria urinária. «Analisamos a urina da manhã com uma máquina para avaliar o nível de hidratação e aconselhá-los», explica Verhaeghe. Se um ciclista apresentar desidratação persistente, a ingestão de líquidos é incentivada ao máximo, podendo recorrer-se a um impedancímetro, um aparelho que analisa a composição corporal através de elétrodos, para uma avaliação mais detalhada.
As altas temperaturas representam um desafio significativo no ciclismo profissional, obrigando as equipas a uma gestão rigorosa para evitar consequências graves para a saúde e o desempenho dos atletas. A temperatura corporal de um ciclista pode tornar-se perigosa acima dos 40 graus, sendo que, ao aproximar-se dos 41, entra-se na zona de risco de um golpe de calor.
Os sintomas iniciais de um golpe de calor incluem cãibras, náuseas e problemas digestivos. Contudo, a situação pode agravar-se rapidamente, evoluindo para distúrbios neurológicos, falência multiorgânica e até mesmo o coma, caso a temperatura corporal não seja reduzida de forma célere.
Apesar dos perigos, as equipas técnicas, como a da Decathlon CMA-CGM, afirmam não sentir um stress adicional, pois implementam protocolos rigorosos para mitigar os riscos. «Isto permite-nos situar-nos e orientar a recuperação ao máximo para evitar que a desidratação num dia prejudique o desempenho nas etapas seguintes», explica um responsável.
A principal diferença entre os profissionais e os amadores reside na preparação. Os ciclistas de elite são atletas treinados que conhecem os seus limites e as estratégias de reidratação, o que reduz o receio de incidentes graves, ao contrário do que por vezes acontece com desportistas amadores menos preparados para o calor extremo.
A logística para combater o calor é impressionante. Numa jornada particularmente quente, o consumo de gelo pode variar entre 80 e 100 quilos por dia. «Adaptamos dia a dia, podendo baixar para 40-60 em dias um pouco mais frescos», revela a equipa. O gelo é distribuído em arcas térmicas nos carros dos diretores desportivos e dos assistentes, com o objetivo de o fazer chegar aos ciclistas a cada vinte minutos.
Por isso, vale tudo para arrefecer: meias de gelo colocadas dentro da camisola, junto à coluna; coletes de gelo; cubos de gelo dentro do capacete; gelo à volta do pescoço; bebidas em forma de slush (granizados) antes da partida para reduzir a temperatura corporal. Segundo vários diretores desportivos, o objetivo já não é apenas hidratar, mas impedir que a temperatura interna do organismo ultrapasse níveis críticos.
Nos parques das equipas tornou-se comum ver os líderes sentados com coletes de gelo, toalhas geladas, ventoinhas industriais e até corredores com os antebraços mergulhados em água muito fria, como acontece com os ciclistas das Ineos (Netcompany-Ineos).
Naturalmente a básica ingestão de líquidos também aumentou drasticamente e as equipas revelam que os consumos são de 8 a 12 bidões por ciclista, com a reposição constante de eletrólitos e sais minerais praticamente em todos os abastecimentos.