Doping salvou a vida de Traeen, o 'viking' que hoje veste de amarelo no Tour
Um controlo antidoping realizado na Volta a Catalunha revelou-se crucial para salvar a vida do ciclista norueguês Torstein Traeen, levando à descoberta de um cancro testicular. O atleta da Uno-X, de 27 anos, recebeu a notícia em maio de 2022, durante um estágio da equipa na Serra Nevada, em Espanha.
Tudo começou com um telefonema de Knut Ronning, o médico da equipa. Traeen tinha ignorado um e-mail que o informava de um resultado positivo para hCG num controlo. «Ele perguntou-me se eu tinha lido o e-mail na minha caixa de correio, e eu disse que sim, que sim», contou o ciclista, que não tinha percebido a gravidade do assunto. Foi então que Ronning lhe explicou a situação: «Acusaste positivo para hCG na Volta a Catalunha».
A hCG é uma hormona que, em homens, pode indicar um problema de saúde grave, apesar de estar na lista de substâncias proibidas da WADA por estimular a produção de testosterona. «Fiquei em choque total», confessou Træen. A brincadeira sobre ser sexta-feira 13, feita ao pequeno-almoço, perdera subitamente a graça.
O médico da equipa, ciente de que a hCG poderia ser um indicador de cancro testicular, instruiu o ciclista a procurar ajuda médica imediatamente. «Ele disse que eu precisava de ir ao médico imediatamente, e eu perguntei porquê. 'Podes estar doente', disse ele. Eu disse-lhe que me tinha sentido indisposto depois da Catalunha, mas ele respondeu: 'Não, podes estar mesmo muito doente'», relatou Traeen. Só mais tarde Ronning soube que o atleta sentia uma ligeira dor nos testículos, à qual não tinha dado importância.
Menos de 72 horas após o telefonema, Træen já estava com o seu médico de família em Stavanger. Os primeiros exames não foram conclusivos, aumentando a ansiedade durante as duas semanas de espera seguintes, período em que a dor se tornou mais pronunciada. «Foi difícil estar apenas à espera, sem saber o que fazer. Tinha de treinar, mas não me apetecia», reflete.
Numa consulta posterior, a abordagem direta do médico não deixou margem para dúvidas. «Ele disse-me: 'Vou garantir que não morres de cancro'. Soube então que as coisas não pareciam bem. Ri-me porque não sabia o que mais dizer», recorda o norueguês.
Apesar do diagnóstico assustador, Traeen tentou manter o foco nas altas taxas de sobrevivência da doença, que rondam os 90%. Poucas semanas antes, o ciclista vivia um excelente momento de forma, com um nono lugar na geral da Volta a Catalunha e a camisola da montanha no Tour of the Alps. «A palavra 'cancro' é muito assustadora, mas eu só pensava em ciclismo e em voltar», afirmou.
O período que se seguiu foi marcado pela incerteza e pela dificuldade em manter a rotina de treinos, especialmente durante a ausência da sua namorada, Susanne Andersen, também ciclista da Uno-X. «Fiquei sozinho durante algumas semanas. Encomendava comida fora quase todos os dias. Podia passar três dias sem treinar e depois treinava nos quatro dias seguintes. Era como se estivesse no período de descanso — sem fazer muito, mas a comer muito. A vida diária era dura».
Finalmente, os exames levaram a uma decisão. A equipa cirúrgica recomendou a remoção do testículo esquerdo, uma vez que só assim seria possível confirmar a presença de cancro. Træen encarou a situação com pragmatismo, embora tenha tido de enfrentar a questão da fertilidade. «Tive de fazer muitas coisas de adulto. Disseram-me que tudo funcionaria normalmente depois, mas tive de ir a um banco de esperma, por precaução».
A cirurgia realizou-se a 23 de junho, 41 dias após o telefonema que mudou a sua vida. A 5 de julho, chegou a confirmação que tanto temia e, ao mesmo tempo, o alívio. «Quando removeram o meu testículo esquerdo, encontraram um tumor cancerígeno de 15 mm lá dentro», revelou. Felizmente, não havia sinais de que o cancro se tivesse espalhado. Nas redes sociais, o ciclista partilhou a boa notícia: «Tenho 99 problemas, mas o cancro já não é um deles».
Um controlo antidoping de rotina no norte de Espanha pode ter salvo a vida do ciclista Torstein Træen, ou, nas suas próprias palavras, salvou-o certamente da quimioterapia. O atleta acredita que o cancro testicular foi detetado numa fase muito inicial, permitindo um tratamento menos agressivo.
«Não tenho a certeza», afirmou Traeen sobre se o controlo lhe salvou a vida, «mas de certeza que me salvou da quimioterapia e por isso sinto-me verdadeiramente abençoado». O ciclista explica que a detecção precoce foi crucial. «Duas semanas antes da Catalunha, tinha sido testado pela Agência Antidopagem da Noruega e não encontraram vestígios de hCG», detalhou, acrescentando: «Apanhámo-lo no início, o que significou que não precisei de quimioterapia ou de uma cirurgia complicada».
O regresso aos treinos após a cirurgia foi doloroso. «No primeiro treino, pensei: 'oh f*, isto dói mesmo!'», recorda. A solução passou por um selim mais almofadado, que aliviou o desconforto. «Agora consigo andar seis horas sem sentir dor. Ainda é um problema na bicicleta de contrarrelógio, mas vamos resolver isso».
Apenas quatro meses depois de ter vencido a classificação da montanha no Tour of the Alps, Træen regressou à competição a 18 de agosto, na Baltic Chain Tour. «Foi estranho estar de volta, mas estava muito feliz», confessou.
O seu regresso à boa forma foi notável. Duas semanas depois, alcançou o terceiro lugar no Grande Prémio de Lillehammer. Em outubro, foi sétimo na classificação geral da Cro Race e terceiro no Tour de Langkawi, na Malásia. «A equipa ficou chocada por eu estar bem na Croácia, porque o percurso era mais explosivo. Eu estava simplesmente feliz por estar ali, a competir na fase final».
Para a equipa Uno-X, a situação foi inédita. Segundo o médico da equipa, Knut Ronning, nunca um ciclista da formação norueguesa tinha acusado positivo num controlo antidoping ou sido diagnosticado com cancro, o que exigiu uma aprendizagem rápida. «Percebemos desde cedo que a abertura e a comunicação sobre tudo eram importantes», explicou o médico dinamarquês. «Estou orgulhoso da forma como toda a nossa equipa lidou com a situação».
Ronning foi um apoio fundamental para Træen, que realizou o tratamento na sua Noruega natal. «O meu trabalho consistia em apoiá-lo continuamente por telefone, acalmar algumas das suas preocupações, explicar cada passo e responder a perguntas», disse o médico, que acredita que o atleta se mostrou mais forte do que realmente se sentia. «Tenho a certeza de que foi uma montanha-russa emocional muito maior do que ele demonstrou».