Boavista vive dias difíceis e de incerteza - Foto: A BOLA
Boavista vive dias difíceis e de incerteza - Foto: A BOLA

Boavista: da glória ao abismo, 25 anos depois

Do campeão nacional em 2001 à luta pela sobrevivência, entre insolvências, quedas sucessivas e um futuro em risco

A data que assinala um quarto de século sobre o histórico título nacional do Boavista surge agora como um cruel espelho invertido de um dos capítulos mais sombrios da história axadrezada. Clube com 122 anos de vida, o Boavista chega a este marco mergulhado numa crise sem precedentes, desportiva e institucional.

No relvado, a queda foi abrupta. Depois de consumar a descida ao segundo escalão, o Boavista foi incapaz de reunir os pressupostos de licenciamento financeiro e administrativo para competir na Liga 2, falhando também a inscrição nas competições profissionais e nacionais. A queda não se ficou pela descida: prolongou-se nos gabinetes, onde a incapacidade de cumprir as exigências mínimas de estrutura e sustentabilidade selou uma espécie de segunda derrota, desta vez fora das quatro linhas.

O clube atravessa um dos momentos mais críticos da sua existência. Entre leilões em curso, credores à porta e um processo de insolvência que esvaziou o poder da direção, o Boavista vê-se encurralado numa espiral de perda de controlo e identidade. Como se não bastasse, o Tribunal de Gaia deu mais um golpe profundo ao determinar também o pedido de insolvência da SAD.

No plano desportivo mais alargado, o cenário não é menos desolador. Apesar da promessa de Garrido Pereira de cortar o cordão umbilical com a SAD, o Boavista não conseguiu sequer inscrever uma equipa na I Divisão Distrital da AF Porto. Já a equipa da SAD consumou a descida da Liga Pro da AF Porto, num percurso marcado pela fragilidade competitiva e pela utilização maioritária de atletas juniores. Longe do Bessa, a equipa viu-se ainda obrigada a jogar no sintético municipal de Ramalde, enquanto o histórico Estádio do Bessa mergulha num cenário de abandono que simboliza, de forma crua, o estado atual do clube.

A queda é tanto mais dura quanto maior foi a ascensão. Em 2001, o Boavista desafiou a ordem estabelecida e conquistou o título nacional, inscrevendo o seu nome numa lista restrita dominada pelos três grandes. Era o auge de um projeto sólido, de uma identidade forte e de uma ambição rara no futebol português.

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Pelo meio, ficaram também marcas profundas fora das quatro linhas. A 15 de julho, o Estádio do Bessa foi alvo de buscas por parte da Polícia Judiciária, no âmbito de uma investigação que viria a constituir seis arguidos, entre pessoas singulares e coletivas. Entre eles, o próprio Boavista e Vítor Murta — presidente entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025. Em causa estão factos ocorridos entre 2023 e 2024, com suspeitas de fraude fiscal, frustração de créditos e branqueamento de capitais, alegadamente envolvendo quadros dirigentes, contabilistas certificados, um escritório de advogados e uma sociedade de revisores oficiais de contas.

Vinte e cinco anos depois da maior conquista da sua história, o Boavista enfrenta o seu maior desafio: sobreviver. Entre a memória da glória e o peso da ruína, resta saber se o clube conseguirá, uma vez mais, reinventar-se — ou se este será o capítulo final de uma das histórias mais singulares do futebol português. A BOLA sabe que há uma luz de esperança e que uma franja importante de boavisteiros prepara um plano para evitar o que muitos temem, a venda total do património e o fecho de portas.

Recordes os campeões de 2001

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