Rui Costa, presidente do Benfica, vive dias complicados no cargo - Foto: Imago
Rui Costa, presidente do Benfica, vive dias complicados no cargo - Foto: Imago

Benfica: quando a fé substitui as competências

'Mercado de valores' é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

No futebol, as vitórias têm sempre muitos pais. As derrotas, pelo contrário, precisam rapidamente de culpados. O Benfica vive hoje exatamente esse momento. Depois de mais uma época dececionante, a contestação instalou-se e Rui Costa passou a ser o principal alvo das críticas. Reduzir o problema do Benfica apenas ao presidente talvez seja a forma mais simples e mais confortável de olhar para a realidade.

O momento do clube e as escolhas dos sócios

Perante um conjunto de sinais, financeiros, estratégicos, organizacionais, de transparência e até identitários, importa regressar à pergunta central: por que razão voltaram os sócios a confiar este mandato a Rui Costa? Desde logo, no plano financeiro, a SAD tem vindo a revelar uma tendência preocupante: um aumento constante de custos fixos sem o devido acompanhamento de receitas fixas. Isto faz com que o clube esteja cada vez mais exposto à dívida e a rendimentos variáveis, nem sempre previsíveis ou sustentáveis.

Esta realidade aumenta a vulnerabilidade financeira e reduz a margem de decisão desportiva. Um clube desta dimensão não pode viver numa lógica permanente de incerteza. Na prática, o equilíbrio das contas tem passado com frequência pela venda de jogadores. Nos últimos anos, essa necessidade tem sido crescente, o que aumenta a rotatividade do plantel e dificulta a construção de estabilidade desportiva e, consequentemente, a obtenção de sucesso.

Depois, no plano da visão estratégica, surgem decisões difíceis de enquadrar num projeto coerente e sustentado. O caso da Benfica Rádio é apenas um exemplo simbólico: um investimento relevante, sem o devido enquadramento operacional assegurado, que levanta dúvidas sobre planeamento e gestão de prioridades.

Também no plano da transparência, o universo Benfica continua a ser de leitura complexa e pouco acessível para o adepto comum. A existência de múltiplas empresas dentro da estrutura, num ecossistema com várias camadas societárias, torna a análise global do clube difícil, pouco intuitiva e transparente. A opção por não avançar para uma auditoria mais abrangente a todo o universo do Benfica alimenta essa perceção de opacidade.

Mas talvez o problema mais profundo não seja só financeiro, estratégico ou de transparência. É também de identidade. O Benfica, ao longo dos últimos anos, tem vindo a sofrer uma erosão significativa da sua cultura institucional, na forma como comunica, como decide e como se posiciona. Um clube desta dimensão não pode ser apenas uma organização que reage aos acontecimentos. Tem de ser uma referência que os antecipa e uma voz respeitada no panorama do futebol, algo que se tem vindo a perder ao longo do tempo.

Por fim, há um elemento transversal a todos os outros: a capacidade de liderança e de se rodear das pessoas certas. Um presidente não tem de dominar todas as áreas, mas tem de garantir que está rodeado das competências ideais para colmatar as suas próprias limitações, algo que, na prática, não se tem verificado. Pelo contrário, transmite-se muitas vezes a perceção de ausência de visão crítica sobre os problemas, de uma gestão reativa e de dificuldade na avaliação de quem integra a estrutura.

Perante isto, a resposta mais imediata à questão sobre por que motivo os sócios reforçaram o poder de Rui Costa, pode apontar para a ausência de uma alternativa suficientemente forte no momento eleitoral. Mas essa explicação não esgota o essencial. A decisão dos sócios assentou também noutra dimensão, menos racional e mais emocional: a fé. A fé de que a ligação de Rui Costa ao clube seria suficiente para compensar fragilidades de liderança e de estrutura. A fé de que o benfiquismo seria suficiente para imprimir nova dinâmica interna e sustentar as mudanças necessárias. A fé de que a experiência acumulada dentro do universo Benfica permitiria colmatar lacunas que já eram visíveis no passado. A fé de que, com o tempo, as decisões seriam naturalmente mais sólidas, estratégicas e consistentes. A fé de que os erros do passado seriam analisados e corrigidos.

A verdade, porém, é que o Benfica é hoje um clube mais fechado, com maior dificuldade em lidar com a crítica e em reagir ao escrutínio externo. Mas a realidade do futebol moderno, e de um clube com a dimensão do Benfica, exige algo mais objetivo: competências claras de liderança, visão estratégica consistente, capacidade de decisão sob pressão e aptidão para construir estruturas competentes e estáveis.

E é nesse ponto que o debate se torna inevitável. Porque a escolha não se resume só a nomes. Resume-se também ao perfil de liderança que é validado. E quando esse perfil não demonstra, de forma consistente, algumas das competências exigidas para o cargo, ou a capacidade de se rodear das pessoas certas para as suprir, os resultados acabam por refletir essa limitação.

Os sócios escolheram acreditar. E essa escolha é legítima. Mas a fé, por si só, não substitui competências. Perante tudo isto, para uns já só faltam três anos para novas eleições, para outros ainda faltam três anos. Entre o copo meio cheio e o copo meio vazio, fica a mesma pergunta por responder: o que mudou, de facto?

A valorizar: Mariano Lopez

O Académico de Viseu está de regresso ao principal escalão do futebol português 37 anos depois da última participação. O mérito é de um investidor que entrou para acrescentar. Com organização, racionalidade, profissionalismo e uma grande dose de paciência à espera dos melhores resultados. Mariano Lopez vê, finalmente, o seu investimento e esforço compensados com a subida de divisão.

A valorizar: David Caiado

A académica está de regresso às competições profissionais, no caso a Liga 2. Fora dos holofotes está David Caiado, diretor desportivo, que teve papel determinante. No meio de muitas dificuldades a Académica soube ir subindo patamares e criar uma equipa competitiva muito bem conduzida por António Barbosa. Em simultâneo, voltaram a juntar a cidade ao clube: 26 mil espectadores no jogo decisivo é incrível.

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