Benfica: segredos dos bastidores do trabalho de Marco Silva
O impacto positivo de Marco Silva no Benfica vê-se nas boas exibições e nos bons resultados da equipa, que soma oito vitórias seguidas, mas também se sente nos bastidores, longe de olhares indiscretos, e aí está um dos principais motivos para a recuperação da esperança do universo encarnado. Para lá dos méritos táticos e técnicos, há outro trabalho invisível no Seixal que começa a dar frutos.
Marco Silva não falha um treino dos jogadores que não são convocados. Todos contam
Marco Silva chegou à Luz com um discurso audaz, prometeu equipa dominadora e capaz de praticar futebol atrativo. Quem é próximo do treinador de 49 anos conhece-lhe bem a ambição e não estranhou as primeiras palavras dele, que não foram utilizadas em vão. Marco Silva tem, também, um traço de personalidade que o define e que todos os que começaram a trabalhar com ele no Benfica depressa deram conta — é perfecionista e meticuloso com tudo o que diz respeito ao trabalho dele, sem se meter no trabalho dos outros, seja departamento médico ou tratador da relva. Exige dos outros o mesmo compromisso e rigor que entrega.
Com Marco Silva, que chega sempre muito cedo ao Seixal, os horários são para cumprir escrupulosamente, assim como as regras, embora estas não sejam demasiadamente rígidas. Em Milão, aconteceu uma situação que, apesar de ter passado despercebida, deixou o treinador impaciente — na véspera do jogo com o Milan, na conferência de Imprensa, o treinador sentiu que as respostas estavam a demorar muito tempo a ser traduzidas e percebeu que a equipa, já no hotel, poderia ficar muito tempo à espera para jantar. No dia seguinte, após o jogo, pediu ao tradutor para resumir as respostas (pôde ouvir-se porque o microfone estava aberto) para que ninguém esperasse por ele.
Marco Silva usa a sensibilidade, por outro lado, para perceber esta nova geração de jogadores e algumas das necessidades pessoais que não existiam quando iniciou a carreira.
Marco Silva, em resumo, fala a linguagem dos jogadores, sem precisar de estar sempre a falar com eles. Não é dos treinadores que explicam tudo — intervém de acordo com a situação e a circunstância, quando entende que alguém poderá ficar surpreendido com uma decisão inesperada. Existe, ao mesmo tempo, a fronteira hierárquica, que pode ser esbatida pela intuição e bom senso. Mas, por princípio, entende que os jogadores também têm a responsabilidade, na maior parte dos casos, de perceber os motivos por que as decisões são tomadas.
Logo no início da época foi preciso falar com Rafa, para explicar-lhe que teria de mudar da posição de apoio a Pavlidis para a direita do ataque. Tratou-se de momento sensível, até porque Rafa já não se via a fazer o corredor e poderia não gostar da opção. O treinador, porém, jogou um trunfo. Rafa dá-se muito bem com Alexander Bah, os dois alimentaram a relação próxima mesmo depois da saída do avançado para o Besiktas e Marco Silva puxou pelo sentimento — que iria fazer com o amigo um corredor fortíssimo. Rafa comprou a ideia.
O entendimento entre Prestianni e Schjelderup tem sido potenciado, para lá das questões táticas, por Marco Silva, que depressa identificou a cumplicidade entre o argentino e o norueguês. Não tem problemas, ao contrário, em chamar a atenção de algum jogador em público. Depois da goleada aplicada ao Casa Pia (7-0), criticou Lukebakio por um fora de jogo «sem necessidade alguma». Quinze dias depois estava a impedir a transferência do belga para o Sunderland, por entender que não tem outro extremo no plantel com as mesmas características. No plantel, todos ficaram a saber. E o respeito dos jogadores por Marco Silva foi reforçado.