Golaço de João Guilherme garantiu o triunfo do Académico de Viseu frente ao Gil Vicente — Foto: Manuel Fernando Araújo/LUSA
Golaço de João Guilherme garantiu o triunfo do Académico de Viseu frente ao Gil Vicente — Foto: Manuel Fernando Araújo/LUSA
Rodrigo Magalhães 08:15 - 19. setembro 2026.
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A força das Beiras

O Académico de Viseu não participou muitas vezes no escalão máximo do futebol português. São apenas cinco as presenças no principal campeonato nacional. Ainda assim, há um dado que merece ser destacado: este é o melhor arranque de sempre do Gigante das Beiras na 1.ª Liga

E que início animador para o clube, para a cidade de Viseu, para a região e para toda uma comunidade que se revê nas cores do Académico.

Ao fim de seis jornadas, o regresso do Académico ao principal escalão apresenta indicadores muito positivos. A caminhada começou com um empate a duas bolas no terreno de um eterno candidato ao título, o Benfica, atualmente segundo classificado. Seguiu-se uma derrota em casa frente ao Santa Clara, equipa que permanece invicta e ocupa atualmente a quarta posição.

Depois, um empate na deslocação ao Marítimo, num daqueles terrenos tradicionalmente difíceis, antes de nova derrota no Fontelo, desta vez perante o campeão em título, vencedor da Supertaça e atual líder do campeonato, o FC Porto.

As duas jornadas seguintes trouxeram, porém, duas vitórias consecutivas. Primeiro, frente ao Gil Vicente, fora de portas, num encontro marcado por um golo de antologia. Depois, no Fontelo, diante do Vitória SC, com o Académico a impor-se por 2-1 perante um clube de referência do futebol nacional.

São, naturalmente, indicadores ainda precoces, mas suficientemente positivos para alimentar a expectativa de uma época competitiva e para dar confiança a um projeto que regressou ao convívio dos grandes.

Uma região que se mobiliza

Não poderia, como é óbvio, dissociar esta campanha de uma das mais expressivas manifestações de mobilização desportiva que o futebol português tem conhecido.

Há quem lhe chame um fenómeno. Confesso que não concordo particularmente com essa designação.

Quando o Académico joga, mobilizam-se os sócios, os adeptos e os simpatizantes. Mobiliza-se uma região inteira. Eleva-se uma cultura e um orgulho de pertença profundamente enraizados nas nossas gentes.

É aí que emerge a força das Beiras.

Uma força que se manifesta de forma densa e coesa, como o nevoeiro ou a bruma característica que cobre as manhãs frias de inverno da região.

Mesmo à distância, tenho acompanhado este extraordinário efeito agregador. Através das redes sociais, é possível sentir o apoio, o orgulho, o carinho e a paixão expressos em inúmeras publicações. Chegam de familiares, amigos de infância e tantas outras pessoas que, de uma forma ou de outra, mantêm uma ligação especial à cidade, à região e ao clube.

A nação beirã está a responder à chamada.

E não apenas em Viseu ou na região. Também um pouco por todo o mundo. Afinal, a milhares de quilómetros de distância, continuam bem presentes os símbolos e as camisolas do nosso Académico.

É esta dimensão que ultrapassa o futebol e transforma um clube numa verdadeira referência identitária.

Faço votos para que esta aura perdure.

Porque, no Fontelo, é o Académico que joga em casa.

E não joga sozinho.

Uma equipa com identidade.

Para quem poderia esperar encontrar uma equipa ainda à procura de uma identidade nesta subida à 1.ª Liga, o Académico tem apresentado princípios e subprincípios de jogo já bastante vincados.

Dos jogos que tive oportunidade de observar, a equipa apresentou, em vários momentos, uma estrutura defensiva em 1X5X4X1, organizada num bloco coeso não permitindo muito espaço entre linhas. Revela bons triggers de pressão partindo muitas vezes numa marcação HxH em situações de pontapé de baliza ou com a bola no guarda-redes, obrigando a equipa adversária a recorrer a passes de longa distância.

No momento ofensivo, a dinâmica altera-se. Estruturalmente, o Académico tem apresentado um 1X4X3X3, com um médio defensivo e dois médios interiores. Em determinados momentos, opta também por iniciar a construção a três, através da descida do médio defensivo para junto dos defesas-centrais.

São princípios que revelam uma equipa com uma ideia de jogo definida e que, apesar do salto qualitativo e competitivo inerente à 1.ª Liga, parece disposta a vincar a sua identidade.

Individualidades a acompanhar

Com uma base de jogadores que transitaram da época anterior — com exceção do guarda-redes —, e sem desvalorizar nenhum dos restantes elementos do plantel, há no entanto algumas individualidades que, pela qualidade demonstrada, começam a requerter um particular destaque.

Clóvis, ponta de lança, é uma delas. Pela qualidade que tem apresentado e pelos dois golos já apontados, começa a corresponder às expectativas criadas nas últimas épocas relativamente à sua capacidade para se afirmar num patamar como o da 1.ª Liga.

João Guilherme, extremo-direito, é outro dos jogadores que me merece especial atenção. A alternância entre o jogar no pé e a procura da profundidade confere-lhe características muito interessantes.

Tem-se evidenciado como um jogador predisposto tanto para atacar como para defender, mostrando igualmente bons indicadores nos momentos de transição ofensiva e defensiva. Pela forma como tem participado no jogo, reúne características que lhe poderão permitir alcançar outros patamares competitivos.

Por fim, Luís Silva, médio defensivo. E aqui, mais do que por aspetos estritamente técnico-táticos, destaco fatores relacionados com a dimensão psicológica, o caráter e a personalidade.

A liderança, o exemplo, a resiliência e a capacidade de superação fazem dele um capitão carismático, com influência positiva sobre a equipa. É o tipo de jogador cuja importância nem sempre se mede apenas através dos números.

Uma palavra para a equipa técnica

Uma palavra final de apreço para toda a equipa técnica, com uma referência muito particular ao mister Bruno Pinheiro, com quem mantenho uma relação profissional e de amizade de longa data.

Cruzámo-nos na época 2006/07 e, desde então, fomos mantendo uma comunicação, ainda que demasiado esporádica, mas sempre de grande mais-valia, sobretudo pela riqueza dos conteúdos relacionados com a metodologia e a organização do futebol.

É um treinador de princípios, valores e convicções, a quem endereço os meus votos e o desejo de muito sucesso nesta caminhada ao leme do Académico de Viseu.

Uma palavra também para João Coimbra, treinador-adjunto, com quem partilho um passado profissional e, posteriormente, uma ligação decorrente da sua passagem pelo Académico enquanto jogador.

Fica um abraço de amizade para alguém cujo profissionalismo, humildade e humanidade se destacam — características que certamente também encontram raízes na identidade beirã herdada dos seus progenitores.

O desafio que se segue

Aguardemos, agora, os próximos capítulos.

As dificuldades serão naturalmente maiores numa competição com um nível qualitativo e competitivo bastante diferente daquele que o Académico encontrou na época passada. A 1.ª Liga exige consistência, capacidade de adaptação e, acima de tudo, pragmatismo perante os objetivos definidos.

Pela experiência e competência que possui neste tipo de contextos, a SAD do Académico estará certamente atenta ao atual momento da equipa, avaliando o seu desempenho e, eventualmente, identificando futuras necessidades tendo em vista o próximo mercado.

Os indicadores iniciais são positivos, mas o campeonato é longo. E uma boa entrada não garante, por si só, uma boa época.

Será necessário manter o equilíbrio, a exigência e a capacidade de competir jornada após jornada.

Uma cidade, uma região, uma identidade

Esta simbiose entre o clube, os adeptos e a cidade — também ela impulsionada pelo apoio da Câmara Municipal de Viseu — não pode parar.

Todos esperam e todos queremos um Académico de Primeira Liga. Não por uma época, mas por muitas, muitas épocas.

Porque o Académico não é apenas uma equipa.

É uma cidade.

É uma região.

É uma identidade.

É a força das Beiras.

Depeço me com uma célebre expressão de incentivo de um Beirão distinto que tive a honra de ter a meu lado em muitos momentos de celebração e de conquista, mas também de desalento e de tristeza pelo peso de algumas derrotas. Mas nas longas jornadas que passamos, recordo-o sobretudo no auge dos momentos de máxima disputa… o Sr josé da Silva, que levou as Beiras para a capital, tal como muitos levam aos quatro cantos do mundo, com voz firme dizia «Coragem professor! Lembre se que quando um Beirão quer, até a terra treme..»

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