Este Benfica faz sentido. Gonçalo Paciência também
Não há melhor indicador para testar o quão saudável é um balneário: quando os jogadores menos utilizados usam cada oportunidade como se daqueles minutos dependessem as suas carreiras. Isso traduz competitividade interna, mas fundamentalmente uma mentalidade vencedora transversal que nem sempre é possível observar em todos os plantéis, mais ainda em grupos compostos por gente muito bem paga, cujo elevado salário é proporcional aos egos e expectativas individuais.
A forma como o Benfica controlou, dominou e venceu o jogo da primeira jornada da fase de liga da Liga Europa frente ao Milan, em San Siro, com nove alterações no onze e todos, sem exceção, a revelarem uma determinação de excelência, é a prova que talvez faltava para exibir o que Marco Silva trouxe aos encarnados: não é apenas um treinador que pôs todas as peças no sítio, mas aquele que tem sido capaz, até agora, de convencer cada jogador da importância das suas funções, de como joga e quanto tempo joga.
Pode parecer pouco. Para muitos, isto é o que deveriam fazer todos os técnicos de uma equipa grande, mas basta fazer um exercício de memória para perceber que no Benfica esta não tem sido a realidade nos últimos anos. Por maior ou menor culpa dos que sucederam a Roger Schmidt, o último treinador campeão pelas águias, há sinais evidentes de que a diferença de Marco Silva para os antecessores residiu, também, na total sintonia com a SAD na redefinição cirúrgica do plantel. Seja na escolha dos jogadores mas também na afirmação de um estatuto que não permite desvios ao que foi traçado pelo próprio, o mesmo quer dizer que com ele não parece haver margem para reforços que não entrem no que ele pretende para cada lugar. Tem a autoridade que terá faltado a outros, mas também seguramente a capacidade de antecipar valências e mais valias - na gíria, tem olho.
Ao exigir que Lukebakio não saísse quando teve possibilidades de fazê-lo e ao defender Kaminski antes e depois da melhor exibição do internacional polaco, em Milão, mostram bem como o treinador se impôs internamente, no que deve ser visto como uma evolução, confirmando o que há muito se dizia mal se soube que seria ele o escolhido para substituir José Mourinho - o treinador certo no momento certo das águias.
Ainda é cedo para antecipar seja o que for, mas começa a ser por demais evidente que este Benfica faz sentido. E há muito tempo que uma ideia tão básica não saltava tanto à vista. Não há extremos a mais e laterais a menos, os jogadores da formação têm lugar nas opções principais sem ser à força ou de forma simbólica e até decisões que há seis meses seriam consideradas estranhas são hoje vistas como normais: a adaptação de Rafa ao lado direito do ataque e a troca de guarda-redes. Os resultados estão aí: o internacional português tem sido fundamental e ninguém questiona o seu posicionamento (com as óbvias nuances de não ser um puro extremo); Samuel Soares tem justificado a escolha e Trubin, quando regressou, pareceu estar melhor do que estava antes de ir para o banco.
A pergunta que agora muitos colocam é se este Benfica tem a capacidade técnica, tática e física para se impor ao FC Porto e em pleno Estádio do Dragão. Na última vez que as duas equipas se defrontaram no campeonato naquele palco assistimos a um respeito enorme de parte a parte que redundou num dos clássicos mais defensivos deste século. Pelo que já se viu, Marco Silva tem outra forma de pensar, mas também a astúcia de pôr a sua equipa a explorar o erro do adversário. Analisando os dois conjuntos de forma isolada, o Benfica tem um jogo mais fluido e imprevisível, o FC Porto é uma máquina a defender, letal nas bolas paradas e quando leva o jogo para um lado mais físico raramente o perde. Mas há muito tempo que não andava no ar a ideia de que os encarnados se apresentam no campo do grande rival dos últimos 40 anos com um estofo de quem sabe muito bem o que quer e que se impõe ao adversário, seja ele qual for. Porque, a bem da verdade, quando se retira a fisicalidade aos azuis e brancos, não se espreme dali muito sumo futebolístico.
Jorge Jesus estreia-se hoje nas convocatórias da Seleção Nacional e como sempre acontece com qualquer novo selecionador há uma expectativa sobre o que de novo pode trazer. Não há dúvidas quanto à forma de jogar (será diferente), já quanto à chamada de caras novas veremos se não opta por uma perspetiva mais conservadora.
Creio que uma das maiores dúvidas residirá na possibilidade de chamar mais um ponta de lança para ir preparando o adeus de Cristiano Ronaldo e competir com Gonçalo Ramos para a posição 9 - partindo do princípio de que o sucessor de Roberto Martínez olha para João Félix como um segundo avançado.
De entre as opções à vista saltam três a quatro nomes: André Silva (de regresso a um grande do futebol português), Fábio Silva (nem sempre titular no Dortmund), Gonçalo Paciência e Paulinho, goleadores de Santa Clara e Toluca (México), respetivamente. Cada um tem as suas características, mas não ficaria surpreendido se a escolha recaísse em Gonçalo Paciência.
Porque de todos os jogadores deste curto lote, é o único que parece nunca ter atingido máximo das suas capacidades. E sabemos que Jesus gosta de potenciar o que outros não conseguiram. Do ponto de vista do futebolista puro, o avançado dos açorianos é muito mais dotado do que a concorrência: fortíssimo no jogo aéreo, refinado com os dois pés, forte nos duelos. Em suma: um avançado completo. A sua carreira é mesmo um caso de estudo: tinha tudo para ser um ponta de lança de elite. Aos 32 anos, já não terá assim tanto tempo para responder às altas expectativas, mas às vezes o futebol tem boas surpresas, desde que os astros se alinhem e o contexto seja o adequado. Mas se não for agora e com JJ, certamente que nunca o será.