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Bacalhau com natas em Miami: o refúgio onde Neemias mata saudades de Portugal
MIAMI — O sonho americano tem destas coisas. Um jovem sai do Vale da Amoreira, cruza o Atlântico com o rótulo de pioneiro e transforma-se num dos grandes nomes a pisar as quadras míticas da NBA. Mas a fama, os dólares e o convívio diário com os deuses do basquetebol mundial não apagam as raízes. Quando o corpo de 2,13 metros de Neemias Queta clama por um aconchego que nenhuma cadeia de fast food ou restaurante de luxo de South Beach consegue dar, o destino é apenas um: o restaurante Old Lisbon, em Miami.
É nesta embaixada da gastronomia lusitana, que completa uns históricos 35 anos de existência em novembro, que o poste português encontra o seu porto de abrigo predileto. Um bastião consolidado como um dos mais antigos restaurantes portugueses de toda a Flórida, onde o menu do gigante, sempre que os seus Celtics vão jogar a Miami, nunca varia: bacalhau com natas.
Quem comanda as operações na cozinha com mão de ferro e coração de ouro é o Chef Executivo Carlos Abreu. E a sua própria rota até Miami daria uma crónica de aventuras.
«Eu era militar na Armada portuguesa e, há cerca de 15 anos, retirei-me. Pensei: com 45 anos, o que é que eu vou fazer na minha vida? Entretanto, eu vinha de férias muito aqui a Miami e, uma vez, passei aqui à porta e vi um restaurante português, e decidi. Contactei o dono e ao fim de sete meses tinha visto para trabalhar aqui no Old Lisbon», recorda.
O quartel-general mudou do Estado-Maior da Marinha para os fogões da Flórida, mas a disciplina manteve-se intocável: «Ganhei experiência de trabalhar totalmente diferente na Marinha, diferente daquela que é necessária em restaurantes, mas adaptei-me bem, sempre me adaptei bem.»
Na ementa, os sabores de Portugal são uma religião. «É o polvo, é o bacalhau, temos pastéis de bacalhau, temos chouriço, tentamos trazer tudo de Portugal, azeite, tentamos trazer os produtos todos. Deslocamo-nos todos os anos a Portugal para fazer as compras e temos importadores próprios que trazem produtos portugueses. Fazemos questão disso», atira Carlos Abreu, seguro.
Essa dedicação atrai a comunidade lusa, mas é o público norte-americano que fica rendido ao método tradicional. «Adoram a comida porque há um conceito que nos Estados Unidos existe de que as coisas já são muito pré-preparadas. Então nós temos esse conceito de prepararmos tudo. Damo-nos sempre ao trabalho de descascar a cebola, descascar o alho, descascar a batata. E os americanos adoram o nosso tipo de cozinha. Gostamos de incutir o bacalhau, mas surpreendentemente eles adoram comer sardinhas, por exemplo. Às vezes eu vejo aqui alguns americanos a pegarem numa fatia de pão e meterem a sardinha e eu digo: 'sim, estiveste em Portugal já'. Muitos americanos que foram de férias a Portugal, depois vêm aqui, querem voltar a saborear os nossos sabores», continua.
O espaço é paragem obrigatória para as grandes figuras que visitam a cidade, e o desporto nacional bate sempre à porta. Um deles é um dos nossos maiores embaixadores nos EUA… «Famosos do desporto português a virem cá? Olha, Temos o Neemias, que vem aqui quando vem jogar a Miami. Vem a Tisha Penicheiro, também. O que é que o Neemias costuma pedir? Gosta de bacalhau com natas. Gosta muito de bacalhau com natas», confessa o Chef com um enorme sorriso.
Agora, com a Seleção Nacional de futebol instalada mesmo ali ao lado, em Palm Beach, o orgulho de Carlos Abreu sobe de tom. «Para nós portugueses é um grande orgulho termos a Seleção portuguesa cá. Como, no ano passado, por exemplo, tivemos o Benfica que esteve aqui muito perto. Óbvio que nós gostaríamos de receber alguns jogadores com as famílias, porque nós temos mais dois restaurantes. Para nós ia ser muito gratificante, porque depois das pessoas estarem aqui três, quatro, cinco dias, sempre sabe bem vir comer uma comida portuguesa e é óbvio que estão todos convidados.»
A febre do Mundial já mexe com as ruas, impulsionada pelo escaldante Portugal-Colômbia que se vai disputar em Miami no dia 27 e que encerra a fase de grupos. No Old Lisbon, o ambiente promete ferver.
«Neste momento é o jogo com mais expectativa desde que saiu o sorteio. Foi logo a loucura, principalmente porque há muitos colombianos em Miami. Foi a maior das loucuras saber que nós íamos jogar com a Colômbia. Porque no fundo vai ser uma rivalidade muito grande. Aliás, foi o jogo mais procurado, mais vendido», recorda.
«Toda a gente nos diz que Portugal é a melhor equipa do Mundial»
Quanto às hipóteses da armada lusa erguer o troféu no final do torneio, o timoneiro da cozinha não esconde a ambição, embalado pelo favoritismo que os próprios estrangeiros nos atribuem na Flórida.
«Vamos passo a passo. Eu tenho esperança. De todas as pessoas que vivem em Miami e com as quais eu lido, e são muitas nacionalidades, toda a gente diz que nós temos a melhor equipa. No fundo, temos quase como uma obrigação de ganhar o Mundial porque todas as pessoas, venezuelanos, cubanos, americanos, estão a dizer que nós temos a melhor equipa do Mundial. Temos essa obrigação.» As cartas estão na mesa, o bacalhau está no forno e a fé do Chef é inabalável: «Vai dar Portugal!»
Concluíndo e voltando ao português da NBA, Neemias Queta encontrou em Miami mais do que um restaurante; encontrou um reduto que lhe alimenta o corpo e a mente. Com a Seleção já na Flórida, a rota está bem traçada.
Cristiano Ronaldo e companhia já estão fixados em Palm Beach, mas se quiserem perceber como se sobrevive à mística americana sem perder o norte, basta perguntarem ao gigante do basquetebol. O caminho para a glória também se faz com sabor a casa.
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