Arbitragem: golpe de Estado ou simples cobardia?
Chegou a hora de os árbitros se assumirem. Depois das críticas de Pedro Proença, através de áudios publicados nas redes sociais, nada pode ficar como antes no setor. Mesmo que as declarações tenham mais de dois anos e sejam excertos de conversas privadas, o que foi dito pelo então presidente da Liga e atual líder da FPF obriga a uma resposta. Urgente.
Pedro Proença estava então em campanha para a presidência da Federação, reunindo-se com os mais diversos clubes para abordar os temas mais quentes, a arbitragem e a disciplina, e as gravações, obviamente, foram obtidas de forma ilegal. Os áudios são curtos e não estão contextualizados. Percebe-se porquê. Quem os colocou na Internet tinha um único objetivo: fragilizar Pedro Proença.
Curioso é que o atual presidente da FPF estava cheio de razão quando o tema foi a arbitragem. «Os árbitros são fracos, são todos muito fracos. E tu consegues ter três, quatro gajos minimamente competentes... (...) o Artur [Soares Dias], o [João] Pinheiro, metes o tipo do Algarve [Nuno Almeida], e depois metes ali o [Luís] Godinho ou uma coisa qualquer assim... O resto é tudo muito fraco», disse Proença e eu concordo em pleno.
O pior para a arbitragem portuguesa é que Artur Soares Dias e Nuno Almeida já terminaram a carreira, pelo que o leque se reduz a… dois. Isto porque ninguém diferenciado entretanto chegou à primeira categoria. De resto, a nomeação para a Supertaça Cândido Oliveira é elucidativa: André Narciso. O 21.º classificado da época transata, isto numa lista de… 24!
Deselegância com José Fontelas Gomes, então presidente do Conselho de Arbitragem e atual vice-presidente da FPF, à parte e sem entrar no tema dos processos judiciais do Benfica, que são outro tema, o que Pedro Proença disse é grave e obriga os árbitros a pronunciarem-se. Não através de comunicado, como se apressou a fazer a APAF, mas dando a cara.
Sou do tempo em que os árbitros fizeram greve, não de zelo, como no ano passado, mas a recusarem-se mesmo a arbitrar, obrigando a encontrar um voluntário na bancada. A última vez foi em 2011, com todos os juízes solidários com João Ferreira, o nomeado para o Beira-Mar-Sporting, que pediu escusa por falta de condições psicológicas, face às críticas dos leões. Posição legítima, sem dúvida. E agora?
Algo se prepara no seio da arbitragem, até porque ainda está por explicar o que levou à demissão de Duarte Gomes do cargo de Diretor Técnico Nacional de arbitragem, em colisão com o presidente do Conselho de Arbitragem, Luciano Gonçalves. As suspeitas de ingerência nas nomeações para jogos da Liga estão nas mãos do Ministério Público e também neste particular nem uma… palavra.
Pedro Proença tem de explicar-se, obviamente, mas a arbitragem não pode continuar muda, tem de sair da toca. Seja através de Luciano Gonçalves, seja através de José Borges, o líder da APAF. Algo de grave se passa no seio de um setor que ganhou fama e também proveito de corporativista, mas que agora surge dividido.
Todos exigimos respostas, até para se evitarem especulações. Neste momento, tanto admito que se esteja a preparar um golpe de Estado como aceito que o silêncio se deva a simples cobardia...