«Não vêm, pelo menos, cá fora acenar?»: a noite em que Palm Beach viu só o autocarro de Portugal a passar

Seleção já está recolhida no Four Seasons e, agora sim, as 48 equipas nacionais já estão na América. Uma centena de adeptos, muitos deles colombianos, esperou horas para ver apenas vultos nos vidros

PALM BEACH — Passavam poucos minutos das 20 horas na Flórida — já madrugada em Lisboa — quando o silêncio artificial e exclusivo que habitualmente envolve as imediações do Four Seasons Resort Palm Beach foi finalmente quebrado. Sob escolta policial digna de um chefe de Estado e com os pirilampos das autoridades a rasgarem a penumbra da noite, o autocarro que transportava a comitiva da Seleção Nacional cruzou os portões daquela que será a sua casa durante, pelo menos, a fase de grupos do Mundial.

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Portugal está oficialmente instalado no seu quartel-general americano. Mas, se dentro de portas, Roberto Martínez e os seus rapazes encontraram o conforto e o isolamento programados pela Federação Portuguesa de Futebol, no exterior o cenário foi de um agridoce tipicamente português, misturado com uma forte dose de sotaque sul-americano e o ataque cerrado da fauna da Flórida.

Já o sol se despedira do dia — hora em que as melgas invadem sem piedade o ambiente sufocante, quente e húmido de Palm Beach — quando o motor do grande veículo se desligou. Cerca de uma centena de adeptos aguardava ansiosamente junto às barreiras de segurança montadas pela polícia no exterior. Havia bandeiras nacionais, camisolas vermelhas e verdes e aquela fé inabalável de quem vive longe da pátria. 

Mas, para surpresa de quem fazia a guarda de honra no asfalto, a falange de apoio lusa dividia o espaço com uma forte e ruidosa presença de adeptos colombianos, porém vestidos… com as cores de Portugal — e pensar que Miami vai acolher o escaldante Portugal-Colômbia no próximo dia 27…

Num protocolo de segurança ultrarígido, o autocarro seguiu diretamente para a zona interior. Um a um, os jogadores e a equipa técnica foram saindo. O selecionador Roberto Martínez chegou sorridente, contrastando com a rigidez do momento. 

Dos jogadores, o veloz Pedro Neto foi o primeiro a pisar o chão da Flórida, secundado por Gonçalo Ramos. Seguiram-se Vitinha e, logo atrás, junto de Bruno Fernandes, surgiu o jovem João Neves, que quebrou momentaneamente o gelo ao acenar às dezenas de jornalistas presentes. Passaram depois João Félix e Rafael Leão, antes de Diogo Costa e Rúben Dias surgirem com um rosto visivelmente mais sério e focado.

Por fim, fechando o desfile de estrelas, apareceu Cristiano Ronaldo: confiante, com um ligeiro sorriso no rosto e um aceno prolongado direcionado à comunicação social.

A distância intransponível fez com que a multidão cá fora apenas conseguisse vislumbrar o autocarro e algumas silhuetas indistintas. «Nâo vêm pelo menos cá fora acenar, pelo esforço que fizemos em estar aqui?», desabafava uma portuguesa desiludida, após ter conduzido mais de 150 quilómetros apenas para ver as cores nacionais. Os adeptos dividiam-se entre a alegria de saber que a Seleção já está aqui pertinho deles e a profunda tristeza de não terem conseguido estar mais próximos dos seus grandes ídolos. No olhar de todos, contudo, morava a mesma esperança: que Portugal só volte a casa a 19 de julho, com o tão desejado caneco na bagagem. 

Para já, a hora é de descansar e recuperar as forças depois de uma desgastante viagem de quase 10 horas. Este sábado começa a preparação a sério para a estreia no Mundial diante da RD Congo, agendada para dia 17, em Houston.. O primeiro treino oficial em solo norte-americano será aberto, agendado para as 18h45 locais (23h45 em Lisboa), e contará com cerca de 200 portugueses nas bancadas a empurrar a equipa. A caravana já rola em Palm Beach. E, com a chegada de Portugal, já todas as seleções estão no Mundial!

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