Excelência procura excelência
Durante muitos anos, a aquisição de clubes esteve associada sobretudo a empresários locais, adeptos apaixonados ou investidores que procuravam notoriedade. Esse paradigma mudou e com ele, quem investe procura outro tipo de aquisição.
Hoje coexistem vários modelos de investimento. O mais conhecido é o Multi-Club Ownership, com os grupos como o City Football Group, a Red Bull, a BlueCo ou a Eagle Football, que procuram criar sinergias entre vários clubes através de uma estratégia comum de scouting, desenvolvimento de talento, tecnologia e gestão.
Existem outros modelos e talvez o mais usual seja mesmo o Private Equity. Nestes casos, o objetivo é adquirir um clube ou uma participação, aumentar o seu valor através da melhoria da gestão e da performance e, posteriormente, vender esse ativo com o maior retorno financeiro possível. O clube passa a ser visto prioritariamente como um investimento e temos vários casos em que os clubes vão passando de uns donos para outros.
Há ainda holdings operacionais, Family Offices e investidores estratégicos que olham para o desporto como uma plataforma de negócio, integrando clubes, academias, media, tecnologia, merchandising, eventos ou entretenimento. Independentemente do modelo, existe uma realidade que veio para ficar, o nível de exigência aumentou de modo considerável.
Os investidores deixaram de ser apenas pessoas ligadas ao futebol. Encontramos hoje fundos que investem simultaneamente em clubes da NBA, NFL ou Fórmula 1, famílias como os Pozzo (Udinese e Watford) e empresas tecnológicas que aplicam no desporto os mesmos critérios de análise utilizados noutras indústrias ou áreas da economia.
Por outro lado, o processo de aquisição tornou-se mais sofisticado. Os potenciais investidores exigem mais e melhor informação financeira, modelos de governance, indicadores de performance, estratégia desportiva, qualidade das academias, estrutura organizacional, planos de desenvolvimento e processos internos robustos. O gabinete dos clubes terá de aproximar-se cada vez mais da exigência e do dia-a-dia do mundo empresarial.
E do que se vai vendo, esta evolução colocará uma maior exigência sobre dirigentes e administrações em termos das suas capacidades. Muitos clubes continuam a serem geridos com modelos de gestão pouco sofisticada e do outro lado, o perfil dos investidores evolui rapidamente.
Ao mesmo tempo, o próprio conceito de ativo desportivo ou de ativo no desporto mudou. Já não se compra apenas um clube, tenta-se ver mais além. Compra-se uma marca, uma comunidade de adeptos, direitos comerciais, uma cultura organizacional, propriedade intelectual, capacidade de gerar conteúdo e potencial de crescimento internacional.
Grupos como a RedBird Capital, a Arctos Sports Partners ou a BlueCo demonstram que o desporto passou definitivamente a integrar as carteiras de investimento de longo prazo e por vezes, até com objetivos de deixar um legado. Esta transformação obrigará a elevar o nível da gestão desportiva e a pior parte é que alguns dirigentes acreditam que esta mudança ainda está para chegar, quando na realidade, já começou há vários anos.
Quem investe procura excelência e sabe que encontrar organizações bem estruturadas é difícil num ecossistema com muitas zonas cinzentas entre o associativismo e as SAD’s. Em sentido inverso, muitos clubes incapazes de gerar riqueza procuram desesperadamente investidores, mesmo que não o afirmem. Clubes que usam os mesmos procedimentos há décadas, num dos setores de negócio que mais muda e a uma velocidade impressionante.
Não significa isto que os clubes desaparecerão. Tal como diria Darwin, é provável que se assista a uma espécie de seleção natural dos clubes melhor preparados. E tal como acontece em qualquer mercado competitivo, sobreviverão aqueles que conseguirem adaptar-se melhor e mais rapidamente e nas mais variadas áreas que hoje compõem um clube.
Talvez por isso, assumo que sou daqueles que defende que deveríamos falar muito mais sobre os casos de má gestão e esmiuçar as razões, torná-las públicas. Não para expor pessoas, embora existem denominadores comuns, mas para aprender com as más práticas.
Como adeptos, continuamos a ser muito menos tolerantes e muito exigentes aos erros técnicos dos atletas, enquanto anos de decisões de gestão pouco competentes são facilmente esquecidos por um golo ou uma bola que bate na trave e entra.
A verdadeira vantagem competitiva já não está apenas no talento dentro das quatro linhas, é para esquecer essa ideia. O que conta cada vez mais e permite que esse talento dentro do campo valha mais, é a qualidade da liderança, da estrutura e da gestão. É aí que se decidirá uma parte crescente do sucesso das organizações desportivas, ter as pessoas certas nos lugares certos. E quem compra quem perceber cada vez mais que tipo de cultura vai encontrar ou se será possível criar a sua.