Nos Estados Unidos é mesmo tudo à grande! - Foto: IMAGO
Nos Estados Unidos é mesmo tudo à grande! - Foto: IMAGO

Viver na terra do XL

Route 66 é o espaço diário de opinião de João Pimpim, jornalista e enviado-especial de A BOLA aos Estados Unidos para o Campeonato do Mundo

PALM BEACH — Aterra-se nos Estados Unidos com a ilusão de que o cinema exagera. Duas horas depois de circular pelas avenidas da Florida, a caminho do quartel-general de Portugal, percebe-se que Hollywood é, afinal, um retrato minimalista. Por aqui, a moderação é um conceito europeu sem visto de entrada. Tudo, absolutamente tudo, é desenhado à escala do impensável.

Se na Europa conduzimos carros, aqui os locais tripulam autênticos couraçados de asfalto; as pick-ups normais têm o tamanho de camiões e as motas que rugem junto aos semáforos parecem naves espaciais sobre duas rodas.

É o triunfo do gigantismo norte-americano, uma filosofia de vida onde o tamanho não é apenas um detalhe, mas sim uma declaração de poder.

Esta cultura do excesso estende-se ao prato com uma violência calórica desconcertante. Entrar num restaurante em Palm Beach para pedir um almoço rápido é receber uma bandeja que alimentaria uma equipa de futebol americano da Florida.

As doses são monumentais, os bifes parecem desafiar as leis da física e as bebidas — mesmo o mais inocente café ou refrigerante em tamanho pequeno — chegam à mesa em baldes de plástico que obrigam a usar as duas mãos.

Há um orgulho indisfarçável nesta estética do XL, uma obsessão pelo desperdício que choca o recém-chegado e fascina o cronista.

Até a forma como os americanos comunicam segue esta bitola hiperbólica. Não há conversas em surdina; tudo é projetado com uma expressividade ruidosa, um entusiasmo sonoro onde cada banalidade do quotidiano é saudada como se fosse a descoberta da pólvora.

É neste cenário de proporções bíblicas que a nossa Seleção Nacional vai ter de se movimentar nas próximas semanas. Portugal, um país moldado no detalhe e na contenção, terá de saber manter a identidade no meio deste turbilhão onde o ego e as porções competem pelo mesmo espaço.

Para vencer na América, os comandados de Roberto Martínez não precisam de engolir doses XL, mas vão ter de jogar à escala deste país: gigantes. Vai dar Portugal!

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