As emoções de Sérgio Conceição

Sem emoções, nunca tomaríamos decisões! E vejam a curiosidade contida nesta afirmação

Oatual treinador profissional de futebol do FC Porto, Sérgio Conceição, é frequentemente motivo de notícias na rádio, nos jornais e na televisão, centradas nas suas já famosas expressões emotivas. As últimas, após uma vitória em casa com o Santa Clara, ganharam mesmo uma dimensão algo exaustiva. «Então, ganhou e está zangado?» 

Pois, pensando e intervindo como um treinador designo isso como a exigência da melhoria contínua! Não melhorar, significa pura e simplesmente piorar!

Ao longo dos séculos, primeiro a ciência, em seguida a neurociência e também de modo permanente a reflexão filosófica, ajudaram-nos imenso a compreender o comportamento humano. Por exemplo, ao procurar investigar recentemente a nível filosófico o porquê de alguns dos comportamentos de jogadores, equipas, clubes e quadros e equipas de empresas com que trabalhei, uma das conclusões foi que há muito da sabedoria de uma corporeidade pessoal a operar silenciosamente sob cada uma das nossas ações, gestos ou decisões. No fundo, que o nosso comportamento começa por nos acontecer de modo perfeitamente inconsciente. 

Segundo o filósofo francês Merleau-Ponty, somos organismos biológicos dotados de estruturas fisiológicas, que vivemos totalmente inseridos no meio ambiente envolvente como seres ativos cujas necessidades justificam os respetivos comportamentos.
 
Através do nosso comportamento, buscamos assim sentido e significado em tudo o que nos envolve. Para Merleau-Ponty, a nossa perceção de tudo o que nos envolve significa uma experiência e uma relação humana em que o corpo fenomenal convive e experimenta tudo o que o rodeia. 

«Abrimo-nos» para a realidade envolvente através da nossa experiência percetiva; e somos um corpo vivido, próprio, que através dessa perceção estabelece relações e vive experiências diversas. No fundo, o nosso comportamento é continuadamente uma experiência e uma relação. 

Perante a enorme complexidade contida na realidade social com que vamos convivendo, sabemos hoje que se só contássemos com a razão, dificilmente tomaríamos qualquer tipo de decisão. Ou seja, sem emoções, nunca tomaríamos decisões! E vejam a curiosidade contida nesta afirmação. 
 

Conceição «não teme tomar decisões»

FREQUENTEMENTE, alguns dos elogios dirigidos a Sérgio Conceição são precisamente que «decide rápido», «não teme tomar decisões», «entusiasma e mobiliza os jogadores com a sua frontalidade». Conclusão, as emoções expressas por Sérgio Conceição não o têm prejudicado, bem pelo contrário, ajudam-no a ter o impacto pretendido nos jogadores e equipas que lidera.

Mas, afinal, o que são as emoções? Segundo António Damásio, no seu mais recente livro Sentir e Saber (Círculo de Leitores, 2020), são um conjunto de ações involuntárias internas, como sejam, contração dos músculos lisos, alteração do ritmo cardíaco, respiração, secreções hormonais, etc., e externas a nível de expressão facial e corporal, postura, etc., provocadas por estímulos externos reais ou recordados.
 
Para este autor, as emoções permitem-nos reagir a ameaças com medo ou raiva, ou dar a conhecer um sucesso com manifestações de alegria, ou serem uma referência inspiradora para o tipo de reações que pretendemos provocar naqueles a quem nos dirigimos.

AS emoções são assim uma parte integrante da nossa mente cognitiva e participam de forma integral no processo de tomada de decisão. Por exemplo, as nossas emoções de medo e ansiedade são, em simultâneo, profundamente bloqueadoras do nosso comportamento, mas também fatores importantes a favor da nossa luta pela sobrevivência. 

Urge assim valorizar aqui tudo o que se refere às vantagens contidas em não termos receio de expressar as nossas emoções. Naturalmente, enquanto as vamos expressando, habituamo-nos a conviver com elas e aprendemos a utilizá-las ao serviço dos objetivos comuns pretendidos. 

Quanto ao mito de procurar congelar emoções, ou pior ainda, procurar não ter emoções (como se tal fosse possível!), deixem-se disso! Um organismo inteligente sem emoções não evoluiria e seria muito menos inteligente.
 
Aliás, só sobrevivemos enquanto espécie, porque gerimos bem as nossas emoções ao longo da nossa evolução, em tudo o que respeita aos processos de tomada de decisão relacionados com fugir, esconder, lutar, estar alerta, controlar o medo e a ansiedade ou expressar alegrias e celebrar sucessos; mas não só, pois também só as emoções nos permitiram ativar uma fundamental capacidade metafórica e criativa, através de uma permanente complementaridade e inter-relação entre a razão e a emoção. 

Tanto a felicidade, como a infelicidade ou outras emoções básicas (ira, medo, surpresa, repugnância), afloram no seu carácter primário e, ainda em maior medida, quando são monopólio de um grupo. Por vezes, inclusive, as emoções dos grupos (coletivas), através da sua enorme influência viral substituem as dos indivíduos.

ESTÁ, hoje, por demais reconhecido que a nossa mente se relaciona com o significado dos acontecimentos, aprendendo a observar (a ver os outros) através de um sistema de perceção visual que nos permite ver, acima de tudo, o que estamos à espera de ver. 

Daí que tenhamos necessidade de recuperar a capacidade de diferenciar os pormenores do conjunto global e, principalmente, saber identificar e ver o que não estamos acostumados a ver.
 
O diferente quase sempre nos surpreende e, aqui e ali, provoca-nos algum desconforto emocional. Tendemos, assim, para resistir à mudança e à novidade, sendo que, como já o dissemos, em grupo ganha maior dimensão o carácter aleatório da interpretação do que nos envolve. 

Ao longo da nossa evolução, durante muito tempo, não havia futuro e a felicidade era uma questão deixada para depois da morte, dependendo dos deuses. 

Com a revolução científica e filosófica e o prolongar da esperança de vida, colocou-se de forma clara a questão da felicidade, aqui e agora. O que significa que foi emergindo a necessidade da viagem para a felicidade. 

Como estado emocional, a ciência e a filosofia foram descobrindo, nessa mesma felicidade, duas fontes principais, o prazer e o sentido (objetivo) que se dá à vida. Para que a felicidade perdure para além de um simples instante, é preciso que não seja só fruto de prazer, mas que também dê à nossa vida um significado e seja um compromisso assumido. 
 

JÁ muitos de nós, hoje em dia, situam, aliás, a felicidade para além dos bens materiais e colocam-na a um nível de uma escala de valores intangíveis, atitudes e comportamentos vinculados à manutenção da espécie humana em condições sustentáveis. Razão porque nunca me canso de citar o filósofo José Ortega y Gasset quando afirmou que «o destino de cada homem é ao mesmo tempo o seu maior prazer.» E todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino, isto é, quando segue a encosta da sua inclinação e da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está a ser o que é na verdade. (O que é a Filosofia?, Edições Cotovia).

E o curioso é que muitos autores defendem que a antevisão (a espera) da felicidade (o respetivo circuito de busca) é muitas vezes mais forte (tem mais impacto). O que significa que temos, assim, com alguma frequência, mais prazer na busca da felicidade que, propriamente, na respetiva concretização do ato propriamente dito. 

A felicidade é um instinto básico de profunda natureza emocional que, tal como a infelicidade, tem enormes efeitos sobre o nosso organismo e equilíbrio mental. Ser feliz, ou infeliz, não depende só exclusivamente de fatores externos. A maioria das pessoas não se deprime perante a infelicidade. Muitos superam-se, crescem na adversidade. Mas a depressão é, em paralelo, uma das maiores causas da incapacidade dos seres humanos. Tal como o grau de interação e a criação de redes sociais foram sempre uma das formas de sobrevivência das espécies.
 
Na história da evolução da humanidade verificou-se sempre mais colaboração que confronto pela sobrevivência. Os índices de felicidade aumentam assim em função do maior grau de participação individual dos cidadãos na vida social e em grupo. Vivemos em função dos outros, procuramos intuir o que pensam, o que querem, gostamos (precisamos) de conviver. 

CITANDO de novo António Damásio, (Sentir e Saber, Círculo de Leitores, 2020, pags. 261 e seguintes), a poderosa mente humana teria contado com a ajuda de capacidades notáveis de aprendizagem e de memorização bem como de extraordinárias capacidades de raciocínio, decisão e criação, completadas pelas linguagem verbal e matemática.
 
Assim, equipados os seres humanos, teriam conseguido passar, em tempo recorde, de seres simples para seres que sentem e sabem.

Aqui chegado, perguntará o leitor, «então e quanto às emoções do Sérgio Conceição, em que ficamos?»

Recuperando o que escrevi em 2015 no livro As emoções e os Sentimentos também se treinam?, devemos concluir que sim, que se treinam! Treinando (o mais possível!) como se joga, recebendo coaching enquanto experimentamos e refletindo de forma continuada acerca dos resultados entretanto alcançados.