«Arte e futebol de mãos dadas para que não se perca essência»
No coração de um bairro de Vialonga, às portas de Lisboa, nasceu uma obra de arte urbana pelas latas de spray de Ivo Santos, mais conhecido por Smile, um dos maiores desafios já feitos em Portugal. Habituado a murais em grande escala na vertical, esta foi a primeira obra que realizou na horizontal.
Um campo de futebol, com grande simbolismo, não só por dar palco a meninos carregados de sonhos, como um ponto de encontro. Foi lá que Rossi começou a delinear os passos que vieram a originar a criação da banda Wet Bed Gang, em conjunto com Pizzy e Tiago Ramalho.
Em 2014, Rossi, que rimava sob o nome de 'La Bella Máfia', morreu, aos 28 anos, de forma súbita e trágica, mas o legado teve continuidade. Os Wet Bed Gang são um dos maiores e mais influentes grupos de rap e hip hop com reconhecimento nacional e internacional, acumulando milhões de reproduções em plataformas digitais.
«Foi o trabalho que exigiu a minha resiliência ao máximo, que testou toda a minha capacidade física e de técnica. Falamos de um espaço que tem quase 1200 metros quadrados, em que a maior dificuldade foi andar de joelhos, com joelheiras. Fiquei sem costas [risos]. O primeiro desafio foi logo esse, ter de pintar na horizontal é totalmente diferente do que pintar na vertical. A minha técnica é pintar com spray, as latas são feitas para trabalhar na vertical, têm uma palhinha dentro e quando chegava a meio, a pintar na horizontal, já não apanhava muita tinta, começava a falhar, então tinha de estar sempre a endireitar a lata, pulverizar um bocadinho para o lado, para voltar a pintar. Então o processo foi muito, muito, muito demorado. Este trabalho costuma ser feito a pincel, mas não é a minha técnica, faço a spray, até porque o meu estilo é fotorrealismo», começa por contar a A BOLA.
As quatro estações
Inicialmente, Ivo Santos tinha previsto gastar duas semanas neste trabalho, mas São Pedro trocou-lhe as voltas... «Apanhei ali as quatro estações do ano [risos]. Em outubro esteve muito calor, a tinta secava rápido demais, depois em novembro vieram as chuvas e ainda por cima um sismo na zona de Alenquer. Tenho fotografias em que estou a pintar de casaco, gola e gorro e noutras de mangas à cava e calções. Cheguei a uma parte do trabalho em que pensava mesmo que não ia conseguir. Houve dias em que chegava e o piso estava molhado, tinha de escoar a água com um rodo e usar um soprador de folhas», recorda.
Outra dificuldade que contou a A BOLA foi a de controlar os miúdos. «Ainda bem que por lá andavam, algo que já é raro nesta geração, mas eles chegavam eu ainda estava a pintar, ficavam à espera que eu saísse, pedia-lhes para não pisarem o que tinha acabado de fazer, mas no dia a seguir aquilo estava cheio de pegadas e eu tinha de retocar, mais tempo perdido.»
Território e identidade
O entusiasmo com que fala sobre o propósito desta tela a céu aberto, que liga arte, território e identidade, é esclarecedora. «Foi ali que o Rossi e outros tiveram um sonho que se cumpriu. É um espaço onde não se joga só à bola, é ponto de encontro de meninos que sonham ser alguma coisa, jogadores, médicos, seja o que for. Esta requalificação do espaço é a arte e o futebol de mãos dadas para que não se perca essência, para sonharem e se sentirem bem, além de, claro, homenagear o Rossi. Que ali se festejem aniversários, se mantenha o espírito do futebol de rua e que celebrem conquistas uns dos outros.»
«Ter uma pintura no Estádio José Alvalade seria concretizar sonho»
Ivo Santos tem agora dois projetos em mãos: quatro murais espalhados por Algueirão (Sintra) e também está a pintar a Casa da Baía, em Setúbal, mas, tal como os meninos que sonham no campo de Vialonga, também tem um sonho para cumprir: «Ter uma pintura minha no Estádio José Alvalade.»
«Sou sportinguista desde que me conheço. Há um episódio engraçado, tinha os meus 14/15 anos e havia uma iniciativa da Coca-Cola em que se juntavam tampas e trocavam-se por bilhetes. Eu e um amigo corríamos todos os cafés para juntar tampas e depois íamos para a Nave de Alvalade, às 6 ou 7 da manhã no dia de jogo para conseguir um bilhete. Uma vez estávamos na fila e um rapaz convidou-nos para ir para o relvado, mas tínhamos de ajudar a colocar umas tarjas, era da Torcida Verde. Vi eles a fazerem a pintura nas telas e aquilo mexeu comigo. E, sim, era uma das coisas que gostava, ter uma pintura em Alvalade, seria motivo de orgulho. Fiz uma pintura para Manuel Fernandes, essa grande lenda do Sporting, que a recebeu em vida», revela.
Campo de futebol num bairro de Vialonga foi alvo de requalificação que serve de homenagem a João Rossi, que viu um sonho tornado realidade. Ivo Santos, artista de rua, orgulhoso por ter concluído um projeto de magnitude