Há uma casa no Minho em que o elevador só serve para subir
Bernardo subiu, com o Leça, do Campeonato de Portugal para a Liga 3. Hugo Xavier subiu, com o Maria da Fonte, do primeiro escalão da AF Braga para o Campeonato de Portugal. Dinis Rodrigues subiu, com o Forjães, do segundo para o primeiro escalão da mesma distrital. André Ducher subiu, com o Figueiredo, do terceiro para o segundo escalão da referida associação de futebol. A curiosidade? Os protagonistas deste dominó são todos da mesma família e, por isso, «no jantar de domingo, não se fala de outra coisa», revela, em entrevista A BOLA, Hugo Xavier.
O treinador do Maria da Fonte, campeão da AF Braga, detalha, ao nosso jornal, a ligação entre os nomes supramencionados, bem como as respetivas conquistas e funções: «Além de eu ter sido campeão e subido de divisão, o meu pai Dinis também treina e conseguiu subir, com o Forjães. O meu cunhado André, que é marido da minha irmã, treina o Figueiredo, também foi campeão e subiu à divisão de honra. E ainda tenho o meu sobrinho Bernardo a jogar no Leça, que subiu à Liga 3 e ainda pode ser campeão do Campeonato de Portugal.»
No entanto, o caricato (e belo) sobre as subidas desta família não fica por aqui... Hugo Xavier logrou-a quando se cumprem 20 anos desde que o seu pai, Dinis Rodrigues, levou o emblema mariafontista à sua conquista mais histórica. «Sinto-me feliz pelo meu filho e pelo clube, porque faz 20 anos que subi à segunda divisão B [equivalente à atual Liga 3] e fui campeão da terceira divisão nacional, precisamente no dia em que ele subiu ao Campeonato de Portugal e foi campeão da AF Braga», revela, com emoção, o mais graúdo, ao nosso jornal.
«É especial, foi um ano fantástico para toda a gente, para mim, que subi uma equipa pela nona vez, para o meu genro que também subiu e para o namorado da minha neta também subiu no Leça... Foi um ano em grande!», enaltece Dinis Rodrigues, de 69 anos, que é uma lenda do clube, que cumpre 101 anos no dia 13 de julho.
Centenário perfeito na Póvoa?
O Maria da Fonte, fundado em 1925, vive uma época de sonho. Foi campeão distrital, depois de uma luta acesa com o Pevidém até à última jornada, joga hoje a final da Taça dos Campeões Minho, diante do Ponte da Barca (o campeão de Viana do Castelo), e está ainda na disputa da Taça da AF Braga, que não vence há 47 anos.
«Está a ser um ano de ouro», afirma, ao nosso jornal, o presidente dos lanhosenses, Paulo Flávio, que avisa, todavia, que a meta principal ainda não foi alcançada. «Ganhar a Taça da AF Braga é o nosso primeiro e principal objetivo, porque é um troféu que não ganhamos há quase 50 anos», explica.
«A subida de divisão nunca foi exigida de forma direta», confirma o mister Hugo Xavier, «mas claro que, se o objetivo é vencer todos os jogos, automaticamente, a consequência era subir de divisão».
«Este foi um momento alto na história do Maria da Fonte e ficámos muito contentes porque foi em ano de centenário. O clube fez cem anos e foi uma prenda bonita ser campeão e ir para o Campeonato de Portugal», acrescenta o treinador, recordando o momento em que, no final de tanta luta, abraçou o pai, num gesto que «valeu mais do que qualquer palavra». «Este emblema diz-me muito, desde a minha infância. O meu pai foi aqui jogador e eu lembro-me de o acompanhar para o ver jogar. Depois o meu pai foi treinador do clube, e eu lembro-me de o acompanhar para ver os jogos. Sou sócio, não sou da Póvoa, mas considero ter muito daquilo que é ser povoense», refere.
Campeão aos 18 e 38 (com pai e filho)
Se o tema é o Maria da Fonte, a A BOLA não podia deixar de falar com Rui Abreu - capitão (e lenda) dos mariafontistas, que tem mais de 25 anos de casa. «Tenho um sentimento incrível por isto. Sofro demais. É verdade que cada um sente à sua maneira, mas eu sinto de uma forma muito especial. É e será sempre o meu clube. Passaram oito presidentes por mim, centenas de jogadores, dezenas de diretores e eu tenho uma lealdade ao clube que ultrapassa o resto», confessa, com emoção.
Esta foi a terceira vez que o avançado promove o emblema do seu coração: «Em 2005/06, subi da antiga terceira nacional à segunda B, atual Liga 3. Depois fui campeão da Pro Nacional em 2017/2018, o mesmo título deste ano. Agora foi a cereja no topo do bolo. Foi muito, muito difícil. Há dois anos que morríamos na praia e ficávamos em segundo lugar… Mas agora caiu para nós!»
Rui Abreu foi campeão com Dinis Rodrigues, quando tinha 18 anos, e agora, que tem 38, fê-lo com Hugo Xavier. «Atenção, eles [pai e filho] são de gerações completamente diferentes, mas não têm assim tantas diferenças», começa por dizer o experiente jogador. «É verdade que, há 20 anos, o futebol era muito diferente do que é agora. Porém, eles têm uma coisa muito em comum: a liderança», acrescenta, enaltecendo a postura «muito suave e amiga do jogador» dos dois treinadores, que «valorizam a parte humana».
«Na altura do Dinis Rodrigues, sentia que estávamos todos no mesmo barco. Neste ano, o mister Hugo Xavier também conseguiu unir toda a gente. Um dos grandes trunfos do mister é que, quer joguemos muito ou pouco tempo, também estamos todos para o mesmo. Eu, sendo o capitão, percebia que a malta estava toda ligada e isso é muito importante num campeonato de 36 jornadas», repara o atleta nascido na Póvoa de Lanhoso.
Quem sabia, de antemão, das características especiais dos treinadores daquela família era, naturalmente, o presidente Paulo Flávio: «Escolhi o mister Hugo, porque o conheço há muito tempo e eu sabia que ele ia devolver a alma que o Maria da Fonte tinha perdido há alguns anos. O mister Hugo não é de cá da Póvoa, mas é como se fosse. É filho do Dinis. Nasceu e cresceu a acompanhar a história do Maria da Fonte.»
«Ele tinha o pai dele aqui, como eu tinha o meu, e eu sei que ele sente o clube como alguém que é daqui da Póvoa de Lanhoso», acrescenta o dirigente.