Reportagem de A BOLA encontra família portuguesa que está a percorrer os Estados Unidos de carro

De carro pelos EUA com o pai: o filho que se demitiu para ver Portugal no Mundial

Jorge Franco segue as Quinas desde o Euro-1996 e o filho, herdeiro da mística, não hesitou em largar o emprego na Holanda quando lhe recusaram as férias para estar no Campeonato do Mundo

HOUSTON — O amor à pátria não se explica, mede-se pela audácia dos atos. No turbilhão de emoções que engole os corredores do Estádio de Houston, duas figuras destacam-se pela cor que carregam na pele e na alma. Jorge Franco, fita de Portugal amarrada à testa e bochechas pintadas de verde e vermelho, segura nos ombros o seu maior orgulho: o filho.

Eles não são apenas dois adeptos na multidão; são guardiões de uma herança sagrada que cruza gerações e que encontrou no asfalto americano o seu mais recente capítulo de devoção absoluta à Seleção Nacional.

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Para Jorge, esta caminhada começou quando o futebol europeu ainda se desenhava com contornos analógicos. «Já ando nisto desde 1996. Ou seja, faz agora 30 anos que ando atrás da Seleção», confessa com a voz rouca pelo esforço das bancadas. Não há Europeu, Mundial ou Liga das Nações que escape ao seu radar. Ele é um ícone vivo da diáspora, uma bússola humana que persegue um sonho antigo. 

«Eu venho aqui à procura de um sonho e trouxe o meu herdeiro para viver comigo o mesmo. Espero que sejamos campeões do Mundo, porque ele já viveu o sermos campeões da Europa há dez anos», recorda, com indisfarçável nostalgia.

O herdeiro de que fala com tanto fervor não lhe fica atrás na loucura. Quando a paixão pelo País bate forte, as amarras do quotidiano quebram-se sem hesitação. O jovem, que vive a sua segunda grande experiência num Mundial após a estreia no Catar em 2022, protagonizou a maior prova de amor desta comitiva lusa no Texas. Questionado sobre a sua jornada, o semblante abre-se num sorriso cúmplice que denuncia a audácia do gesto.

«Eu estava a trabalhar na Holanda. Não me quiseram dar as férias e um gajo... o amor lusitano é maior e vim para a América apoiar a nossa Seleção», revela a A BOLA, encolhendo os ombros como quem descreve a decisão mais natural do mundo. Abdicar da estabilidade profissional na Europa por um bilhete de avião rumo ao desconhecido é o preço a pagar por quem tem o peito blindado a vermelho e verde. «Espero que seja até ao final. E a ver o Cristiano Ronaldo a erguer aquela taça», projeta.

A aventura americana, contudo, exige uma resistência física e logística digna de atletas. Se em competições anteriores as distâncias eram mais curtas, a imensidão dos Estados Unidos obriga a planos audazes. Jorge Franco tira do bolso um pequeno porta-chaves com uma réplica do troféu que consagra o campeão do Mundo e sorri. 

Jorge Franco é figura mítica entre os adeptos da Seleção - Foto: IMAGO

«Diz-se que é complicado, mas não é nada. Vai tudo resolver-se. Agora a Seleção é que tem de fazer aquilo que a gente quer. De cidade para cidade, vamos andar de carro. Agora vamos sair de Houston para Miami e vamos de carro», explica o pai, imperturbável perante as milhares de milhas que os esperam nas autoestradas americanas.

Para estes dois navegadores do asfalto, o cansaço é um mito urbano que se desvanece sempre que o hino ecoa. «Quando se corre por gosto, não se cansa. E a bandeira ultrapassa as dificuldades todas», remata Jorge, antes de se unir ao filho num grito ensurdecedor que faz tremer as estruturas de Houston e ecoa como um aviso até Nova Jérsia: «Força, Portugal! À vitória!».

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