França perdeu com a Espanha por 0-2 e viu fugir o sonho com o título mundial - FOTO: IMAGO
França perdeu com a Espanha por 0-2 e viu fugir o sonho com o título mundial - FOTO: IMAGO

Vou ser claro: o jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares não faz sentido no futebol de seleções. Defendo que deve desaparecer. É uma incoerência competitiva.

Durante quatro anos, jogadores, treinadores e federações trabalham com um único objetivo: serem campeões do mundo. Nunca ouvi um treinador iniciar um estágio a dizer que a meta é conquistar a medalha de bronze. Nunca vi uma federação definir o terceiro lugar como objetivo estratégico. Simplesmente porque não o é.

No entanto, quando duas seleções perdem as meias-finais, espera-se que, em apenas três dias, mudem completamente o estado emocional e encontrem motivação para disputar um objetivo que nunca existiu. Isso não é gestão emocional. É uma ilusão.

Podemos falar de profissionalismo, respeito pela camisola e compromisso competitivo. Tudo isso faz parte da responsabilidade de representar uma seleção nacional. Mas não confundamos dever profissional com motivação genuína.

Quem perde uma meia-final do Campeonato do Mundo não está a pensar na medalha de bronze. Está a pensar na final que deixou escapar. É irreal acreditar que, em tão pouco tempo, um treinador consegue reconstruir emocionalmente um grupo para transformar a maior desilusão da competição num novo grande objetivo.

Nunca passei por essa situação. Felizmente, na Taça das Nações Africanas vencemos a África do Sul nas meias-finais e chegámos à final. Mas recordo-me perfeitamente de que uma das grandes motivações era precisamente evitar este jogo. Porque ninguém sonha disputar uma consolação. Sonha disputar o título.

O futebol moderno gosta de criar narrativas para tudo. Também criou uma para este encontro. Diz-se que o terceiro lugar é prestigiante, que fica para a história, que merece ser celebrado.

Não concordo.

O terceiro lugar não é um objetivo. É a consequência de uma derrota na meia-final. E transformar essa consequência numa conquista parece-me uma forma de suavizar aquilo que o desporto de alto rendimento nunca prometeu: conforto para quem falhou o principal objetivo.

Se queremos preservar a essência competitiva do Campeonato do Mundo, então devemos assumir uma ideia simples: o Mundial termina na final.

As duas seleções derrotadas nas meias-finais já demonstraram que pertencem à elite do futebol mundial. Não precisam de disputar mais noventa minutos para decidir quem perdeu menos.

A minha proposta é simples: eliminar o jogo de atribuição do terceiro lugar e reconhecer ambas como semifinalistas do Campeonato do Mundo. nem todas as derrotas precisam de uma medalha. Algumas precisam apenas de ser aceites.

Porque, no fim, nenhum jogador inicia um Mundial a sonhar ser terceiro. Todos começam exatamente com o mesmo sonho: levantar a Taça do Mundo.

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