Jogo para a história - Foto: IMAGO
Jogo para a história - Foto: IMAGO

A liberdade e o caos do jogo que ninguém queria... que acabasse (crónica)

Inglaterra e França protagonizaram um festival de golos, oportunidades perdidas... e erros inacreditáveis. A jogar sem pressão, sobressaíram os fantasistas

O jogo que ninguém queria jogar foi, muito provavelmente, o melhor do Mundial-2026. Do festival na primeira parte ao caos final, a Inglaterra garantiu o terceiro lugar no Mundial em jogo de hóquei na relva (6-4) contra a França de um só homem, na despedida do timoneiro.

Ambos os treinadores efetuaram sete alterações nos respetivos onzes em relação às desilusões nas meias-finais, mas apenas uma equipa subiu ao relvado de Miami. A Inglaterra, embalaçada por lançadores (Rogers, Eze, Rice) e exploradores (Rashford, Saka e Spence) fez história em movimento na primeira parte.

Declan Rice, de braçadeira de capitão no braço, abriu a contagem aos 3' com uma jogade de classe mundial. Intercetou um passe de Doué, galgou metros e rematou em arco rumo à felicidade. O médio do Arsenal calou os críticos com um golaço e um passe com açúcar para Konsa ampliar a vantagem (27'). Era o dia da Inglaterra.

Mbappé e Cherki obrigaram Henderson a um par de defesas, no meio do deserto de ideias francesas. Cada ataque abria, ainda assim, clareiras que o adversário aproveitou com facilidade. Saka aproveitou um adiatamento inexplicável dos dez jogadores de campo gauleses, isolou Rashford com uma prenda em forma de abertura... e desembrulhou-a (37').

Em cima do intervalo, o extremo do Arsenal desenhou o reflexo da expressão tudo fácil. Com dois passes verticais, a Inglaterra transportou a bola do defesa central até à grande área adversária... e ao bis de Saka (45+1'). 4-0 em cima do intervalo.

A verticalidade inglesa desmontou uma França em plena crise de identidade que estava a ser humilhada. Didier Deschamps tinha o antídoto da passividade no banco... e no relvado. O selecionador gaulês, no último jogo no comando técnico, colocou Upamecano, Barcelola, Dembélé e Digne ao intervalo, Olise passou para o meio a tempo inteiro e acabou com a humilhação. Mbappé precisou de apenas três minutos para mostrar ao que vinha. 1-4.

Mais descaído pela esquerda, o farol gaulês iluminou o caminho do segundo para Barcola com uma abertura de genio (54'). O carrossel francês trocava a volta aos adversários... e aos próprios executantes que acumularam oportunidades falhas. Quem não sabe falhar? Kylian Mbappé.

O capitão dos bleus recebeu mais um passe musical de Olise, atirou a contar e cimentou o lugar no olimpo dos golos marcados (66'). Mbappé sai do Mundial no quarto lugar, mas como o melhor marcador do Mundial-2026... e da história da prova. Já são 22 golos em 22 jogos. Tem a palavra Lionel Messi.

Olise estava endiabrado a assistir, mas completamente descalibrado a rematar. O volume de oportunidades perdidas não fazia jus ao nível de criação por metro quadrado que abençoava Miami.

As substituições de Thomas Tuchel tranquilizaram a Inglaterra que só não foi feliz aos 81' pois Bellingham, com toda a calma do Mundo, só não conseguiu adormecer. Ainda.

Olise, segundos depois, seguiu o exemplo de um possível futuro companheiro de equipa e surpreendeu tudo e todos com a dicotomia que o acompanhou ao longo do Mundial: assistir é mais fácil do que marcar.

A Inglaterra estava encostada as cordas, mas disparou nas asas do patinho feito. Spence cimentou uma exibição de luxo com mais uma arrancada fenomenal travada dentro da grande área por Malo Gusto. Bukayo Saka, de penálti, assinou o hat-trick, espantou fantasmas com seis anos e selou o bronze inglês aos 87'. Este pensamento durou nove minutos.

Dembélé queria prolongar o caos e, embalado, por mais uma boa recuperação de Upamecano devolveu a indefinição ao jogo a um minuto e meio do apito final. O caos reinava em Miami até que Bellingham, com pezinhos de lã, aproveitou o adiantamento gaulês, combinou com Watkins e deu o golpe final em cima dos 90+8'.

A Inglaterra deixou a goleada escapar entre os dedos, mas garantiu a segunda melhor classificação da história dos Mundiais. Já a França, limpou a imagem na segunda parte na despedida de uma das figuras eternas da seleção.

A emoção dominou Didier Deschamps no último de 186 jogos ao serviço da seleção. A prenda do adeus após 14 anos? Um dos jogos mais entusiasmantes da história recente da prova.

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