Adeptos utilizam o telemóvel em vários momentos durante as partidas - Foto: IMAGO

À medida que o Campeonato do Mundo se aproxima do fim, dei por mim a pensar numa ideia aparentemente contraditória: nunca tivemos tanto futebol à nossa frente. E, paradoxalmente, talvez nunca o tenhamos visto tão pouco.

Há dias fiz a mim próprio uma pergunta estranha. Passei noventa minutos em frente a um jogo de futebol. Mas quantos desses noventa minutos passei verdadeiramente a vê-lo? À primeira vista, a pergunta parece absurda. Claro que vi o jogo. Vi os golos. As oportunidades. As substituições. As decisões do árbitro. Até a publicidade das pausas para hidratação. No final, até sabia as estatísticas. A posse de bola. Os remates. As defesas dos guarda-redes. Os cantos das duas equipas. Os quilómetros percorridos. Os mapas de calor. Mas, quanto mais pensava nisso, mais percebia que talvez tivesse visto apenas aquilo que todos viram. E quase nada daquilo que realmente aconteceu.

Hoje já não vemos apenas futebol. Comentamos futebol. Publicamos futebol. Discutimos futebol. Recortamos futebol. Apostamos futebol. Transformamo-lo em vídeos de quinze segundos — às vezes, menos. Vivemos o jogo em direto, mas muitas vezes deixamos de o observar. Há quem esteja no estádio e olhe mais para o telemóvel do que para o relvado. Há quem publique uma opinião antes de compreender o lance. Há quem critique uma substituição antes de perceber o seu efeito. E há até quem deixe de ver o jogo quando o seu ídolo sai de campo. O caso de Cristiano Ronaldo é particularmente revelador. Segundo um estudo, quando foi substituído no Portugal-Croácia, quase metade dos telespectadores deixaram de acompanhar a partida.

Talvez esse dado diga muito sobre o tempo em que vivemos. Para muitos, o jogo já não é o jogo. É o protagonista. É o momento. É o recorte. É aquilo que cabe no ecrã do telemóvel.

Nunca tivemos tanto acesso ao futebol. Nunca tivemos tanta dificuldade em contemplá-lo. Um jogo continua a durar noventa minutos, mas para milhões de pessoas resume-se ao momento que o algoritmo escolhe. O golo. O erro. A polémica. O meme. O resto desaparece.

Talvez seja por isso que tantos saíram deste Mundial convencidos de que viram tudo, quando, na verdade, viram sobretudo aquilo que as redes sociais decidiram mostrar-lhes.

Ver futebol nunca foi apenas olhar para a bola. É olhar para quem não a tem. Para o lateral que dá largura. Para o médio que fecha uma linha de passe. Para o central que corrige uma cobertura. Para o avançado que arrasta um defesa sem tocar na bola. Para o guarda-redes que orienta a equipa inteira antes de fazer uma defesa. O futebol vive tanto do que acontece como daquilo que está prestes a acontecer. E isso exige tempo. Atenção. Paciência. Tudo aquilo que o mundo moderno parece ter dificuldade em oferecer.

Talvez o exemplo mais evidente desta transformação tenha acontecido neste Campeonato do Mundo. Pela primeira vez, assistimos à introdução de duas pausas obrigatórias para hidratação em todos os jogos. Oficialmente, a medida foi justificada pelas elevadas temperaturas. Mas estas interrupções acabaram também por criar novos momentos de exposição televisiva e comercial, aproximando ainda mais o futebol do modelo dos grandes desportos norte-americanos, onde cada pausa representa uma oportunidade. Dentro das quatro linhas, o efeito também foi evidente. Muitos treinadores passaram a usar esses minutos como autênticas pausas técnicas. Reorganizam posicionamentos, corrigem comportamentos, ajustam a pressão, mudam a estratégia.

É um sinal dos tempos. O futebol continua a ser o mesmo jogo. Mas a forma como o consumimos, interrompemos, analisamos e vendemos está a mudar rapidamente. Durante décadas, o futebol foi uma experiência coletiva. Hoje, tornou-se também uma sucessão de estímulos individuais. Cada adepto vê o seu próprio jogo. Um segue as estatísticas. Outro acompanha os comentários no X. Outro espera pelo vídeo viral. Outro vê apenas o lance polémico. No fim, todos dizem que viram o mesmo jogo. Mas talvez já quase ninguém tenha visto exatamente a mesma coisa.

O futebol habituou-nos a discutir resultados. Mas deveríamos discutir também a nossa forma de olhar. Porque há beleza que não cabe num resumo. Há inteligência que não aparece num clip. Há movimentos que não se tornam virais. Há jogadores que fazem grandes jogos sem protagonizarem um único momento viral. 

Estamos a ganhar acesso. Estamos a ganhar informação. Estamos a ganhar velocidade. Mas estamos a perder profundidade. O futebol não precisa apenas de melhores jogadores, melhores treinadores ou melhores árbitros. Precisa também de melhores observadores. Gente capaz de ver para lá do golo. Para lá do erro. Para lá do escândalo. Para lá do ruído.

Enquanto continuarmos apenas à espera do próximo momento viral, estaremos sempre a ver muito pouco do jogo mais bonito do mundo.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

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