Aos 41 anos, Maria Sousa procura viver novos desafios e evoluir

Aos 41 anos e com autismo, não desiste do futebol: «É preciso mais inclusão»

Uma veterana, uma jovem promessa e duas histórias completamente diferentes. O Estágio da Jogadora voltou a reunir futebolistas de vários percursos e A BOLA conversou com Maria Sousa e Mariana Chibante sobre sonhos, oportunidades e o caminho que ainda querem percorrer

Entre a persistência de quem nunca desistiu e o sonho de quem procura chegar ao topo, o Estágio da Jogadora voltou a abrir portas a dezenas de futebolistas. A BOLA acompanhou o arranque da segunda edição da iniciativa promovida pelo Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol e falou com duas participantes de gerações distintas: Maria Sousa, de 41 anos, e Mariana Chibante, de 18, unidas pela mesma paixão pelo futebol.

A história de Maria Sousa começou longe de Portugal. Iniciou-se no futebol em Espanha e, quando regressou, há cerca de duas décadas, encontrou um panorama completamente diferente. Sem muitas equipas femininas, foi obrigada a passar pelo futsal antes de representar o Ponte Frielas. Mais tarde afastou-se da modalidade, regressando recentemente para jogar na AREPA, no Porto Alto. Mas houve outro motivo que a levou até Odivelas.

«Já tinha participado num treino de captação no Sacavenense com a Carla Couto e adorei a experiência. Quando soube deste estágio, pensei logo que, se fosse com ela, queria muito participar. Quando cheguei aqui e percebi que ia ser a Carla a treinadora, fiquei muito feliz. É um sonho para mim.»

Além da oportunidade de voltar a treinar com uma das maiores figuras da história do futebol feminino português, espera continuar a evoluir e encontrar novos desafios. «Quero aprender, acima de tudo, mas quem sabe se este estágio não pode abrir portas, até para outros clubes ou até para a Liga. O mais importante é aprender, estar disponível e manter-me em forma. É através deste tipo de experiências que evoluímos.»

Não é por ter 40 ou 50 anos que tenho de deixar de jogar à bola. Não é por as pessoas terem uma determinada idade que devem deixar de fazer aquilo que gostam

A guarda-redes, diagnosticada com autismo, recordou que nem sempre encontrou compreensão ao longo do percurso e afirmou que a inclusão continua a ser um desafio no futebol feminino. «Tentei jogar num clube de Santarém e não me senti integrada. Sendo autista, muitas vezes as pessoas não compreendem determinados comportamentos. Aqui vi que existe uma aposta na inclusão e é necessário que os clubes tenham essa compreensão.»

Um episódio em particular continua bem presente na memória. «Uma colega disse-me: 'Tu és autista e eu sou disléxica.' Ela não tinha percebido um comportamento meu e, a partir daí, comecei a sentir-me afastada do grupo. Isso fez-me isolar algumas vezes. Por isso, o mais importante numa equipa é que todas as pessoas se sintam incluídas.»

«Não é por ter 40 ou 50 anos que tenho de deixar de jogar à bola. Em Portugal, até temos o exemplo do Cristiano Ronaldo, que tem a minha idade. Não é por as pessoas terem uma determinada idade que devem deixar de fazer aquilo que gostam.»

Estágio da Jogadora voltou para a segunda edição. Foto: SJPF

«O que marca esta iniciativa são as pessoas»

Se Maria representa a persistência, Mariana Chibante simboliza a ambição de quem está a dar os primeiros passos. A jovem de 18 anos participa pela segunda vez no Estágio da Jogadora, depois de ter iniciado o percurso no futsal, no Futebol Benfica, onde jogava apenas com rapazes, antes de representar a AD Pastéis durante cinco temporadas. Agora, acredita que chegou a altura de procurar um novo desafio.

Mariana Chibante participa pela segunda vez na iniciativa. Foto: A BOLA

«O objetivo para este estágio é manter a minha forma física e, se der, vou fazer por isso, conseguir chegar à Liga», admitiu.

A experiência vivida na primeira edição foi suficiente para regressar este ano. «O que marca esta iniciativa são as pessoas, porque tiveram um carinho enorme connosco, tanto a equipa técnica como as jogadoras mais velhas, que têm muita experiência. Deram-nos muito e nós aprendemos muito com elas.»

Quanto ao futuro, a meta passa por continuar ligada ao futebol, dentro ou fora das quatro linhas. «Pretendo conseguir seguir a carreira de jogadora, mas, se não for possível, quero tirar o curso de treinadora.»

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