O futebol feminino já não pede espaço — está a ocupá-lo!!
Durante anos, o futebol feminino na Europa viveu num paradoxo curioso: crescia todos os dias, mas parecia sempre estar à espera de reconhecimento. Como se ainda tivesse de justificar a sua existência.
Hoje, essa fase acabou.
O futebol feminino já não pede espaço. Está, simplesmente, a ocupá-lo.
Os números ajudam a perceber isso, mas não contam toda a história: mais de um milhão de jogadoras registadas na Europa, crescimento constante, mais ligas, mais treinadoras e treinadores, mais investimento. Tudo isso é relevante, mas o mais importante é outra coisa: pela primeira vez há uma estrutura real, há continuidade, já começou a ter mercado e isso muda tudo.
Neste momento o futebol feminino é um produto.
Como em quase tudo no futebol, há um detalhe que faz a diferença: nem todos estão a crescer ao mesmo ritmo.
Olhar para o mapa europeu do futebol feminino é olhar para uma Europa a duas velocidades.
De um lado, países como Inglaterra, Alemanha, França ou Espanha, onde o futebol feminino deixou de ser um projeto e passou a ser um produto competitivo, mediático e financeiramente relevante. Do outro, uma série de países onde o crescimento existe, mas ainda vive longe das condições necessárias para dar o salto.
E aqui está o ponto central: o crescimento do futebol feminino não depende apenas do talento, nunca dependeu.
Depende de investimento, de visão estratégica e, acima de tudo, de compromisso.
Inglaterra é o exemplo mais evidente. O sucesso da seleção não apareceu por acaso, foi construído com liga forte, exposição mediática e uma ideia clara de desenvolvimento.
A Espanha seguiu um caminho semelhante, muito impulsionado pelos clubes, a França e Alemanha já tinham bases sólidas há décadas.
Já nos países nórdicos, o futebol feminino sempre fez parte da cultura desportiva (já treinei jogadoras desta região e são muito disciplinadas e competitivas).
Ou seja, não há milagres.
Há decisões que têm de ser tomadas no timing certo e depois há outro fator, muitas vezes ignorado: o público.
Durante anos, disse-se que o futebol feminino precisava de mais visibilidade, hoje, a realidade é outra.
Quando há qualidade, competição, quando há contexto, as pessoas aparecem.
Vemos cada vez mais estádios cheios, existindo interesse real (os jogos da nossa seleção têm cada vez mais assistência) neste produto.
O futebol feminino deixou de ser visto como uma versão alternativa.
Está a tornar-se, cada vez mais, uma opção principal (é um motor para milhares de jovens verem o futebol, não como inacessível, mas como um caminho possível para ser felizes, a/o praticante precisa de ser feliz no dia a dia, seja no treino ou no jogo).
O crescimento acelerado pode acentuar desigualdades, aqui pode residir um maior risco, se os países que já estão na frente continuam a investir e os outros não acompanham, o fosso vai aumentar. E isso não é apenas um problema competitivo, é um problema estrutural para o futuro do jogo.
Porque o verdadeiro desafio do futebol feminino europeu não é crescer, isso já está a acontecer, o desafio passa por crescer de forma equilibrada e sustentável.
Se o investimento continuar concentrado, se as oportunidades não forem distribuídas, vamos ter um futebol feminino forte, mas limitado a poucos contextos.
Isso seria um erro, numa fase em que o potencial é claramente global (a globalização também está presente no futebol feminino).
Há poucos momentos no desporto em que se sente que algo está a mudar de forma irreversível. O futebol feminino europeu está exatamente nesse ponto.
Já não é uma promessa. Já não é um projeto.
É uma realidade em construção, rápida, visível e impossível de ignorar.
Hoje, o futebol feminino europeu está a crescer a uma velocidade impressionante, mas esse crescimento não está a acontecer de forma igual.
Vou dar um exemplo de uma realidade que conheço bem.
Talvez seja nos países como Letónia, Lituânia e Estónia que se percebe melhor o verdadeiro desafio do futuro.
Não é fazer o futebol feminino crescer, é garantir que cresce para todos.
As federações têm um papel fundamental para ajudar os clubes e as jogadoras, dar-lhes condições para exercerem o seu papel ativo no futebol feminino.
As jovens praticantes, as jogadoras que jogam em todos os níveis, são o mais importante no futebol.Podemos criar uma melhor sociedade e principalmente melhorar a individualidade com valores que só o desporto lhes consegue passar por tudo aquilo que representa.
Uma das questões que deixo: quem vai acompanhar este crescimento e quem vai ficar para trás?
O futebol é para todos, é um fenómeno global.