André Villas-Boas, presidente, e Diogo Costa, capitão, dois dos rostos do atual FC Porto - Foto: Imago
André Villas-Boas, presidente, e Diogo Costa, capitão, dois dos rostos do atual FC Porto - Foto: Imago

Para onde fores, é o Norte

'A Minha Tribo' é o espaço de opinião em A BOLA de Jorge Nuno Oliveira, jornalista e adepto do FC Porto

O ano 3 da nova era do FC Porto começou. Do zero, como disse André Villas-Boas.

Mas não é bem assim.

O FC Porto parte com algumas vantagens sobre os seus adversários. Tem uma equipa de jogadores forte e estabilizada, tem uma equipa técnica sólida e coesa, tem uma estrutura profissional focada nos objetivos, tem recursos e meios comparáveis aos de qualquer clube de topo mundial. E tem algo mais que os outros não têm: a mística do Dragão.

Um jogador à Porto não é apenas um profissional de futebol. É um jogador que incarna os valores da combatividade, da superação, da excelência e da ambição.

Um jogador à Porto só admite a vitória como resultado do seu esforço.

Por isso somos diferentes, por isso nos orientamos pelas bússolas que apontam o Norte como a rota do sucesso, do brilho e do trabalho árduo.

Começamos do zero apenas no caminho que temos de percorrer. Mas levamos connosco uma imensidão maravilhosa de sonhos e ambições. Transportamos as vozes e as preces de milhares de adeptos que olham para o relvado e não veem só uma equipa. Veem as suas próprias aspirações, as suas necessidades de conquista e a corporização, pintada de azul e branco, de uma região que salta o Mundo.

O perfume do Dragão

O doce perfume do Dragão atravessou este Mundial. Vários jogadores que jogam ou jogaram no FC Porto deixaram a sua inconfundível marca de qualidade. Começo pelo número 1, o nosso capitão, que foi unanimemente considerado o melhor jogador da Seleção Portuguesa. É uma sensação agridoce. É bom ver um jogador como Diogo Costa ser considerado o melhor de todos. Mas é (foi) preocupante que o nosso melhor jogador seja o guarda-redes. Sinal de que as coisas não correram nada bem para a Seleção e que, se não fosse o guarda-redes, o resultado teria sido ainda mais catastrófico.

Mas para um portista como eu, é um orgulho ver o nosso Diogo Costa fazer defesas impossíveis nos maiores palcos do futebol mundial.

Outro portista haveria de vestir a capa de herói neste Mundial. Eustáquio, um jogador inteligente e criativo, teve uma influência decisiva em todos os jogos que disputou. Mas nenhum lance se compara ao golo que marcou ao cair do pano contra a África do Sul e que colocou o Canadá nos oitavos de final. Um grande golo de um jogador que se distingue pelas capacidades de liderança e pela excelência tática.

Vitinha e Diogo Dalot são — a par de Diogo Costa — homens da formação do FC Porto. Vitinha, que ainda há pouco tempo se sagrou bicampeão europeu, teve um Mundial abaixo das suas prodigiosas capacidades, por culpa de um sistema tático e um modelo de jogo que nunca ninguém chegou a perceber muito bem o que era.

Diogo Dalot foi pouco utilizado, mas mostrou em campo as qualidades que fazem dele um dos melhores laterais do Mundo. Foi pena não ter jogado mais tempo…

Destaco, por fim, três colombianos que brilharam no Dragão: James Rodríguez, Luis Díaz e Quintero. James e Díaz foram indiscutíveis e decisivos. James, apesar dos seus 34 anos, mostrou uma qualidade muito acima da média e teve uma influência preponderante na campanha da Colômbia.

Luis Díaz foi… Luis Díaz. Genial, imprevisível e letal. Os portistas lembram-se dele muito bem.

Quintero foi o menos utilizado deste trio, mas mostrou que ainda joga muito futebol. Três colombianos que ficaram na história do FC Porto. Juntos, conquistaram 14 títulos no Dragão. Um deles, foi uma Liga Europa.

Temos campeão!

Confesso que estava muito desconfiado deste Mundial. 48 equipas parecia-me um exagero. Eram equipas a mais e futebol a menos. Enganei-me. Apesar das vigarices, trafulhices e corrupções várias, este tem sido um bom Mundial. As pequenas equipas, que de outra forma não teriam tido oportunidade de disputar um campeonato do Mundo, foram à América do Norte mostrar que o futebol existe muito para além dos milhões das transferências, das comissões dos agentes e das corrupções dos presidentes.

Que grandes jogos vimos entre Golias favoritos e Davides cheios de garra e de entusiasmo! Grandes jogos vimos nós neste Mundial. Mas nenhuma outra seleção mostrou mais ao Mundo o valor do futebol puro, ousado e sofrido como a de Cabo Verde.

Os tubarões azuis atravessaram o Atlântico Norte para jogar à bola. Surpreenderam pelo atrevimento e pela forma descontraída como jogaram. Foram ambiciosos, foram lutadores, mereceram tudo o que conquistaram. Tudo! Seja quem for que leve a Taça, o campeão deste Mundial de 2026 é a seleção que conquistou corações, que jogou sem medo de perder e que honrou os princípios mais nobres do futebol.

Por favor, abram alas para Cabo Verde.

A despedida merecida

Cristiano Ronaldo merece uma despedida grandiosa, que faça jus à sua também grandiosa carreira. Algo semelhante a uma farewell tour de dimensão mundial.

Modestamente, aqui deixo uma sugestão.

A Seleção, liderada pelo capitão, viajaria até Cabo Verde, até ao Brasil e, por fim, até à Argentina, para um derradeiro duelo de gigantes. A apoteose final seria em Portugal, contra um misto de grandes estrelas planetárias.

As receitas seriam encaminhadas, na totalidade, para instituições dedicadas a tratar e salvar crianças e bebés com cancro.

Seria uma despedida extraordinária, com milhões de pessoas em todo o mundo a renderem homenagem a um dos mais prodigiosos futebolistas de todos os tempos.

À atenção da Federação Portuguesa de Futebol.

Que grandes cromos!

O Mundial está a acabar, mas ainda vou a tempo de recomendar um inesperado e espetacular regresso ao passado: a caderneta de cromos da Panini, que ressuscitou coisas que julgávamos perdidas. Quem diria que era possível colecionar uma caderneta de 980 cromos —980! — de papel, comprar saquetas de papel, colar cromos de papel numa caderneta de papel, trocar cromos repetidos por cromos em falta em locais onde se concentravam dezenas ou centenas de pessoas de carne e osso, em contacto físico presencial. Quem diria! A Panini sacou um genial coelho da cartola ao pôr milhões de pessoas em todo o mundo a comprarem e colecionarem coisas com dimensão física, real e palpável.

O Mundial está a acabar, mas esta febre dos cromos ainda vai perdurar muito para além da final de domingo.

Tudo graças a um surpreendente regresso ao passado possível.

Obrigado.

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