Seleção portuguesa feminina é vice-campeã do mundo

Ana Catarina: de jogar à bola no quarto até ao topo do Mundo

Guarda-redes da seleção de futsal feminina, vice-campeã do Mundo, esteve em A BOLA para mostrar Luvas de Ouro de melhor guarda-redes da competição. Aos 33 anos, já tem quatro escolhas para melhor do mundo...

Ana Catarina recebeu o prémio Luvas de Ouro por ter sido eleita a melhor guarda-redes do Mundial de futsal feminino, no qual Portugal apenas foi travado pelo Brasil na final. Mais um prémio, que se junta às quatro eleições para melhor guarda-redes do Mundo. Diz, a brincar, que está a uma distinção de Ronaldo e a duas de Ricardinho. E quem a conhece sabe que quer lá chegar.

- O que é que o troféu Luvas de Ouro, para o qual deve olhar muitas vezes, representa para si?
- É a validação de toda uma carreira e de todo um esforço. Demonstra o quanto consegui ajudar a fazer parte deste percurso tão bonito que tivemos no Campeonato do Mundo. Obviamente que o trocava pela medalha de ouro... Mas, acima de tudo, representa a qualidade e o trabalho que tem sido feito no futsal feminino português. Jogo contra as melhores no meu campeonato; tenho o privilégio de poder treinar também com as melhores; isso faz sobressair as minhas qualidades.

- Sendo certo que a seleção já partiu para o Mundial ciente da qualidade que tem e com o objetivo de pódio, esta era uma estreia de um Mundial. Em que momento é que pensaram que, se calhar, as coisas estavam a compor-se para a Taça poder vir para Portugal...
- Eu acho que a questão não é se houve algum momento em que nós dissemos que isto pode cair para o nosso lado... A questão, mesmo pelo ambiente que vivemos, é se houve algum momento em que nós duvidámos que ia a Taça poderia vir para Portugal...

- ... e a resposta é?
- A resposta é não. Nós dizíamos muitas vezes entre nós: estou com a sensação que isto vai cair para o nosso lado. Pela união, pelo campeonato extraordinário que temos feito. Chegar ao Mundial e, desculpem a expressão, espetar dez à Nova Zelândia... Fazíamos questão de não dar nenhum jogo por ganho… Quantos mais golos pudermos fazer, melhor; quanto mais pudermos pôr em prática coisas que possam ser úteis nos jogos daqui para a frente, melhor. Logo, a pergunta é mesmo essa: houve algum momento em que nós duvidássemos que íamos ganhar? Nós acreditávamos mesmo que era possível ganhar o Mundial.

- A cumplicidade que todas as jogadores revelam é um pilar do sucesso? E como se alcança?
- Tudo isto não começou a 3 de novembro deste ano, começou há dois anos, em 2023. Isso fez com que nos ficássemos a conhecer cada vez melhor umas às outras. Sabemos muitas vezes as movimentações que cada uma vai fazer, que espaço é que ela vai querer, tudo para que as coisas fluam em campo de forma natural. Fora de campo... Bem, a cumplicidade entre nós é incrível.

- Em 2024, quando recebe o quarto título de melhor guarda-redes do Mundo, disse que estava contente mas o principal sonho era ser campeã do Mundo. Esse sonho vai manter-se bem vivo por mais quatro anos?
- Sou uma atleta que sofre imenso com as derrotas. Têm um peso estrondoso, principalmente a curto prazo. Mas com o tempo transforma-se em motivação. Sofri tanto para chegar a vice-campeã do Mundo, nem quero imaginar a alegria que é ser campeã... Quero agarrar em tudo e transformar em motivação para daqui a quatro anos. Já terei 37, espero não ter nenhuma lesão. Se o míster entender que eu devo estar lá, obviamente que irei, de forma afincada, lutar pelo tão desejado título mundial.

- Além de parabéns e palmadinhas nas costas, o que é que vocês, jogadoras, mais precisam?
- Existem ainda muitas jogadoras, para não dizer a maioria, para quem o futsal é um part-time, um hobby. Seria extremamente importante conseguir profissionalizar a nossa liga. Aumentar o número de treinos, todos os clubes terem ginásio, acompanhamento nutricional, departamento de psicologia… Na Federação, já temos as condições praticamente iguais aos masculinos, nos clubes ainda não. Iria ajudar se muitas jogadoras não tivessem de acordar cedo, trabalhar oito horas, sair a correr para o treino, algumas até às 10 da noite… Chegam a casa à meia-noite e nem as oito horas conseguem dormir. Melhores condições não nos levaria a dar o máximo, isso já o fazemos, mas ajudaria a estarmos cem por cento empenhadas no futsal ajudaria a um trabalho de maior qualidade e com melhores resultados.

- É comum dizer-se que os guarda-redes têm de ser um pouco loucos… Fale-me um pouco dessa sua loucura…
- Para mim não é uma questão de loucura… Jogar à bola sempre foi a minha paixão. A primeira memória que eu tenho é jogar a bola em casa com o meu pai, no meu quarto. Sempre foi aquilo que eu mais quis e gostei de fazer. Guarda-redes? Calhou… Eu antes só gostava de jogar à frente e marcar golos. Fazer muitas fintas… Um dia calhou-me ir à baliza e desde esse dia não quis outra coisa. E acho que é mesmo uma questão de paixão, de amor por aquilo que se faz.

- Por quatro vezes já venceu o prémio de melhor guarda-redes do Mundo: 2018, 2020, 2021 e 2024... Tendo sido eleita a melhor guarda-redes do Mundial, ser a melhor do Mundo de 2025 parece-me mais do que previsível... Iguala as cinco distinções de Ronaldo, este como Bola de Ouro, e fica a uma de Ricardinho, um dos melhores de sempre do futsal masculino. Tem o objetivo de superar este registo e chegar à sétima eleição como melhor do Mundo? O que isso significaria?
- Significaria que ainda tenho uns aninhos pela frente a jogar... [risos] Significaria que estaria a fazer um bom trabalho, a ganhar títulos e a ajudar o clube e a Seleção. Já falei sobre essa hipótese com a minha família... Em relação a 2025, já tenho o prémio que queria: as Luvas de Ouro para melhor do Campeonato do Mundo. Se vier a de melhor do ano, fico feliz, caso contrário já tenho o que desejava. E em 2026, ninguém dúvida, cá estarei para lutar por essa eleição...

- E posso combinar já consigo que quando receber esse sétimo prémio vem a A BOLA mostrá-lo?
- Com todo o prazer, cá estarei...