Altitude, dores de cabeça e «festa» no Azteca: tudo o que disse Roberto Martínez
Roberto Martínez, selecionador de Portugal, fez em conferência de imprensa a antevisão do jogo da madrugada do próximo domingo, frente ao México, no Estádio Azteca, de preparação para o Mundial 2026.
Impacto de jogar no mítico Azteca
«No futebol adoramos memórias e momentos especiais. Jogar no Azteca é um momento especial para qualquer jogador. Lembro-me de ser um menino e olhar para o Mundial de 86 e da magia que aconteceu naquele estádio. Todos os adeptos têm uma história com esse estádio. É um estádio e uma seleção mítica. Os jogadores adoram vestir a camisola da seleção mexicana. É um bom desafio. O México é um adversário diferente, com um estilo da CONCACAF, agressivo, com muita intensidade e qualidade individual. Estou a adorar a dinâmica, o nível do treino, o sangue novo com responsabilidade, respeito, mas também com muita confiança. Vamos gerir os minutos com responsabilidade, vamos preparar o futuro sem perder o presente, mas acho que vai ser uma festa do futebol no estádio Azteca.»
Convocatória de Paulinho e hipóteses para o Mundial
«Já falei dos perfis dos pontas de lança. A posição de jogador de área na Seleção é espaço para o Cristiano Ronaldo e o Gonçalo Ramos. Depois tínhamos tínhamos a intenção de ver todos os jogadores na posição 10 e nas alas, o Pedro Gonçalves, o Ricardo Horta, o João Félix, o Chico, o Pedro Neto, o Rafael Leão. Quando o Rafael Leão sai da convocatória, precisamos de tomar uma decisão: ou chamamos um ala para substituir ou é o momento para o Paulinho? E a nossa decisão foi o momento do Paulinho pelo mérito. Tendo em conta a polivalência da nossa lista, utilizar o Gonçalo Guedes, que era o jogador para utilizarmos como atacante, como o Gonçalo Ramos, na ala e dar o espaço ao Paulinho. Só pelo mérito do Paulinho e pelo que está a fazer aqui no México. Está a trabalhar muito bem. Já disse que é muito difícil chegar à Seleção mas no futebol, na vida, precisas de de momentos de sorte. Pode ser que este seja o momento de sorte para o Paulinho, mas agora está nas suas mãos e ele vai ter o seu papel. É um jogador que tem muito boa ligação com muitos jogadores na Seleção.»
Treinar ao nível do mar antes de um jogo em altitude
«É um ponto científico. O corpo para adaptar-se a jogar na na altitude precisa de 14-15 treinos. Nós durante um Mundial não temos isso. O outro aspeto de poder trabalhar na altitude é treinar até ao último momento a um nível de mar. A ideia foi perceber como os jogadores conseguem ter os seus desempenhos em altitude, treinando ao nível de mar com muita humidade e a chegar à Cidade do México no último momento. Chegamos à meia-noite. Se no futuro precisarmos de jogar no Azteca, já temos muita informação sobre o que precisamos de fazer com os nossos jogadores individualmente para que estejam nas melhores condições.»
Gestão da baliza... e dos jogadores de campo
«Primeiro temos de gerir os minutos com responsabilidade, é importante protegermos os jogadores. Mas estamos aqui para competir bem. Quando a Seleção joga, joga para ganhar e ao mesmo tempo observar soluções diferentes e todos os aspetos de preparação. Ao nível dos guarda-redes, temos dois guarda-redes que têm vindo a trabalhar muito bem durante os estágios com o Diogo Costa: o José Sá vai jogar um jogo e o Rui Silva vai jogar o outro. Já agora uma palavra para o Ricardo Velho que voltou à Seleção e mostra por que é o quarto guarda-redes. Também convém dizer que é a primeira vez na história que a FIFA autoriza mais de seis substituições num jogo. É um aspeto importante, estamos a falar de março, que é um período difícil para os jogadores. Amanhã no jogo contra México temos 10 substituições e contra Estados Unidos temos 11. Queremos tentar que todos os jogadores tenham minutos dentro daquilo que o jogo precisa e para que a equipa tenha um desempenho de alto nível.»
Possibilidade de ser a primeira seleção europeia a vencer o México no Azteca desde 1981
«Não é fácil para uma uma seleção europeia jogar no Azteca. Então é um bom desafio para nós. Sabemos que a seleção mexicana em casa não perde há muito tempo contra uma seleção europeia. Respeitamos isso. Mostra a dificuldade para seleções europeias e é esse o desafio que nós estamos à procura. Todos os jogadores merecem ter minutos.»
Possível estreia de Mateus Fernandes
«O Mateus Fernandes é um exemplo muito bom da nossa formação em Portugal. É um jogador que sai por empréstimo no Estoril, faz uma boa época, sai para o estrangeiro, continua a crescer. Depois tem uma transferência de mais de 40 milhões de euros e agora está a ser um jogador muito importante, joga sempre na liga mais competitiva do mundo. A porta da seleção está aberta para situações como o do Mateus. Depois temos uma continuidade. Há jogadores novos, mas que já estiveram na seleção. O Samu Costa, o Paulinho, o Tomás Araújo. Adorei o primeiro dia. Uma seleção muito comprometida, muito profissional, muita confiança. São os nossos valores e o equilíbrio é bom. Esperamos que os jogos sejam os momentos chave para poder avaliar individualmente e coletivamente a nossa equipa.«
Chegada de Lourenço Coelho [novo CFO da FPF]
«A chegada do Lourenço foi muito importante, temos funcionado muito bem. É uma pessoa muito competente, um excelente profissional com muita experiência no futebol português e no futebol em geral. É uma pessoa muito afável também e o seu contributo tem sido muito importante para a fase final da preparação para o Mundial. O futuro da Federação está em boas mãos porque o papel do Lourenço não é só a Seleção A, é um ponto muito positivo.»
Dores de cabeça para a lista final
«É positivo porque já falei da complexidade da competição. Penso que o Mundial 2026 é o mais complexo daqueles que eu trabalhei. Precisamos de energia, de polivalência, de muitos aspetos táticos, a flexibilidade tática que já mostramos nos últimos 36 jogos. Precisamos agora de poder juntar tudo isso num grupo de 26 jogadores, de 23 jogadores de campo. As dores de cabeça são bem-vindas porque a escolha final precisa de ser difícil, não precisa de ser uma popular. Fiquei muito contente com aquilo que estou a ver durante este estágio. O objetivo deste estágio era procurar novas soluções, dinâmicas, a competitividade dentro do treino.»
O que Paulinho tem de fazer para demonstrar que é uma opção real para o Mundial
A coisa mais difícil é a simplicidade. O Paulinho tem de ser ele mesmo. A verdade é que o Paulinho provavelmente estaria em qualquer outra Seleção do Mundo, mas em Portugal é difícil quando tens jogadores como o Gonçalo Ramos e o Cristiano Ronaldo. Não é uma questão do que tem de fazer, tem de ser ele mesmo. É inteligente, tem treinado muito bem, é um prémio muito merecido pelo que tem feito no México, é um goleador nato. No futebol temos de sorte nas coisas que não podemos controlar. A decisão final não é do jogador, mas pode condicionar.»
Análise ao México
«Tenho uma admiração total pela seleção mexicana porque, desde muito pequenino, houve sempre jogadores que nos marcam no crescimento, como um Hugo Sánchez. é um jogador que te desperta interesse desde cedo, que vês e segues a sua seleção. Tenho acompanhado todos os Mundiais de perto e é incrível a paixão que existe em torno da seleção 'El Tri' com os adeptos. Creio que nessa paixão está tudo incluído. Tenho admiração total pelo 'Profe' Aguirre. O que ele fez em Espanha foi algo muito inovador quando chegou e consegue criar a sensação de grupo dentro da seleção. Vemos uma equipa muito bem organizada, muito bem estruturada, que sabe perfeitamente o que faz e que combina essa estrutura coletiva com a qualidade individual que todos sabemos que o México tem, aquele jogo interior entre linhas e a capacidade de finalização do Raúl Jiménez. Esperamos uma equipa que nos vai exigir muitíssimo nesse sentido, que é muito competitiva e que também, um pouco à imagem da nossa Seleção, é muito querida pelo povo que representa. É normal que haja essa necessidade de ganhar, de agradar, essa paixão faz parte da vida das pessoas que acompanham a seleção mexicana.»
Conversações no passado com o México e potencial da seleção
«Conhecem bem a vida de treinador, ganhamos três jogos e somos muito melhores do que somos, perdemos três e somos muito piores. Nunca mantenho contactos diretos enquanto tenho contrato, mas quando terminou o vínculo com a Bélgica, houve um par de conversas com a seleção mexicana, mas não foi nada de concreto. Creio que não sou a pessoa indicada para opinar sobre o que a seleção do México precisa. O que sei é que está sob o comando de alguém que tem todo o conhecimento e potencial para tirar o máximo deste grupo. Acredito também que, como organizador — sempre que o México organizou o torneio chegou aos quartos de final — falta sempre aquele passo que se resume aos detalhes dos Mundiais. Estamos a falar da melhor competição do mundo, onde estão os melhores jogadores, pelo que os detalhes são mínimos: uma bola que bate no poste e entra ou sai pode decidir se chegas longe ou não. Mas acredito que o México, a jogar em casa, com os seus adeptos, no Azteca. vão portar-se muito bem. Não tenho dúvidas de que o 'Profe' Aguirre é a pessoa perfeita para extrair o rendimento máximo dos seus jogadores.»
Favoritismo de Portugal
«Não somos favoritos. Só as seleções que ganharam o Mundial podem ser favoritas. É verdade que ganhámos provavelmente a edição mais difícil de sempre da Liga das Nações, jogámos dez partidas, vencemos a Alemanha e a Espanha na final. É normal que digam isso. Portugal é candidato sim, mas para seres favorito tens de ter ultrapassado essa barreira psicológica. Se tens uma geração que ganhou perguntas porque é que também não podes fazê-lo. O Brasil, a Inglaterra, a França, a Argentina entram de forma diferente. Não conheço nenhuma equipa que chegue campeã. Tem de fazer-se. Em 2010, a Espanha perde a primeira partida e ganha o Mundial, com a Argentina em 2022 aconteceu a mesma coisa. Adoro os jogadores que temos. Temos a convicção que podemos crescer nas três primeiras partidas.»