Agate Sousa é campeã do mundo no salto em comprimento - Foto: IMAGO
Agate Sousa é campeã do mundo no salto em comprimento - Foto: IMAGO

Aceitem que dói menos: o Portugal que nos enche de orgulho é feito de todas as cores!

A bofetada de ouro: quando o sangue imigrante faz tão mais por Portugal do que os falsos patriotas de gabinete. Guardem com amor e carinho estes nomes: Agate, Gerson e Isaac

Domingo, na Polónia, o ar estava gélido, daquele que corta a pele e encolhe a alma aos mais distraídos. Mas, entre o tartan de Torun e o pódio que teima em falar português, o calor que nos chegou à alma não veio do sol, mas do voo. Do voo de Gerson Baldé, da passada imparável de Agate de Sousa e da resistência de aço de Isaac Nader. Três nomes que, no mapa da nossa euforia, desenharam a geometria perfeita da vitória: dois ouros e uma prata. Três medalhas que pesam tanto como a nossa História, mas que parecem não caber na balança de alguns.

É curioso, para não dizer sintomático, o silêncio que se abate sobre certas bancadas da nossa praça pública quando o brilho do ouro não condiz com a paleta de cores de quem advoga uma portugalidade de sangue puro e árvore genealógica imaculada. Enquanto o País real vibrava com o salto de Gerson — que limpou a fasquia como quem limpa o pó a um preconceito antigo — e se rendia ao talento de Agate, os arautos da exclusão, os defensores de uma pátria pequena e ranhosa, pareciam sem rede ou sem voz.

Onde andam os guardiões dos «portugueses de bem»? Onde se meteram os que gastam o latim a dividir o «nós» dos «eles», quando o «eles» é, tantas vezes, o melhor de nós? Pelos vistos, o patriotismo desta nova direita radical, que cresce à sombra do medo e do ruído, é um patriotismo seletivo. Gostam da bandeira, mas preferem-na sem as mãos que a seguram, se essas mãos tiverem memórias de outras paragens ou apelidos que não soem a convento antigo.

Não há «portugueses de bem». Essa expressão é um escarro na face da nossa identidade. O que há é, e sublinhe-se, portugueses que fazem bem. Portugueses que sofrem no treino, que abdicam da juventude e que, na hora da verdade, elevam a esfera armilar ao topo do mundo.

Gerson, Agate e Isaac não são «imigrantes que correm por nós». São Portugal. Ponto final. Sem asteriscos, sem notas de rodapé, sem pedidos de autorização a quem se acha dono de uma linhagem que, na verdade, sempre foi feita de encontros, de partidas e de chegadas.

É de uma hipocrisia gritante celebrar as conquistas de Quinhentos e, depois, torcer o nariz aos que hoje, em sentido inverso, fazem o caminho da esperança para nos dar glória. Portugal sempre foi maior do que o seu território. A nossa verdadeira fronteira é o talento e a nossa língua é a da superação.

Quando Isaac Nader cerra os dentes na última curva, não está a correr pela sua herança; está a correr pela nossa esperança. Quando Agate voa sobre a areia, ela não está a saltar de um país para outro; está a aterrar no panteão dos nossos heróis desportivos.

Esta mudez da direita radical perante o sucesso destes atletas é a prova provada de que o seu projeto não é de amor à pátria, mas de ódio à diferença. Querem um Portugal a preto e branco, quando a nossa maior força sempre foi o tecnicolor da beleza da mistura.

O silêncio deles é o nosso maior aplauso. Porque enquanto eles se fecham em gabinetes a discutir quotas de pureza, o Gerson Baldé sobe mais alto, a Agate chega mais longe e o Isaac corre mais depressa.

Domingo, na Polónia, o hino nacional não desafinou. Foi cantado com sotaques diferentes, com peles de tons distintos, mas com o mesmo bater de coração.

No fim do dia, as medalhas não têm cor de pele; têm a cor do suor e a luz do orgulho. Portugal abraçou os seus filhos. Todos eles. E aos que ficam no canto, amargurados, a tentar definir quem pode ou não ser português, deixamos um conselho: olhem para o pódio. Lá em cima, o ar é mais puro e não se ouve o ruído da intolerância. Lá em cima, somos apenas Portugal. E como sabe bem ser este Portugal assim: livre, misturado e, acima de tudo, campeão.