A portuguesa Kika Cerqueira Gomes é presença assídua no paddock com Gasly. IMAGO
A portuguesa Kika Cerqueira Gomes é presença assídua no paddock com Gasly. IMAGO

A viagem desesperada de Pierre Gasly ao Uganda para financiar o sonho da F1

O piloto francês, namorado da modelo portuguesa Kika Cerqueira Gomes, viveu uma aventura desesperada e quase surreal em busca de patrocínio, que o levou a uma viagem de 48 horas ao Uganda no meio de umas eleições voláteis atrás de 170 mil euros

Esta é uma história de engano e desespero no caminho para a F1, que serve de alerta para os jovens pilotos. Pierre Gasly, piloto da Alpine, que ocupa o oitavo lugar no campeonato de F1 de 2026 e tem sido elogiado pelos seus resultados recentes, espera que a sua experiência sirva de aviso para aqueles que consideram «comprometer a sua vida familiar e modo de vida» em busca de um sonho difícil de concretizar.

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Em 2016, Gasly, que namora há vários anos com a portuguesa Kika Cerqueira Gomes, já integrava a equipa júnior da Red Bull há dois anos e tinha demonstrado potencial ao testar dois dos seus carros de F1. No entanto, Helmut Marko, o então diretor do programa de jovens pilotos da Red Bull, impôs um ultimato: ou Gasly vencia o título de GP2 (agora Fórmula 2) nesse ano, ou seria dispensado. Para aumentar a pressão, Marko reduziu o orçamento disponibilizado pela Red Bull para 500 mil dólares [427 mil eruos], apenas metade do necessário para competir numa equipa de topo da GP2.

Surgiu, no entanto, uma alternativa. A Prema Racing, uma nova equipa a entrar na GP2, aceitava uma proposta mais baixa, de 700 mil dólares. Gasly sabia que, com o orçamento da Red Bull, numa equipa inferior, teria «uma hipótese de ficar no top cinco», mas isso «não o levaria à F1». Assim, dias antes de fazer 20 anos, assinou pela Prema. «Foi do género: 'Temos de o fazer, e vou encontrar 200 mil dólares não sei onde’», afirmou.

A um passo de alcançar o sonho da Fórmula 1, Pierre Gasly, então com 19 anos, viu-se numa situação desesperada. Precisava de 200 mil dólares, qualquer coisa como 171 mil euros, para completar uma época crucial na sua carreira, mas o dinheiro não existia.

Apesar de também receber algum apoio da federação francesa de automobilismo, Gasly encontrava-se numa encruzilhada. «Estava por minha conta, sem um manager [para ajudar a encontrar patrocínios]», recordou o piloto.

A família Gasly, embora com posses consideráveis, não conseguia cobrir a falha de financiamento, especialmente porque Marko já tinha sugerido que a promoção à F1 em 2017 era possível se vencesse o título de GP2 em 2016. A promessa era que o empresário tinha «250 mil dólares para investir no desporto», o que parecia ser a solução perfeita para o problema do jovem piloto francês.

Chegou, então, um e-mail que o levaria ao Uganda. Gasly explicou que ele e os seus pais foram contactados por «um tipo legítimo em França, o que torna o que aconteceu ainda mais estranho». Um intermediário da indústria de patrocínios desportivos em França, cujo nome Gasly não revelou, informou-o de que um empresário ugandês, supostamente envolvido em negócios de «exportações, importações, Rússia, África», poderia cobrir o défice orçamental.

O potencial investidor trabalhava entre Moscovo e o Uganda. O piloto francês sugeriu um encontro em Moscovo, a apenas três horas e meia de voo de Paris, mas o misterioso benfeitor recusou. «Ele disse: 'Bem, não posso sair agora. Por isso, tens 48 horas para chegar aqui'», contou Gasly. A proposta era clara: «'Se estiveres interessado, podes vir encontrar-te comigo e com o meu advogado. Caso contrário, não há problema. Encontrarei outra coisa em que trabalhar'».

A decisão dividiu a família Gasly. O pai, Jean-Jacques, opôs-se veementemente à viagem, preocupado com a instabilidade política no Uganda, onde decorriam eleições tensas entre Yoweri Museveni e Kizza Besigye, marcadas por irregularidades e violência. «O meu pai disse: 'Nem penses em ir para lá'», recordou o piloto. No entanto, a sua mãe, Pascale, recusou-se a deixá-lo ir sozinho. «A minha mãe, sendo mãe, disse: 'Bem, não vou deixar o meu filho fazer isto sozinho'. O passo seguinte foi comprar os voos. E acabámos por ir para o Uganda no dia seguinte».

A viagem, que custou 3600 dólares, cerca de 3 mil euros, em bilhetes de classe económica, começou de forma caótica. Ao aterrarem no Aeroporto Internacional de Entebbe, o motorista que os deveria esperar não apareceu. Foram obrigados a apanhar um táxi avariado que teve de parar para encher os pneus. «Havia militares por todo o lado. Estradas principais bloqueadas. Fogo por todo o lado. Foi revelador», descreveu Gasly sobre o cenário que encontrou.

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Ao chegarem ao hotel em Kampala, o suposto investidor continuava incontactável. Na manhã seguinte, em vez de aparecer, enviou o seu advogado, alegando ter de votar. A aparência do representante legal só aumentou as suspeitas de Gasly. «O advogado apareceu com uma camisa de flores e chinelos. Sentou-se e disse: 'Estou aqui a representar este tipo'. Eu pensei: 'Ok, sabe para que está aqui?'. Ele respondeu: 'Só sei que queres o dinheiro dele, mas tens de me explicar porquê'».

A conversa tornou-se ainda mais bizarra quando o advogado propôs uma forma duvidosa de entregar o financiamento: 200 mil dólares em barras de ouro. «Recusámos», afirmou Gasly. «Não sou negociante de ouro… Estávamos à procura de dinheiro e acabámos por perder dinheiro».

O episódio deixou marcas, com o pai a não lhe falar durante «umas semanas por nos termos colocado naquela situação». Contudo, Gasly vê o lado positivo da experiência. «Por outro lado, quando voltei, fez-me apreciar tudo o que tinha a outro nível. Foi revelador do ponto de vista humano», refletiu.

Apesar do revés, a determinação de Gasly não esmoreceu. Nove meses depois, conquistou o título de GP2 de 2016 com a Prema, após uma intensa batalha com o seu colega de equipa, Antonio Giovinazzi. Para pagar a temporada, conseguiu novos patrocinadores. «Levou tempo, e o Rene [Rosin] foi muito simpático. Deu-me tempo extra para cobrir os custos», explicou o piloto.

A sua estreia na F1 aconteceu no final de 2017 com a equipa júnior da Red Bull, a Toro Rosso. Após uma passagem curta pela equipa principal em 2019, regressou à agora renomeada AlphaTauri e alcançou uma vitória memorável no Grande Prémio de Itália de 2020, antes da sua transferência para a Alpine em 2023.

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O custo para chegar à Fórmula 1 disparou, com o preço médio de um lugar na F2 a triplicar na última década, aproximando-se agora dos 3 milhões de dólares, mais de 2.5 milhões de euros. Pierre Gasly, piloto da Alpine, alerta para os enormes sacrifícios financeiros que as famílias fazem, muitas vezes sem qualquer garantia de sucesso.

O piloto francês, que esteve perto de ver o seu sonho gorado por falta de orçamento, adverte que muitos jovens pilotos estão a assumir compromissos financeiros ainda mais cedo nas suas carreiras. «As pessoas comprometem a sua vida familiar e o seu modo de vida — isso acontece muito (nas categorias de formação)», afirmou Gasly.

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Segundo o piloto, o risco é imenso e o retorno incerto. «Pode haver uma hipótese de um ou dois por cento, e as pessoas apostam tudo. Vemos famílias a comprometerem os seus próximos 15-20 anos, assumindo um risco tão grande quando o mais provável é que não compense», explicou o namorado da portuguesa Kika Cerqueira Gomes.

A história de Gasly, no entanto, teve um final feliz. A sua transferência para a Alpine colocou-o entre os pilotos mais bem pagos da F1, com um salário superior a 10 milhões de dólares anuais [8.5 milhões de euros], após a assinatura do seu primeiro contrato em 2023 e uma renovação em 2025. Este sucesso financeiro permitiu-lhe tornar-se investidor.

Atualmente, Gasly tem investimentos no clube de futebol francês da terceira divisão, o FC Versailles, e, a partir de janeiro de 2026, na equipa de MotoGP liderada pelo antigo chefe de equipa de F1, Guenther Steiner. Os negócios, incluindo investimentos imobiliários, são um dos seus principais interesses fora das pistas.

O piloto sente agora a necessidade de retribuir. «Quero apenas retribuir o máximo que puder», disse Gasly. «Os sacrifícios dos meus pais também afetaram os meus irmãos, (por isso) garanto que toda a minha família está protegida».

Refletindo sobre a sua jornada, o francês conclui: «Além disso, agora posso fazer as coisas de que gosto na vida. Sempre gostei de futebol, posso estar envolvido no futebol. E no padel. A vida vai crescendo e surgem oportunidades diferentes, que em 2016 eu estava a milhas de imaginar».