A avaliação da equipa técnica, Inácio e o clássico. Tudo o que disse Rui Borges
- Que análise faz ao Arouca, uma das equipas que tem surpreendido neste arranque de campeonato?
- É uma das boas equipas do nosso campeonato, apesar do resultado menos positivo na última jornada. Acho que teve o treinador do mês [Vasco Seabra]. É uma equipa que gosta de ter bola mesmo com a equipa grande. Gosta de ter posse e ser associativa, sem perder a verticalidade com um outro jogador, mesmo contra os grandes. Esta época, parece-me ainda mais consistente defensivamente. O treinador é conhecido por tentar valorizar o futebol, mas estamos mais focados no que podemos fazer para seguir o nosso caminho.
- A equipa já perdeu várias vantagens não só esta época como na anterior. Sente que existe uma falta de consistência na equipa?
- Consistência? Já perdi um ou outro resultado nos últimos minutos, mas também já ganhei. Em termos de consistência, com o Rui Borges, o Sporting foi campeão nacional, teve 82 pontos em duas épocas, foi aos quartos da Liga dos Campeões, venceu a Taça de Portugal, foi a equipa que mais golos marcou na era Rui Borges. Somos uma equipa que queremos marcar. Sou muito positivo e olho para as coisas boas. Estamos cientes do que temos a melhorar e de trabalhar, mas estamos otimistas porque tem sido muito positiva.
- Esta será uma jornada de Clássico. Que resultado beneficia mais o Sporting?
- Estou preocupado apenas com os nossos jogos e em fazermos tudo para conseguirmos uma vitória perante os nossos adeptos.
- Qual a sua ideia para a construção do meio-campo, até porque há jogadores que ainda não apareceram como Pedro Lima ou Silas Andersen que estiveram bem na pré-época….
- O trabalho da pré-época tem sido um pouco igual ao de agora, serviu para trabalhar dinâmicas. Temos de tomar decisões e encontrar as melhores ligações dentro da equipa para encarar o próximo jogo. O Pedro Lima tem crescido, tal como o Jesse Derry e o Irankunda. O Pedro Lima, por exemplo, estava numa equipa que defendia em bloco baixo para sair para transições e agora está numa equipa que tem de ter posse e tomar decisões mais rápido. O Silas tem aparecido e muito bem. Vem de um contexto diferente e uma exigência diferente da Liga. Todos, à sua maneira e no seu tempo, irão ter as suas oportunidades.
- Jorge Jesus chamou Gonçalo Inácio para a Seleção Nacional e disse que com ele iria jogar bem. Acredita que Jorge Jesus pode trabalhar outros aspetos com o jogador nesta fase?
- O Inácio e qualquer um têm de melhorar em alguns aspetos. Fico feliz por vê-lo na Seleção, demonstra que não esteve assim tão mal como vocês dizem. Não vou avaliar um jogador por um auto-golo ou por falhar dois passes. Falha mais porque arrisca mais que os outros, já o tinha dito. Tem tido consistência no Sporting e está focado e tranquilo. Não há recado nenhum de Jorge Jesus, ouvi-o a dizer que era a vossa opinião e que ele não concordava. Acredito que vai aprender muito com o mister Jorge Jesus, é um grande treinador e oxalá que ajude o Inácio a crescer em algumas coisas.
- Disse que Eduardo Quaresma estaria na calha para ir à Seleção, assim como Flávio Gonçalves. Ficou surpreendido pela não convocatória?
- Não sou ninguém para justificar convocatórias. Eu escolhia uns e o mister escolheu os seus melhores para representar a Seleção e estarei sempre com os que ele escolher porque a Seleção dele é a nossa e a minha. Trabalho com o Edu e o Flávio e sei das suas capacidades e a seu tempo irão à Seleção, não tenho dúvidas. Sabem o que têm de melhorar para entrar nas futuras escolhas do selecionador e estão tranquilos. Vejo com bons olhos quem foi convocado. Fico feliz por ver o Rui Silva e o Inácio novamente na Seleção e no futuro haverão outros do Sporting.
- Como está a situação clínica com o plantel?
- Fora deste jogo, estão o [Ibrahima] Ba e o Moncef [Zekri] e o Blopa por opção porque já começou a treinar, o Simões está convocado.
- O Sporting teve dois jogadores na Seleção, saíram Pedro Gonçalves, Trincão… mas dos reforços contratados nenhum foi português…
- Independentemente de ter jogadores portugueses, a adaptação tem a ver com os jogadores que ficam de umas épocas para as outras para perceber e mostrar a exigência do Sporting. Não fugimos à nossa formação e aos jogadores portugueses. Em alguns anos, não teremos tantos portugueses como desejamos, mas estão a aparecer na formação para vir o mais rapidamente para a equipa principal. Em relação a compras, o nosso mercado também é caro e eu olho muito e gosto de olhar para a nossa liga para jogadores que já estão inseridos no nosso campeonato. Equipas como o Famalicão e o SC Braga vendem muito caro. As equipas de meio da tabela também o fazem, até com estrangeiros, e isso condiciona o nosso mercado interno. Mas olharemos sempre muito para os jogadores portugueses.
- Já disse que Inácio esteve bem na sua opinião, mas como sentiu o jogador a nível emocional depois de dois autogolos. Pode confirmar a sua entrada no onze?
- Não posso confirmar a titularidade do Inácio porque ninguém sabe. Ele está super tranquilo. Teve a infelicidade de fazer um auto-golo, mas não é dele, é da equipa. Olhamos para o coletivo. Fomos penalizados num momento de um jogo em que não deixámos o adversário criar absolutamente nada, tirando um cabeceamento na primeira parte e o golo a acabar o jogo. Eu olho para a parte positiva. Empatámos dois jogos e estamos mais atrasados do que queremos e queremos ganhar sempre. Agora, há coisas que não controlamos. Honestamente, preferia chegar ao fim do jogo, falar com a equipa e dizer 'Tivemos mal em organização defensiva, perdemos muitas posições, perdemos duelos, deixámos o adversário construir muito', mas não consigo dizer isso. Fizemos o suficiente para vencer o jogo, mas podíamos ter feito mais na parte ofensiva e criar mais ocasiões de golo. Mas o adversário com 11 jogadores dentro da área. Numa equipa nova, claro que queremos crescer com vitórias porque essa é a exigência do Sporting. Queremos lutar por tudo o que estamos inseridos. Aqui ganha o grupo e perde o grupo.
- Concorda com quem aponta falta de liderança no plantel? Quem são as vozes do treinador dentro de campo?
- Os líderes são os capitães de equipa que estão lá, mas não precisam de ser capitães. Alguns aparecem como líderes por natureza e com o passar do tempo vão se impor na comunicação e exigência para com os colegas. Falta-nos alguma maturidade, temos uma equipa jovem, não vamos fugir a isso, mas faz parte. Temos de ajudá-los e puxar por eles individualmente para crescerem no carácter para se imporem e passarem a exigência do Sporting para quem ainda não a percebeu a 100 por cento.
- Até que ponto esta jornada é importante, tendo em vista um clássico, a paragem que se segue….
- É muito importante ganhar. Primeiro porque vimos de um empate e se queremos lutar para ser campeões, temos de ganhar. Não ficamos felizes por ganhar apenas, queremos jogar bem. Além disso, entramos numa pausa para seleções e é importante entrar com uma vitória e manter os níveis de confiança coletiva e, sobretudo, individual. Depois da pausa, temos uma deslocação difícil a Braga. Queremos ganhar independentemente de haver paragem para encurtar a distância para os nossos adversários. Já não dependemos só de nós, tem de haver um resultado menos positivo de quem vai à nossa frente. Naquilo que controlamos, temos menos quatro pontos do que queríamos. Temos de crescer, mas crescer a ganhar.
- Já falou da juventude do plantel e do tempo que será necessário para se criarem novas dinâmicas. Acredita que a exigência dos adeptos pode ser pouca para esperar….
- A exigência dos adeptos vai existir sempre e ainda bem. Tem de haver essa exigência porque toda a gente se pode acomodar e temos de saber lidar com ela. Não me preocupa. Temos de perceber o contexto e as histórias que se contam. Olhar para o trajeto e não apenas dois jogos. O trajeto da nossa equipa técnica no Sporting não é bom, é muito bom. Tenho duas derrotas no campeonato português. Queria ganhar muito mais, queria ganhar mais troféus que não consegui, mas estive lá nas decisões e farei sempre tudo para estar lá. Seja no campeonato ou na Champions. Não sei se nos últimos 20 anos, houve alguma equipa portuguesa a fazer aquilo que fizemos na época passada. Estou muito feliz com o nosso trabalho, mas queríamos ter ganho mais. O nosso trabalho desde há dez anos até aqui deixa-me muito tranquilo. Tenho a certeza que vamos crescer e estar nas decisões.
- Flávio Gonçalves tem jogado muito mas nunca completou um jogo. Mais por questões estratégicas ou gestão física?
- O Flávio tem sido mais vezes substituído por diferentes motivos. Às vezes é tática, às vezes é gestão, às vezes tem a ver com o adversário e a parte física do atleta. O Flávio tem tido golos e assistências, mas temos de olhar para a consistência do jogo dele e avaliar tudo, como com todos os outros. Até porque é jovem tem de entender o equilíbrio 'Ok, fizeste golo, mas não fizeste tudo bem, calma. Tens de crescer muito'. Isto serve para o Flávio e para outro jogador qualquer. Temos de olhar para todos os critérios de avaliação do jogo dele. Cresceu imenso, é um predestinado, mas tem de crescer com os pés na terra. Teve paciência na época passada em que andou o tempo quase todo a treinar connosco na equipa A. Estreou-se comigo, mas não teve assim tanto tempo de jogo. Mas se calhar por isso é que está tão bem preparado para este início. Foi a consistência do trabalho dele e tem de continuar. Se deixar de perceber isso, vai para baixo outra vez. É uma equipa jovem, têm de perceber 'Fiz uma coisa boa, mas não chega, tenho de fazer mais'. Ele é um puto esperto e trabalha muito bem.