Artrose do joelho: entre o mito e a evidência
A relação entre o desporto e a artrose do joelho (frequentemente, chamada «cartilagem gasta») é das menos compreendidas. As lesões articulares graves do atleta, como as meniscais e as ligamentares, aumentam o risco de artrose, anos mais tarde. Contudo, também sabemos que a atividade física regular é uma das melhores aliadas da saúde articular. Desta aparente contradição, nasce um mito persistente: de que o joelho se gasta com o uso e de que, a quem já tem artrose, só resta poupá-lo. Esta é a recomendação mais comum e, ao mesmo tempo, a mais prejudicial, pelo que vale a pena confrontá-la com o que a evidência hoje demonstra.
A artrose do joelho não se resume a um desgaste passivo da cartilagem: é uma doença de todo o órgão articular, com remodelação do osso subcondral e uma inflamação. A cartilagem é tecido vivo e o condrócito responde à carga: dentro de limites fisiológicos, o movimento é um estímulo trófico, não uma agressão. Retirar a carga não a preserva; apenas promove a atrofia muscular e a instabilidade que, essas sim, fragilizam o joelho.
Por isso, devemos olhar para o exercício como um tratamento de primeiro linha, de acordo com as recomendações de sociedades científicas internacionais de referência, como a OARSI (Osteoarthritis Research Society International) e o Colégio Americano de Reumatologia, e com a confirmação das revisões da Cochrane, que documentam redução da dor e ganho de função sem qualquer sinal de que a doença acelere. No entanto, convém desfazer dois equívocos persistentes. O primeiro é confundir dor com dano: o que importa não é o desconforto do esforço, mas a sua evolução nas horas seguintes, e nas crises modula-se a carga, não se abandona o movimento. O segundo é ler a radiografia como sentença, quando a discordância entre a imagem e a clínica é relativamente frequente: trata-se o doente, nunca a radiografia.
Definido o lugar do exercício, importa situar a medicina regenerativa, cuja relevância no tratamento é própria e crescente. Ao contrário da analgesia clássica, os tratamentos ortobiológicos permitem intervir sobre o próprio ambiente articular. De todos, o plasma rico em plaquetas (PRP) é o mais sustentado: os ensaios documentam uma melhoria da dor e da função, com bom perfil de segurança e o recente consenso europeu da ESSKA posiciona-o como opção injetável de primeira linha na doença ligeira a moderada.
O tratamento da artrose do joelho faz-se por etapas: o exercício, a educação e o controlo do peso; os condroprotetores, os ortobiológicos e, a seu tempo, a cirurgia. O joelho não é uma peça que se gasta: é um órgão que responde ao estímulo certo e a arte clínica está em saber escolhê-lo.
A artrose tem tratamento sem cirurgia se realizado em tempo útil!