João Gonçalves foi o árbitro do Estrela da Amadora-Sporting - Foto: MIGUEL NUNES
João Gonçalves foi o árbitro do Estrela da Amadora-Sporting - Foto: MIGUEL NUNES

A arbitragem errou, mas o Sporting é que empatou

O Mundo Sabe Que é o espaço de opinião de Nuno Saraiva, consultor e sócio do Sporting Clube de Portugal

Muda a época, renovam-se as expectativas, mas há coisas que permanecem teimosamente iguais no futebol português. A má qualidade da arbitragem continua a ser uma delas.

Por ironia, a discussão regressa precisamente ao ponto que Pedro Proença, atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol, colocou em debate antes da temporada. Os áudios eram privados e a sua divulgação merece condenação. Mas uma coisa é censurar a forma como aquelas palavras chegaram ao espaço público, outra é discutir se o diagnóstico feito sobre a mediocridade da arbitragem portuguesa era pertinente.

No Estrela da Amadora-Sporting, João Gonçalves teve decisões corretas, mas também outras difíceis de entender. Aos 67 minutos, quando Eddy Doué agarrou e puxou Luis Suárez por trás, tocando-lhe inclusivamente na zona do pescoço/cabeça, ficou por mostrar o segundo amarelo. Suárez reagiu mal e foi corretamente advertido. A reação do jogador do Sporting não apaga a infração anterior: Doué já tinha amarelo e era passível de expulsão.

Poucos minutos depois surgiu o lance que mais impacta na análise do resultado. Antonetti, com a bola ainda não jogável, usa os braços sobre Eduardo Quaresma e puxa-o para trás. O central perde a posição e a jogada prossegue até ao golo do Estrela. Pedro Henriques, especialista de arbitragem d’A BOLA, considerou que existiu falta e que o VAR deveria ter intervindo, por entender que as imagens demonstravam uma infração com impacto na jogada. João Gonçalves deixou seguir e o VAR ficou em silêncio. O Estrela reduziu, então, para 1-2. Aqui, árbitro e VAR têm responsabilidade direta na construção do resultado.

Importa, por isso, verificar se existe consistência de critérios. Se um determinado tipo de contacto ou puxão é considerado suficiente num estádio, terá de o ser noutro. E será interessante perceber como serão julgados lances semelhantes aos dois penáltis que deram ao FC Porto a vitória sobre o Alverca. A coerência e o respeito pelas leis do jogo são as únicas linguagens aceitáveis na arbitragem.

Mas, aqui chegados, importa colocar uma questão: Terão sido os pecados de João Gonçalves a causa para que o Sporting tenha deixado dois pontos na Amadora? A resposta é simples e categórica: Não!

Uma equipa candidata ao título que, aos 70 minutos, está a ganhar por 2-0 na Reboleira, depois de ter dominado praticamente toda a partida, não pode procurar no árbitro a explicação principal para um empate que nasce, em larga medida, dos seus próprios erros.

O Sporting tinha o jogo controlado. Rodrigo Zalazar marcou logo no início da segunda parte e Fotis Ioannidis fez o 0-2 poucos minutos depois. Até aí, tinha sido claramente superior. Mas começou a desligar e, à medida que Rui Borges mexeu na equipa, perdeu qualidade e controlo.

A saída de Ioannidis, praticamente logo depois de marcar o golo que tanto procurara, foi um erro de timing. Estava confiante e podia continuar a ser uma referência. No seu lugar entrou Luis Suárez, que já vinha dando sinais preocupantes durante a semana e não parecia psicologicamente preparado para aquele contexto. Proteger um jogador é também a responsabilidade de um treinador.

E isto é tanto mais difícil de compreender quando no banco estava Rafael Nel, uma das figuras da pré-temporada. Doumbia, sem estar ao seu melhor nível, permaneceu demasiado tempo em campo. Flávio Gonçalves, que estava a fazer um dos seus melhores jogos, saiu quando ainda dava equilíbrio e intensidade à equipa. E depois houve Eduardo Quaresma.

O central fez, na minha opinião, um jogo excecional. Cometeu um erro no lance do primeiro golo do Estrela ao deixar-se ficar à espera que o árbitro apitasse a falta que sofreu? Cometeu. Mas esse erro não explica sozinho o empate. No final, arrasar publicamente um jogador que acaba de errar merece ser questionado. Um treinador deve exigir mais aos jogadores, mas deve também assumir a sua quota-parte de responsabilidade.

É aqui que a autocrítica se torna indispensável. Quem mexeu na equipa e a desligou do jogo foi, naturalmente, o treinador. Se o Sporting sair da Reboleira convencido de que empatou por causa de João Gonçalves, corre o risco de não perceber a verdadeira dimensão do problema.

Sim, a arbitragem portuguesa continua a deixar demasiados motivos para discussão. O Sporting tem diversas razões de queixa, até porque, uma das decisões de João Gonçalves, teve impacto direto no primeiro golo do Estrela. É legítimo exigir critérios uniformes e um VAR mais interventivo. Mas isso não pode esconder aquilo que o Sporting fez — ou deixou de fazer — depois do 0-2.

Uma equipa que quer ser campeã tem de ganhar jogos como este, controlar a vantagem, gerir substituições e nunca perder o controlo emocional. O Sporting deixou escapar dois pontos porque, depois de fazer quase tudo bem durante cerca de três quartos do jogo, fez demasiadas coisas mal nos últimos 20 minutos.

A arbitragem tem de melhorar. O que aconteceu não prova, isoladamente, uma tese sobre toda a arbitragem portuguesa, mas também não ajuda quem queira contrariar o diagnóstico de Pedro Proença. A resposta tem de ser competência, transparência e coerência.

Perder dois pontos na Reboleira pode acontecer. Não aprender por que razão se perderam é que seria imperdoável — a começar em Rui Borges.

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